Programa vai dar bolsas de estudo para atrair engenheiros

Proposta da Capes para alavancar engenharias quer combater a evasão com reforço escolar e estímulos. Falta aval de ministérios

Priscilla Borges, iG Brasília |

Programas de monitoria e projetos de pesquisa podem ser a solução para diminuir os altos índices de evasão dos cursos de engenharia do País. Essa é a opinião do grupo de trabalho liderado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que traçou um plano nacional para alavancar a área. Hoje, apenas metade dos estudantes (em média, 55%) que ingressam nas graduações em engenharia conclui o curso.

As estratégias traçadas pela Capes incluem parcerias com empresas privadas; capacitação de professores, atualização de currículos e projetos para atrair jovens talentos para a carreira e, principalmente, ações de combate à evasão. “Não precisamos de instalações novas ou de professores. Precisamos é manter esses estudantes na universidade”, comenta o presidente da Capes, Jorge Guimarães.

Para isso, a Capes aposta em criar bolsas de estudo para alunos de pós-graduação atuarem como monitores na graduação – em instituições de ensino superior públicas e privadas – e para os próprios universitários em projetos de pesquisa. Além disso, quer que as empresas ofereçam cursos práticos aos calouros para que “coloquem a mão na massa” logo cedo e visitas guiadas a fábricas e obras, além de oferecer financiamento e mais bolsas a estudantes “notáveis” de instituições privadas.

A proposta é corrigir o que seriam as causas da evasão nas engenharias de acordo com o diagnóstico feito pela Capes da área: as falhas no ensino de matemática e ciências que vêm do ensino médio e a dedicação exigida durante a graduação. “O despreparo dos estudantes do ensino médio afeta o desempenho deles nos primeiros anos do curso, que ainda é difícil e exige muita dedicação do aluno”, diz o presidente da Capes.

Marcelo de Lima Arantes, 22 anos, já viu muitos colegas largarem a faculdade. Aluno do 8º semestre de engenharia civil da Universidade de Brasília (UnB), ele acredita que os candidatos entram no curso sem saber o que os espera. Muitas aulas teóricas de matemática e física e poucas matérias aplicadas de engenharia nos dois primeiros anos. “A gente sai da escola achando que sabe matemática, mas não sabe nada”, brinca.

Alan Sampaio
Marcelo, Eduardo e Felipe viram muitos colegas largarem o curso de engenharia civil: curso é puxado
Prestes a se formar em civil, Felipe Berquó, 22 anos, defende que as disciplinas sejam mais contextualizadas à aplicação desses conteúdos teóricos na engenharia. Eduardo Freitas, 20 anos, acha que o currículo poderia ser mais enxuto, com menos disciplinas obrigatórias e mais optativas. Apesar das dificuldades, os rapazes estão animados com as perspectivas profissionais.

Marcelo, Felipe, Eduardo e as colegas Pétala Araújo, 21, e Mariana de Oliveira, 21, fazem ou já fizeram estágios durante o curso. Quem desistiu de trabalhar não foi por falta de oportunidades. “É muito difícil conciliar o estágio e os estudos. A maioria não se forma em cinco anos também por isso”, afirma Mariana. Pétala ressalta que as aulas não se restringem a um período do dia e as grades têm muitas matérias.

Na avaliação do presidente da Capes, a entrada precoce dos universitários no mercado de trabalho também contribui para aumentar os índices de abandono dos cursos. “Muitos alunos estão sendo tirados das universidades cedo por causa da demanda”, afirma. Guimarães defende que os estímulos à correção de deficiências de aprendizagem e à permanência dos jovens nas graduações em engenharia devem ser temporários. É preciso investir na educação básica, de acordo com ele.

O programa, que está “praticamente definido”, segundo Guimarães, ainda precisa do aval dos ministros da Educação, Fernando Haddad, e da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante. O projeto precisa também de mais dedicação da própria Capes. Pelos cálculos do grupo de trabalho, se todas as estratégias fossem adotadas poderiam aumentar em 60% a quantidade de engenheiros formados no país em cinco anos, atingindo 77 mil profissionais. Para isso, seria necessário R$ 1,1 bilhão no período.

Alan Sampaio
Felipe e os colegas têm ofertas de estágio em enganharia a todo instante, mas sofrem para conciliar aulas, estudos e trabalho

O presidente do órgão admite que não tem tido “tempo suficiente” para cuidar do programa, porque tem se dedicado muito ao Ciência Sem Fronteiras , projeto que prevê a concessão de bolsas de estudo no exterior. “Mas estamos discutindo parcerias com as dez melhores instituições dos Estados Unidos em engenharia para promover intercâmbios entre nossos estudantes”, conta.

Mercado aquecido

Antônio César Pinho Brasil Júnior, diretor da Faculdade de Tecnologia da UnB, reconhece que o mercado para os engenheiros está bastante aquecido. “Nos últimos quatro anos, todo mundo que se forma se insere rapidamente no mercado de trabalho, especialmente na construção civil”, afirma. Por conta disso, a pós-graduação de engenharia da UnB perdeu 30% dos candidatos formados na área. Sobrevive, basicamente, por interesse de outros profissionais.

Para o professor, o País tornar o investimento nas engenharias uma política de Estado. “Precisamos transformar as ideias em recursos para modernizar laboratórios, capacitar professores para lidar com essa nova geração. A dinâmica do investimento da área tecnológica e da burocracia estatal não é compatível”, ressalta. Brasil defende que os professores sejam mais ouvidos nesse processo.

Sérgio Queiroz, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não concorda que o número de engenheiros formados no País seja insuficiente para atender às demandas do mercado. Na avaliação do estudioso, o problema é formação desses profissionais. Ele aponta que poucas são as escolas que oferecem ensino de qualidade. “A evasão evidencia isso”, diz.

Queiroz ressalta que, hoje, a rede privada já é responsável pela formação de mais da metade dos engenheiros brasileiros. Entre elas, segundo ele, estão algumas das piores escolas. “As públicas têm melhores médias nas avaliações porque possuem os melhores alunos. Há um problema estrutural de formação dos estudantes, que precisa ser resolvido. Os investimentos têm de ser feitos no ensino médio”, ressalta.

Carlos Cavalcante, superintendente do Instituto Euvaldo Lodi (IEL), órgão do Sistema Indústria responsável pela captação de talentos no mercado para empresas e indústrias, lembra que a engenharia é fundamental na garantia de desenvolvimento do País. Por isso, merece atenção especial, segundo ele. Cavalcante admite que promover a formação de mais profissionais na área não é tarefa simples, mas ele acredita que o plano é um bom caminho.

Na opinião do superintendente, o ensino médio deve ser o foco das atenções. Para melhorar a qualidade do ensino na etapa final da educação básica, Cavalcante sugere a criação de programas para reforço do ensino de ciências e de matemática. Na universidade, ele defende a promoção de projetos de pesquisa em cooperação com indústrias e a criação de estágios. “Estamos muito interessados no tema, mas temos de esperar a definição do governo sobre o assunto”, pondera.

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