Metade dos adultos de países ricos tem nível básico de compreensão de leitura

Por Priscilla Borges - iG Brasília | - Atualizada às

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Estudo realizado pela OCDE em 24 países mostra dificuldade de numerosa parcela da população economicamente ativa em leitura, matemática e tecnologias da informação

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Em quase todos os países, pelo menos 10% dos adultos não têm noções básicas de informática

Mesmo entre a população dos países mais ricos do mundo, ainda há uma parcela considerável de adultos que não é capaz de ler e compreender textos mais complexos e que exijam boa interpretação de textos. Em uma avaliação aplicada a adultos com idade entre 16 e 65 anos em 24 países participantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 48,8% estão nos níveis mais básicos de aptidão de leitura.

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O Programa de Avaliação Internacional das Competências dos Adultos (PIAAC) foi criado pela OCDE para avaliar os conhecimentos da população adulta, já que tradicionalmente crianças e jovens dos países participantes têm sua formação educacional avaliada. A proposta agora é saber se a força de trabalho dessas nações possui competências exigidas pelo mundo tecnológico atual. A avaliação foi aplicada entre 2011 e 2012.

O letramento (leitura e escrita), a aptidão matemática e a capacidade de resolução de problemas são os temas escolhidos para a avaliação. Para os organizadores do estudo, os resultados – apresentados em seminário na capital brasiliense nessa terça – ligam o sinal de alerta dos governantes desses países e despertam a curiosidade para conhecer a realidade de outros países em desenvolvimento.

“A avaliação nos mostra como a distribuição das competências entre a população influencia os resultados econômicos e sociais. São competências-chave para processar informação, exigidas para a plena integração e participação no mercado de trabalho, na educação, na vida social. Em uma economia globalizada, as comparações entre países são fundamentais para os governos”, afirma Marta Encinas-Martin, responsável pela avaliação.

Leitura e escrita

Marta ressalta que 8,5 milhões de pessoas estão nos níveis mais baixos de proficiência em leitura (níveis -1 e 1) da avaliação. No nível 1, os adultos são capazes de preencher formulários simples, entender vocabulário básico, determinar o significado de frases e ler textos curtos. No geral, 12,2% dos adultos está nesse nível, mas há diferenças entre os países. Na Itália, por exemplo, o número sobe para 22,2% e na Espanha, 20,3%. No Japão, o número cai para 4,3%.

Há outros 3,3% abaixo desse nível (no -1). Eles leem textos curtos sobre tópicos conhecidos e conseguem localizar informação sem precisar entender a estrutura de frases ou parágrafos, só com vocabulário básico. Essas pessoas alcançaram menos de 176 pontos na avaliação, que varia de 0 a 500 pontos. Os resultados foram divididos em seis níveis: -1 (abaixo de 176); 1 (de 176 a 226); 2 (de 226 a 276); 3 (de 276 a 326); 4 (de 326 a 376) e 5 (acima de 376).

A Espanha é o país com maior proporção de adultos abaixo do nível 1 (7,2%), seguida da Itália (5,5%), França (5,3%) e Irlanda (4,3%). O Japão é o que tem menor proporção de adultos nesse nível (0,6%), seguido da República Tcheca (1,5%), Eslováquia (1,9%) e Estônia (2%). No nível 2, ainda considerado de compreensão básica, estão 33,3% dos adultos. Sendo a Itália e a Espanha os mais numerosos nessa faixa de aptidão (42% e 39,1%, respectivamente).

Por outro lado, menos de 1% do total atinge o nível máximo do teste, que é o mais alto nível de proficiência no teste. Esses adultos são capazes de pesquisar, integrar informações de textos densos, fazer comparações, avaliar confiabilidade de informações. A Finlândia tem a proporção mais alta de adultos nesse nível: 2,2%.

Matemática e tecnologias

“Se uma grande proporção de adultos tem formação escassa em leitura e matemática, abaixo do nível 2, a introdução e a disseminação de tecnologias que melhoram a produtividade e as práticas de organização do trabalho podem ser prejudicadas”, ressalta Marta. A coordenadora do estudo aponta que, em todos os países avaliados, há entre 8,1% e 31,7% da população nos níveis mais baixos de competência matemática.

Do total, 20% dos adultos estão no nível 1 ou abaixo em competência matemática. Isso significa que eles só conseguem lidar com tarefas simples, que exigem operações básicas. Japão e Finlândia são dois dos destaques, tanto em pequena proporção de adultos entre os níveis mais baixos quanto entre os com maior parte de adultos em níveis mais altos. O estudo mostra que a relação entre aptidão em leitura e em matemática estão muito relacionadas.

Em quase todos os países, pelo menos 10% dos adultos não têm noções básicas de informática. Na maioria deles, uma parcela significativa dos adultos encontra dificuldades para usar tecnologias digitais, ferramentas e redes de comunicação para adquirir e avaliar informações, comunicar-se com outras pessoas e executar tarefas práticas.

Somente entre 2,9% e 8,8% dos adultos desses países demostraram maior nível de proficiência na escala de avaliação desse quesito, que varia de abaixo de 1 a 3, e dominam as tecnologias. Além disso, 4,9% dos participantes foram reprovados no teste básico de tecnologias de informação e comunicação (TIC) e 10,2% optaram por não fazer a avaliação em meio digital. Do total, 12,3% dos adultos só conseguem fazer tarefas básicas em um único e conhecido ambiente tecnológico em poucas etapas.

Desigualdades e perdas

As desigualdades dos resultados, segundo a coordenadora do estudo, são mais numerosas dentro dos próprios países do que entre eles. As discrepâncias nos resultados das competências estão proporcionalmente ligadas à distribuição de renda. Os imigrantes de línguas estrangeiras apresentaram proficiência menor em todos os quesitos também.

Os homens têm, de modo geral, pontuação pouco mais alta que as mulheres em matemática e em solução de problemas em ambientes tecnológicos. Entre os adultos jovens, a diferença de rendimento entre gêneros é insignificante.

A educação formal tem uma forte ligação positiva com a proficiência. Adultos com qualificação universitária têm vantagem de, em média, 36 pontos na escala de letramento em relação aos que não concluíram o ensino médio. Os adultos que possuem as maiores pontuações no teste de letramento têm três vezes mais chances de terem salários mais altos, 2,2 vezes mais chances de estarem empregados e o dobro de chances de ter boa saúde do que os indivíduos com pontuação igual ou inferior ao nível 1 em letramento.

“Os resultados podem dar subsídios para mudanças políticas nos países. Esse é o objetivo”, destaca Marta.

O teste

A avaliação foi aplicada a 166 mil adultos, que representam 724 milhões de pessoas de 16 a 65 anos dos países participantes, em suas próprias residências. Além do teste, os adultos responderam a um questionário, com informações educacionais, de trabalho e contexto social. Em setembro, uma nova rodada de avaliação terá início e contará com a participação do México, Colômbia, Argentina (Buenos Aires) e Chile.

Eles se unirão aos membros da OCDE (Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica (Flandres), Canadá, Coreia, Dinamarca, Eslováquia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Japão, Noruega, Países Baixos, Polônia, República Tcheca, Reino Unido (Inglaterra e Irlanda do Norte), Suécia) e dois países parceiros (Chipre e Federação Russa).

O Ministério da Educação ainda estuda as vantagens e a viabilidade de aplicação da prova no Brasil.

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