Soweto reflete avanço da África do Sul quase 20 anos após eleição de Mandela

Por Gustavo Abreu , de Johanesburgo | - Atualizada às

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Township onde ex-presidente morou por 15 anos vive cheia de turistas em busca de herança cultural, é dominada por classe média e tem milionários e até catedral da Igreja Universal

As mesas do restaurante Sakhumzi em Orlando West, subúrbio de Soweto, na cidade de Johanesburgo, vivem cheias. Todos os dias grupos de turistas e moradores da região passam por lá à procura de pratos típicos da África do Sul. No cardápio, carne de gazela, salsicha boerewors (espécie de linguiça holandesa), ensopado de tripas e um purê branco e pesado de milho, muito parecido com a polenta brasileira. Jovens artistas circulam pelo quarteirão, apresentando números de dança e tentando vender lembranças locais aos visitantes.

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Gustavo Abreu
Placa recepciona turistas na entrada de Soweto; a township é localizada a 30 quilômetros do centro de Johanesburgo

Aposta: África do Sul incentiva turismo em região do povo zulu, seu maior grupo étnico

Não é à toa o sucesso do estabelecimento. A popularidade do Sakhumzi se deve a seu endereço privilegiado: a Rua Vilakazi, mais conhecida como a única rua do mundo onde moraram dois ganhadores do prêmio Nobel da Paz.

A vizinhança agitada, que um dia foi palco de revoluções do povo negro contra o apartheid (regime de segregação racial sul-africana), hoje reflete as mudanças que aconteceram no país quase 20 anos após seu morador mais ilustre ter sido eleito o primeiro presidente negro da África do Sul.

Nelson Mandela, ou melhor, senhor Nelson Mandela (como os moradores de Soweto fazem questão de dizer), morou do outro lado da rua, no número 8.115, durante 15 anos.

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Em uma casinha simples, de três cômodos, criou seus filhos (uma delas morreu aos 9 meses), primeiramente ao lado de sua primeira mulher, Evelyn Mase, e depois a segunda, Winnie, antes de ficar preso durante 27 anos. Voltou por 11 dias, em 1990, e bem ali fez alguns de seus primeiros discursos como um homem livre.

Está escrito em sua sua autobiografia, “Um Longo Caminho Para a Liberdade”: “Aquela noite eu retornei com a Winnie ao número 8.115 em Orlando West. Foi só naquele momento que soube no meu coração que tinha deixado a prisão. Pra mim, o número 8.115 foi um ponto central no meu mundo, o lugar marcado com um X na minha geografia mental.”

“Esse é um dos lugares mais importantes na história da África do Sul”, diz Benjamin Mamatela, de 29 anos. Nascido e criado em Soweto, o gerente do restaurante vizinho não se cansa de apontar quão grande é a honra de trabalhar em um lugar que será lembrado pra sempre na trajetória de seu povo. “Aqui vive cheio de celebridades querendo aprender sobre nossa cultura”, conta.

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AP
Hussein Gallo, é visto em mural de Nelson Mandela em Soweto, Johannesburg (07/06)

Ao lado do Sakhumzi, uma casa de muro cinza também atrai curiosos e turistas querendo tirar fotos. Ali reside até hoje o segundo Nobel de Soweto, o arcebispo Desmond Tutu, conhecido por travar uma luta pacífica contra o apartheid à frente da Igreja Anglicana da África do Sul. “Mas ele não fica muito aqui. É um homem ocupado”, explica Benjamin.

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Já a casa do sr. Mandela virou um museu para guardar histórias de sua família como fotos, certificados, diplomas, móveis originais e uma réplica da cama que ele dividiu com Winnie. O local é mantido pelo Soweto Heritage Fund, fundo criado em 1997 pelo próprio presidente, como meio de cultivar a herança cultural de Orlando West. “Deus quis que o Mandela fizesse isso tudo”, aponta Madonna Seruto, 60 anos, funcionária da Mandela House desde 2005.

Assim como muitos de sua geração, Madonna fez parte dos movimentos estudantis de 1976 em que o jovem Hector Pieterson, de 13 anos, foi morto em frente da instituição de ensino Orlando West High School, a 500 metros da casa de Mandela. O episódio é considerado o primeiro estopim da luta contra o apartheid, e existe um museu dedicado a ele, o Hector Pieterson Museum, na mesma praça onde o garoto foi baleado pela polícia.

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“Até hoje ainda me pergunto de onde tiramos força”, ela diz, lembrando-se dos tempos quando não podia pisar na mesma calçada dos brancos. Madonna nasceu em Randfontein, a 45 quilômetros de Joanesburgo, mas se mudou para Soweto em 1973 para estudar e trabalhar. “Quando encontro os amigos da época, a gente lembra do que aconteceu, e vendo as crianças hoje é difícil de explicar. Os filhos dos nossos filhos não sabem que tivemos de lutar.”

Milionários, shopping center e Igreja Universal

Getty Images
Turistas tiram fotos em frente à casa onde Nelson Mandela morou por 15 anos antes de ser preso

Atualmente Soweto é considerado uma região de classe média, apesar de 1% de sua população viver em barracões ou prédios ocupados. Com cerca de 3,5 milhões de habitantes, é a maior “township” da África do Sul, espécie de cidade-satélite criada pelo governo do apartheid para alojar os negros quando eles foram proibidos de morar nas cidades.

No entanto, até a eleição de Mandela, em abril de 1994, seus moradores realmente ainda viviam sob condições de pobreza extrema. “Quando ele saiu da prisão, veio aqui na frente da casa e prometeu que traria energia elétrica e pavimentaria as ruas. Hoje temos isso e foi graças a ele”, diz Madonna.

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Andando pela região, é realmente impressionante perceber as diferenças entre o que se vê agora e a fama pobre de Soweto. O local atualmente abriga shopping centers como o Maponya, construído pelo homem mais rico da township, Richard Maponya, e até uma catedral da Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, para 8 mil pessoas.

Algumas áreas da township, inclusive, são consideradas de alto padrão, e por lá reside um grupo conhecido como “os milionários de Soweto” - ou, como se brinca, a “Beverly Hills do Soweto”. É comum dizer que, não importa se você é rico ou pobre, quem nasce no Soweto não quer deixá-lo.

Desde a Copa do Mundo de 2010, quando o país passou a reconstruir sua imagem em meio ao desenvolvimento econômico, o Soweto tem fortalecido cada vez mais sua importância na herança cultural da África do Sul. Isso se soma ao projeto do governo de Johanesburgo de rejuvenescer a cidade, impulsionando melhorias no setor público.

Réplica da cama e do cobertor de Mandela, de quando ele morou no número 8.115 com Winnie, sua segunda mulher. Foto: Gustavo AbreuDetalhe da mesa original na casa de Nelson Mandela, localizada no número 8.115 da rua Vilakazi. Foto: Gustavo AbreuCasa onde Mandela criou seus filhos tem apenas três cômodos; ele morou lá com sua primeira mulher, Evelyn, e a segunda, Winnie. Foto: Gustavo AbreuMadonna Seruto, 60 anos, trabalha como guia na Mandela House desde 2005. Foto: Gustavo AbreuEntrada do restaurante Sakhumzi; local passa por reformas e vai virar um centro cultural no coração de Soweto. Foto: Gustavo AbreuPrato do restaurante Sakhumzi: cardápio oferece comida típica das townships e outros pratos sul-africanos. Foto: Gustavo AbreuBenjamin Mamatela (dir.), gerente do Sakhumzi, ao lado do garçom Xolani. Foto: Gustavo AbreuResidência de uma área privilegiada de Soweto, conhecida como a 'Beverly Hills do Soweto'. Foto: Gustavo AbreuFachada da casa de Desmond Tutu na rua Vilakazi, ao lado do restaurante Sakhumzi, em Orlando West. Foto: Gustavo AbreuPlaca da Vilakazi, única rua do mundo onde moraram dois ganhadores do Nobel da Paz, Nelson Mandela e Desmond Tutu. Foto: Gustavo Abreu

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O restaurante Sakhumzi também faz parte desse movimento. Atualmente, o local está passando por reformas e até dezembro vai virar um grande complexo cultural, com palco para apresentações de artistas e bandas, além de abrir um espaço para sediar debates e encontros com líderes locais. O lugar mais movimentado da rua Vilakazi passou a ser um ponto de encontro tão importante para o Soweto que recentemente a rede britânica BBC instalou câmeras no local e está captando imagens 24 horas por dia para um documentário spbre a comemoração dos 20 anos da eleição de Mandela, em abril de 2014.

Madonna comemora com orgulho as mudanças que aconteceram em sua township. Ela aponta como a maior conquista de Soweto o fato de terem colocado todas as suas crianças na escola. “Hoje as crianças têm tudo nas mãos. Elas têm a tecnologia e sabem de tudo que está acontecendo no mundo. Quando eu era jovem, os assuntos eram escolhidos para nós pelos brancos”, diz.

Em um momento delicado para a África do Sul, com o agravamento do estado de saúde de Mandela, ela também não tem dúvidas ao afirmar: “O futuro é promissor.”

*Repórter viajou a convite da South African Tourism e South African Airways

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