Criador da Khan Academy vê Brasil como parceiro na revolução da educação

Por Tatiana Klix - iG São Paulo |

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Em visita ao País, Salman Khan defende que videoaulas respeitam ritmo dos estudantes e mudam o papel dos professores em sala de aula

Oferecer educação gratuita a qualquer pessoa em qualquer lugar é o objetivo da Khan Academy, organização sem fins lucrativos que revoluciona a educação com videoaulas publicadas na internet. A missão audaciosa teve origem em 2004 a partir de uma troca entre duas pessoas – o americano Salman Khan, como tutor, e uma prima de 10 anos, como aluna. Oito anos depois, com 40 funcionários nos EUA, atingindo 6 milhões de usuários por mês em 216 países, quem tem coragem de duvidar que a instituição liderada por Khan vá conseguir atingir a ambiciosa missão?

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Vídeos de Salman Khan são vistos por 6 milhões de usuários por mês

Ao contar em detalhes a história que o transformou em celebridade em evento realizado nesta quinta-feira (17) em São Paulo, Salman Khan conseguiu afastar dúvidas dos presentes na plateia de que isso seja possível. Descontraído e cativante – duas características que provavelmente foram cruciais para que seus vídeos fizessem sucesso –, o americano que hoje tem um plano bem definido, o de acelerar a internacionalização da Khan Academy, lembrou como no começo tudo foi ocorrendo por acaso.

Novidade: MEC vai distribuir aos professores vídeos da Khan Academy

Depois da primeira prima, outros 14 familiares passaram a tomar aulas pela internet com Khan, que também desenvolvia programas de computador para passar exercícios aos seus alunos. O projeto familiar passou a tomar muito tempo de Khan, que ainda trabalhava como analista de fundos de investimento, até que em 2006 um amigo sugeriu que ele gravasse tutoriais e os postasse no Youtube. “Meus primos gostaram mais de mim pelo Youtube do que pessoalmente”, contou. Além dos familiares, outras pessoas começaram a assistir às aulas – e gostar delas –, o que o deixou muito motivado. Em 2009, mesmo sem um planejamento de como conseguiria financiar seu canal de vídeos, Khan largou o emprego. O improviso só acabou no ano seguinte, após dois telefonemas inesperados, o de um primeiro doador que destinou US$ 100 mil para tornar os planos de Khan viáveis e outro de Bill Gates, que além de fã se tornou seu financiador.

Para os próximos desafios da organização, o Brasil terá papel muito importante. Por conta da parceria com a Fundação Lemann, que já traduziu 400 vídeos, a Khan Academy em português é a de maior abrangência depois do inglês. E vai avançar mais. Nesta semana, a mesma fundação se tornou a mais nova apoiadora da iniciativa, justamente para traduzir a ferramenta completa, composta além de vídeos por programas com exercícios, tutorias e material de apoio a professores. A ideia é que cada novidade lançada na Khan Academy seja também atualizada imediatamente para o português. Esse trabalho vai beneficiar não apenas os brasileiros, mas crianças de todos os países de língua portuguesa.

Além disso, na visita de dois dias ao País, Khan foi recebido pela presidenta Dilma Rousseff e pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que anunciaram a intenção de distribuir os vídeos para professores da rede pública e convidaram o americano filho de imigrantes da Índia e Bangladesh com três graduações no MIT e um MBA na Harvard Business School a fazer pesquisas pedagógicas com foco em garantir a alfabetização na idade certa.

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“O professor não deve mais perder tempo dando lições", defende o fundador da Khan Academy

Na prática, mais de 6 mil alunos de São Paulo já vão utilizar os vídeos de Khan em 200 salas de aulas da rede pública em 2013. O projeto piloto que pretende ser ampliado futuramente vai testar uma nova lógica de ensino, a principal ideia de Khan para o futuro da educação. “O professor não deve mais perder tempo dando lições, se o aluno pode fazer isso no ritmo dele, parar quando sente necessidade, voltar a itens que não entendeu, acelerar quando já domina os conteúdos”, diz o americano. Nesse modelo, o professor deixa de ser o transmissor das informações para ser um tutor, e as aulas devem ser usadas para interação entre estudantes e mestres.

Outras iniciativas: Sem barreiras para o conhecimento, vídeoaulas se multiplicam

O modelo segue a lógica dos videogames, em que os usuários só vão adiante quando já atingiram os objetivos da etapa anterior. Na escola tradicional, os alunos são agrupados por idade, todos recebem as mesmas informações, até que em determinado momento são testados. Mas mesmo quando não aprenderam 100% do conteúdo, são expostos a novas lições. Na avaliação de Khan, o que acontece é que em determinado ponto as crianças passam a fingir que aprendem e apenas decoram fórmulas para os testes. “O meu diferencial é fazer com que as pessoas realmente entendam o que estão aprendendo”, completa.

Desafios para internacionalização

Os desafios de falta de acesso à internet em alguns lugares do mundo ou de preparo dos professores para o novo papel não assustam o fundador da academia. Coerente com a proposta de seu trabalho, Khan não defende um modelo pronto de como os tutores devem usar seus vídeos. O site da Khan Academy traz práticas já testadas, que podem servir de inspiração para outros professores. No portal brasileiro mantido pela Fundação Lemann também há exemplos bem sucedidos repassados por docentes da rede pública em português.

Khan também acredita que a sua ferramenta deve ser intuitiva, como o Google (um dos seus financiadores), e alunos e professores devem descobrir como usá-la sozinhos. A perspectiva do Brasil de usar o método nas redes de ensino não tem paralelo no mundo. Nos Estados Unidos, Khan citou o exemplo de Los Altos, na Califórnia, uma pequena cidade com um número de alunos incomparável com o das redes estaduais brasileiras. No país onde surgiu o canal de videoaulas, a maior parte dos professores que os utiliza em sala de aula decidiu espontaneamente por isso.

Alternativa: Khan Academy ganha versão offline para população sem acesso à internet

Para Khan, que nunca havia visitado o Brasil e tinha apenas algumas impressões comuns a estrangeiros sobre o País (como o fato de todos “jogarem futebol e vôlei de praia”), a impressão é de que aqui a vontade de mudar e a energia tem níveis acima da média. “Os problemas educacionais encontrados no Brasil são muito parecidos com os dos EUA, mas a vontade de mudar é muito maior”, avaliou.

O criador da Khan Academy também não acredita que a falta de acesso à web possa atrapalhar a popularização da ferramenta. Apesar de existir uma iniciativa de replicar os vídeos para uma versão offline, ele prefere não apostar nisso. “Em cinco ou 10 anos, o mundo estará conectado. Tudo está ocorrendo muito rápido. Prefiro trabalhar com foco neste cenário”, diz.

Veja a palestra de Salman Khan (em inglês):


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