Envolvimento de toda a escola determina sucesso de Um Computador por Aluno

Por Priscilla Borges , iG Brasília |

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Há redes de ensino que expandiram projeto piloto por causa de bons resultados

Manoel Lima
No Tocantins, sucesso veio de "insistência e formação de professores, segundo Secretaria de Educação

As experiências bem-sucedidas do projeto Um Computador por Aluno têm, pelo menos, alguns pontos em comum. O primeiro é terem sido abraçadas por todos os envolvidos no processo: alunos, professores, coordenadores, diretores, secretários, prefeitos. Depois, a transformação do programa em política pública local aparece como ponto crucial para o sucesso da iniciativa nesses estados e municípios.

Na avaliação do professor Gilberto Lacerda, do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), só quando diferentes esferas administrativas são envolvidas em um processo como esse há chances de sucesso. “Se um novo prefeito não se interessa pelo projeto vai tudo por água abaixo. As experiências que funcionaram têm esse apoio”, comenta.

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Maria Helena Cautiero Horta Jardim, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora educacional do Projeto Piraí Digital, do município de Piraí (RJ), concorda. “O UCA é realidade no município, com problemas e soluções, natural em qualquer projeto. É uma ação de sucesso e o segredo é que ele sempre foi tratado como política pública, um projeto de governo e não de uma única secretaria”, pondera.

Nessa integração, parcerias estratégicas entre universidades, diferentes esferas de governo e empresas foram estabelecidas para garantir o funcionamento do projeto na cidade. Desde 2007, ações começaram a ser desenvolvidas em Piraí para que cada criança tivesse um computador portátil disponível durante as aulas.

Da primeira escola piloto em 2007, a experiência se expandiu a todas as escolas da rede (21 colégios municipais e três estaduais) em 2009. Além dos alunos, gestores e professores possuem laptops próprios. Desde a educação infantil, as crianças são inseridas no projeto. Os professores passam por cursos de formação continuada e os alunos participam ativamente das atividades, atuando como tutores-mirins, inclusive.

Quebra de paradigmas

Manoel Lima
As crianças utilizam os computadores portáteis todos os dias no Tocantins, de uma a duas horas

Em Tocantins, o projeto de distribuição de laptops também cresceu ao longo dos anos. A partir das experiências iniciais realizadas em alguns municípios, a Secretaria Estadual de Educação ampliou o projeto para todos os alunos do 1º ao 5º ano do ensino fundamental. Na rede municipal, 25% dos estudantes estão incluídos no UCA. Ao todo, são 76 mil participantes. Foram investidos R$ 26 milhões na compra de computadores.

A distribuição dos equipamentos faz parte de um programa maior de promoção do uso das tecnologias de informação e comunicação para melhorar a qualidade de ensino. O Tocantins Integrado reúne, além do UCA, ações para aquisição de notebooks para os professores (já foram entregues 11.292), de projetores multimídias (2,3 mil entregues) e lousas digitais; formação de professores; oferta de cursos de qualificação para estudantes.

Joneidson Marinho Lustosa, diretor do Departamento de Informática e Tecnologia da Secretaria de Educação de Tocantins, conta que, a partir do ano que vem, os estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental também receberão computadores individuais. A proposta é aumentar a distribuição gradativamente até chegar ao ensino médio.

“Ainda precisamos superar limitações dos equipamentos para isso, porque os atuais são mais adequados para crianças menores. A tecnologia por si só fascina o aluno e precisamos trazer para dentro da escola o que acontece fora dela”, afirma o diretor. Ele conta que o estado já premiou 4,8 mil estudantes por bom desempenho na avaliação estadual com tablets.

A tentativa dos gestores é “quebrar paradigmas”. “O sucesso depende de muita insistência, formação dos professores e estímulo. Todos os dias, hoje, temos a certeza de que os professores da rede estadual utilizam, pelo menos, um tipo de tecnologia dentro de sala. Os resultados, que têm sido positivos, vão guiar o futuro”, analisa Lustosa.

Driblando dificuldades

Manoel Lima
As crianças são autorizadas a levar os laptops para casa. Além de carregar os equipamentos antes das aulas em casa, eles promovem inclusão digital da família

As cidades que ampliaram a proposta também enfrentaram – ou enfrentam – dificuldades de infraestrutura, resistência de professores e a falta de materiais didáticos. A diferença é que os gestores desses municípios decidiram encontrar soluções para os problemas e não abandonar o projeto por conta dos obstáculos. Piraí, por exemplo, possui um projeto de universalização do acesso à internet para inovar o desenvolvimento local.

“Com isso, o UCA foi facilitado, mas temos problemas, como velocidade da internet. Nossa política é enfrentar os problemas encontrados, olhá-los como desafios”, afirma Maria Helena. Ela defende a continuidade e ampliação do programa Um Computador por Aluno no país, a partir de investimentos, planejamento e mudanças de currículos e projetos pedagógicos.

“É melhor assumir o investimento na educação do que pagar o preço da exclusão e da ignorância. A tecnologia é aliada de uma educação de qualidade”, ressalta. A coordenadora conta que a experiência melhorou a relação entre professores e alunos; tornou o ambiente escolar mais lúdico e as crianças passaram a produzir conteúdos e disseminá-los também.

Lustosa conta que, no Tocantins, por exemplo, eles driblaram as conexões ruins de internet aproveitando melhor o conteúdo já disponível nos computadores. As crianças também são autorizadas a levar os equipamentos para casa – o que promove a inclusão digital das famílias – e já carregam os laptops antes de irem ao colégio, o que facilita a dificuldade com a rede elétrica nas salas de aulas. “Eles usam a ferramenta de uma a duas horas por dia”, afirma.

“Em todos os estados, tivemos alguns resultados importantes. Há prefeitos com muito entusiasmo em relação à ferramenta e as crianças querem essa tecnologia dentro das salas”, comenta Lea Fagundes, coordenadora pedagógica do Laboratório de Estudos Cognitivos do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das pesquisadoras e coordenadoras do UCA no sul do país.

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