Multiplicidade de Drummond é festejada com palestras, relançamentos e inéditos

Poeta mineiro é o homenageado da 10ª edição da Flip, que tem início nesta quarta em Paraty

Augusto Gomes , iG São Paulo |

AE
Carlos Drummond de Andrade

Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Nelson Rodrigues. A lista de homenageados da Festa Literária de Paraty (Flip) desde a sua primeira edição, em 2003, inclui alguns dos principais autores da literatura brasileira. A ausência mais sentida, provavelmente, era a de Carlos Drummond de Andrade. Não mais - neste ano, a festa será para ele.

O poeta mineiro, cuja morte completa 25 anos em agosto, será tema da mesa de abertura da Flip 2012. Após uma breve leitura de Luis Fernando Verissimo, os escritores Silviano Santiago e Antonio Cícero vão falar sobre o homenageado. "Vou fazer um apanhado geral da obra poética do Drummond. Algo nada fácil de fazer em apenas 30 minutos", diz Santiago.

Acesse o especial da Flip 2012

Uma das maiores dificuldades, segundo Santiago, é a variedade da obra de Drummond. "Sua poesia é tanto amorosa quanto política. Trata tanto dos grandes acontecimentos como do cotidiano", explica. Mas, em meio a tantos temas, é possível encontrar duas "linhas de força". "No início, um individualismo ferrenho e rebelde. Depois, a aceitação dos valores patriarcais da sociedade mineira."

Na opinião de Santiago, é esse diálogo contraditório entre a vontade de destruir um mundo envelhecido e a necessidade de incorporar os valores que antes havia desprezado que dá dramaticidade à poesia de Drummond. "A memória é tão importante quando a necessidade de agir, de reformar o mundo. Todos nós temos um lado Marx e um lado Proust."

O jornalista Flavio Moura, que mediará na Flip outras duas mesas sobre o escritor, também destaca a multiplicidade de Drummond. "Ele produziu a partir de dicções, formas e temas muito distintos. Tem humor e tem melancolia, tem verso livre e forma fixa, tem morte e tem erotismo", destaca. "Sua obra é de uma riqueza e de uma variedade impressionantes. É difícil achar apenas um Drummond. São milhares."

Drummond inédito

Além das palestras, a homenagem a Drummond acontecerá na forma de uma série de lançamentos na Flip. O principal deles é "25 Poemas da Triste Alegria", pela editora Cosac Naify. Trata-se de um livro de 1924 que Drummond nunca publicou. "Ele datilografou os poemas, pôs o sumário, encadernou. Mas conservou o livro inédito", explica o acadêmico Antonio Carlos Secchin.

Divulgação
Capa de "25 Poemas da Triste Alegria"

Secchin comprou o livro há cerca de quatro anos de uma pessoa próxima a Drummond. "Você não pode calcular a emoção que eu senti. Encontrar um livro inteiro inédito do maior poeta brasileiro de todos os tempos é algo que não se pode medir." A edição da Cosac Naify é um fac-símile da original, reproduzindo tanto os poemas datilografados quanto os comentários escritos pelo autor.

De acordo com Secchin, esses primeiros poemas não adiantam "praticamente nada" do que Drummond escreveria depois: "Ele conservou o livro inédito certamente porque não correspondia ao seu conceito posterior de poesia". Isso não impediu, no entanto, que Drummond emprestasse a publicação caseira a várias pessoas. Manuel Bandeira e Mário de Andrade, por exemplo, foram alguns dos leitores.

Mas, se os poemas não mostram o Drummond que conhecemos, os comentários que ele escreveu 13 anos depois com certeza mostram. "Nas páginas ímpares, estão os poemas datilografados. Nas pares, os comentários escritos em 1937. Aí há um diálogo interessante entre o Drummond crítico e o Drummond poeta. E o Drummond crítico é definitivamente moderno", diz Secchin.

A editora Globo, por sua vez, lançará "Cyro & Drummond" durante a Flip. O livro reúne 50 anos de correspondência entre Drummond e o escritor Cyro dos Anjos. Nas cartas, os autores comentam, com franqueza, seus próprios escritos e as obras de outros escritores, como Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos.

Relançamentos

A editora Companhia das Letras vai aproveitar a Flip para colocar nas prateleiras mais quatro livros de Drummond: "As Impurezas do Branco" (1973) e "Sentimento do Mundo" (1940), ambos de poesia; uma antologia poética organizada pelo próprio Drummond em 1962; e "José", que reúne a série de poemas de 1942 e é uma das obras mais famosas do autor.

"É um conjunto importante, mas de apenas 12 poemas. Por isso, quando 'José' foi publicado pela primeira vez, saiu junto com outros poemas. Esta será a primeira vez que um volume reunirá apenas os poemas da série", explica Leandro Sarmatz, editor das reedições de Drummond. Além dos 12 poemas, o volume terá um ensaio feito especialmente pelo poeta Julio Castañon Guimarães.

A leva de quatro livros é a segunda desde que a Companhia das Letras adquiriu os direitos da obra de Drummond . A primeira, em março, teve "Claro Enigma", "A Rosa do Povo", "Contos de Aprendiz" e "Fala, Amendoeira". "Nossa ideia é relançar sempre três ou quatro volumes de cada vez. Metade livros muito difundidos, e metade livros menos conhecidos", diz Sarmatz.

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