Em SP, menino de 14 anos pega seis ônibus e viaja 30 km por dia para estudar

Por Cristiane Capuchinho - iG São Paulo

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Morador do Jardim Guarujá, aluno de escola pública vive rotina de adulto para aproveitar bolsa de estudos e ter chance de alcançar sonho universitário

Às 4h30, Gabriel Santos do Prado e seus pais estão de pé em uma casa simples do Jardim Guarujá, extrema zona sul de São Paulo. Antes das 5h, o menino parte para uma longa jornada. Gabriel passa 15 horas por dia fora de casa e atravessa 30 quilômetros em seis ou sete ônibus diferentes para estudar em duas escolas. 

Tanto empenho tem um objetivo claro: melhorar suas chances na vida e fazer uma boa universidade. 

A jornada teve início no ano passado, quando o aluno de uma escola municipal de São Paulo soube que poderia concorrer a uma bolsa de estudos para ter reforço escolar em um colégio privado. Após passar por provas e entrevistas, Gabriel teve de convencer seus pais de que poderia enfrentar o transporte público para chegar até a escola particular no Morumbi. 

"Acho que envelheci dez anos no último ano. Ele chega entre 20h e 21h, a gente fica muito preocupado", diz a mãe Maria da Conceição. "Mas é uma oportunidade, temos de apoiar", encurta a conversa.

Veja a rotina de Gabriel:

4h30 - Gabriel Santos do Prado, de 14 anos, e os pais já estão em pé no Jardim Guarujá, extrema zona sul de São Paulo. Foto: Cristiane Capuchinho/iG4h50 - Gabriel sai de casa e o pai o leva até um ponto de ônibus para pegar o primeiro ônibus rumo ao Morumbi, onde faz aulas de reforço escolar. Foto: Cristiane Capuchinho/iG5h45 - No Terminal Capelinha, Gabriel toma o segundo ônibus em direção à escola particular em que é bolsista. Foto: Cristiane Capuchinho/iG7h15 - Às quintas, Gabriel e os colegas têm natação na primeira aula do Colégio Santo Américo. Foto: Cristiane Capuchinho/iG9h15 - Em uma sala de 20 alunos, os estudantes do Projeto Ismart encaram a terceira aula do dia. Gabriel senta na primeira carteira. Foto: Cristiane Capuchinho/iG10h - A biblioteca do Colégio Santo Américo é uma das áreas preferidas de Gabriel na escola. Foto: Cristiane Capuchinho/iG12h - Entre o fim das aulas às 11h30 e o horário de saída para pegar o ônibus, Gabriel e seus colegas têm 30 minutos para almoçar e trocar de uniforme. Foto: Cristiane Capuchinho/iG12h515 - Gabriel pega ônibus que o levará por parte do caminho até a escola pública em que estuda a partir das 13h30. Foto: Cristiane Capuchinho/iG12h45 - Às 12h45, no ponto de ônibus à espera do seu quarto ônibus do dia, Gabriel se preocupa com o horário e um possível atraso. Foto: Cristiane Capuchinho/iG13h30 - Gabriel começa seu segundo período de estudos na escola municipal Maurício Simões, onde ficará até as 18h. Foto: Cristiane Capuchinho/iG20h - Gabriel chega em casa após 15h de jornada. À noite, o estudante tem que fazer as tarefas escolares para o dia seguinte. Foto: Cristiane Capuchinho/iG





Filho de pais que não completaram o ensino médio, Gabriel diz ter facilidade com português, matemática e história. O gosto pela leitura foi estimulado pelo irmão mais velho, formado em Letras por uma universidade privada com bolsa do ProUni (programa federal).

"Sou muito próximo dele e ele sempre foi estudioso. Ele me leva para passear, já me levou a museus, parques, shows, me empresta os livros dele de inglês e de leitura."

Na escola particular em que é bolsista, Gabriel participa de uma turma especial, em que 20 jovens estudiosos de baixa renda têm aulas de reforço escolar para equiparar seus conhecimentos ao currículo do 9° ano de uma escola de elite. 

"A gente dá oportunidade para dar asas para eles sonharem", afirma Maristela Carvalho Laurito, pedagoga do projeto Alicerce. Segundo ela, a sala tem uma dinâmica favorável em que os estudantes se ajudam mutuamente. "Quando um tem dificuldade, o outro ajuda, eles querem melhorar como grupo."

O interesse dos alunos fica claro durante uma aula de matemática. A cada pergunta do professor Marco Aurélio Loureiro, os estudantes respondem em coro. Os alunos se revezam em perguntas e os colegas tentam responder às dúvidas antes mesmo do professor.

Esse ambiente de estímulo é uma das grandes diferenças que Gabriel sente em comparação com suas aulas da escola municipal Maurício Simão. "Aqui todo mundo se interessa na aula, o professor não tem que ficar esperando as pessoas pararem de falar para começar a aula. Não tem tanto barulho", aponta.

Jornada dupla 

A rotina de esforços e dificuldades é compartilhada entre os bolsistas. Também aluna do 9° ano, Ingridy Ferreira Macedo, de 14 anos, conta que também sai de casa por volta das 5h para chegar à escola às 7h15. 

Ali, os garotos têm aulas até as 11h30 e almoçam. O tempo é contado para que os jovens consigam chegar à escola pública. Ao meio-dia, Gabriel e seus colegas já estão no ponto de ônibus e têm até as 13h30 para chegar na escola em que estão matriculados, onde têm aulas regulares até as 18h.  

Além do horário alongado de estudos, quando chega em casa Gabriel tem as tarefas de duas escolas para fazer. "Chego em casa por volta das 20h. Eu janto e vou fazer os exercícios que tenho para o dia seguinte. Depois vou dormir pelas 22h."

No final de semana, o garoto divide seu tempo entre o sono atrasado, as tarefas escolares e as aulas de inglês em um curso que também é bolsista.

Neste ano, as inscrições para o Alicerce, projeto do Ismart que concede bolsas de estudo em colégios particulares, devem ser feitas entre 11 de abril e 12 de junho 
Cristiane Capuchinho/iG
Neste ano, as inscrições para o Alicerce, projeto do Ismart que concede bolsas de estudo em colégios particulares, devem ser feitas entre 11 de abril e 12 de junho 

"A maior dificuldade desses alunos é lidar com a rotina puxada, porque o cansaço é físico, não dá para esconder", comenta Inês França, responsável pelo acompanhamento de alunos do Ismart e do Alicerce. "A gente tem de trabalhar a perseverança e a organização dos estudos para que eles consigam se adaptar."

Nesta hora, o apoio dos pais é fundamental. "Se a família mostra que a educação tem valor para ela, que está disposta a abrir mão de coisas para que o aluno estude, temos um ambiente propício para que esse estudante decole", aponta Inês. 

Gabriel aproveita a oportunidade para conhecer novos conteúdos e experimentar. No ano passado, ele, Ingridy e dois colegas desenvolveram o projeto de um dispositivo para detectar as cores através da luz. O projeto ganhou a feira de ciências da escola e tem chances de ser levado à Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), que acontece na USP, no próximo ano. 

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