"Scorsese gosta de lidar com violência", afirma Richard Schickel

Autor do livro "Conversas sobre Scorsese" relembra infância do cineasta, sua obra e comenta amizade com Clint Eastwood

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Mais do que crítico e jornalista, Richard Schickel faz filmes sobre cineastas. Desde a década de 1970, já escreveu e dirigiu documentários sobre os maiores nomes do cinema norte-americano: Charlie Chaplin, Alfred Hitchcock, Vincente Minnelli, Howard Hawks, Steven Spielberg e um punhado de outros. Em 2004, foi a vez do baixinho Martin Scorsese, o "pai" do filme de gângster moderno, que possui, na verdade, uma filmografia muito maior e variada do que os fãs de Joe Pesci poderiam imaginar.

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"Não gosto tanto de 'Taxi Driver' quanto a maioria das pessoas. Eu o respeito", diz o biógrafo Richard Schickel
Desse contato, surgiu "Conversas com Scorsese" (Cosac Naify, 528 pgs, R$ 89), um livro extenso, que abrange toda a obra do diretor, filme a filme, e ainda se aventura pela vida pessoal do cineasta, da infância no bairro nova-iorquino de Little Italy à paixão enciclopédica pela sétima arte. O formato de pergunta e resposta permite a entrada sem dificuldade nesse universo e em pouco tempo as histórias de duas testemunhas oculares da evolução de Hollywood parecem ter sido contadas por um amigo íntimo.

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Aos 78 anos, Schickel tem experiência de sobra para conduzir uma tarefa dessas. Crítico vitalício da revista "Time" e biógrafo de gente como Marlon Brando, Cary Grant, Humphrey Bogart e Woody Allen, ele nunca escondeu seu desapreço por alguns dos filmes de Scorsese – ou Marty, seu apelido –, em especial "New York, New York", "Ilha do Medo" e até "Taxi Driver".

No Brasil para o lançamento do livro, editado em parceria com a Mostra Internacional de São Paulo , Schickel falou ao iG sobre a obra de Scorsese, sua ligação com violência, seu trabalho como documentarista e ainda comentou sua amizade com Clint Eastwood e uma possível aposentadoria como realizador – "já fiz [filmes] de todos os grandes diretores".

iG: Foi difícil para o senhor conduzir algumas das entrevistas, já que publicamente assume não gostar de parte dos filmes de Scorsese?
Richard Schickel:
Não falamos particularmente sobre os valores dos filmes. Foi muito mais uma conversa geral, mas obviamente olhando os filmes de perto. Em geral, sou simpático aos filmes de Marty. Quer dizer, gosto menos de uns do que de outros, mas você sabe, tem os melhores, uma meia dúzia deles. Eu adoro "Touro Indomável", é provavelmente meu filme favorito dele. Também "Os Bons Companheiros", tem um tipo de humor negro que admiro muito. Não gosto tanto de "Taxi Driver" quanto a maioria das pessoas. Eu o respeito. De algumas formas, é um filme muito feio. Aprendi a gostar, mas não é dos meus favoritos. Aquele personagem... É difícil se identificar com um psicopata.

iG: O senhor parece ter tido problemas com "Ilha do Medo" .
Richard Schickel:
Na verdade, é seu filme mais bem-sucedido [arrecadou US$ 294 milhões nas bilheterias]. Eu, particularmente... É complicado, mas não de uma forma interessante. Há muitos, muitos enredos. Não acho um de seus melhores momentos. Nem falamos muito sobre isso. Também não acho que Marty seja muito empolgado. Ele gosta, assim como de tudo que faz, mas não acredito que coloque num top 10 de sua carreira.

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iG: Em seu livro, Scorsese comenta que chegou a ficar deprimido depois de fazer "Ilha do Medo" e inclusive pensou em desistir do cinema, já que é tudo tão difícil de sair do papel.
Richard Schickel:
Isso é besteira. Ao longo dos anos, Marty teve problemas para conseguir financiar seus filmes. Queria levantar um projeto, mas daí outras ofertas apareciam no momento... Ele precisa continuar sempre trabalhando, pulando de um filme para o outro, e para outro. Não é rico num nível Steven Spielberg.

iG: Nesse sentido, a quantidade de filmes de gângster que ele fez está relacionada a uma pré-disposição dos estúdios?
Richard Schickel:
Claro, porque são mais fáceis de vender do que uma comédia, por exemplo. Mas não acho que ele se importe. Ele gosta de lidar com violência, a maneira como ela explode de repente – alguém caminhando com tranquilidade pela rua e de repente, do nada, aparecem tiros e caos. Ele provavelmente pensa que a vida é assim.

iG: Scorsese fala muito da infância ao longo das entrevistas, que também está relacionada à violência.
Richard Schickel:
Ele foi criado no Lower East Side [em Nova York], onde havia violência, era uma vizinhança dura. Ou seja, foi uma herança do mundo que ele experimentou. Acho que ele entendeu desde muito cedo que a violência fazia realmente parte da sua vida. Marty era uma criança doente, tinha asma e coisas assim, então não compartilhava o mesmo mundo das outras crianças do bairro. Desde pequeno, era um observador daquele universo violento e acho que já tentava descobrir como escapar daquilo. Sua fascinação pelo cinema surgiu da paz que encontrava dentro dos cinemas. Era uma forma de lidar com isso. E por um tempo, também na igreja [Scorsese chegou a se matricular num seminário, mas desistiu].

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O cineasta norte-americano Martin Scorcese no set de "Ilha do Medo", seu filme mais bem-sucedido
iG: O conhecimento que ele demonstra sobre cinema é incrível.
Richard Schickel:
Eu diria que de todos os grandes diretores, e conheci a maioria deles, Marty provavelmente tem o conhecimento mais extenso, tanto de estética quanto de história. Normalmente isso é mais comum em críticos e acadêmicos. Diretores em geral são versados no assunto, mas Marty é extraordinário. Isso remete para sua infância. A família se reunindo em torno da TV para assistir a filmes do neorrealismo italiano, por exemplo. Enquanto as outras crianças jogavam stickball [versão popular de beisebol] na rua, seu pai o levava ao cinema nos domingos. Marty assistiu a centenas de filmes e estudava com paixão como criar um.

iG: Scorsese parece uma pessoa ansiosa, em especial na pós-produção.
Richard Schickel:
Há alguns meses, ele estava reclamando que o 3D estava atrasando a pós-produção de "Hugo" [o próximo filme de Scorsese, seu primeiro filme infantil], tirando do cronograma.
"Hugo", aliás, era mais uma vez o projeto que estava à disposição quando ele terminou seu filme anterior. Marty adora pós-produção, em qualquer aspecto: edição, mixagem de som, leva muito mais tempo nessas coisas do que qualquer outro diretor. Se importa muito com detalhes, é compulsivo quanto a isso, em atingir certos padrões aceitáveis.

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Elenco principal de "Os Bons Companheiros"
iG: Ele também é assim em seus documentários? O que o senhor acha da obra de Scorsese como documentarista?
Richard Schickel:
Bem, ontem à noite assisti a um filme dele sobre Elia Kazan ["Uma Carta para Elia"]. Não gosto muito. [Scorsese] tem ajuda de pessoas como Kent Jones, que estão completamente mergulhadas na produção. Ele não é tão envolvido com os documentários como com seus longas-metragens de ficção, se dedica a eles entre um trabalho e outro, sem a mesma pressão de agenda.

iG: Scorsese tem um trabalho bastante impressionante com documentários musicais.
Richard Schickel:
Ele tem uma paixão enorme por música, quase tanto quanto por cinema. Gosto do documentário sobre George Harrison , acho bom o de Bob Dylan ["No Direction Home"] e provavelmente ele se divertiu muito fazendo aquele sobre os Rolling Stones ["Shine a Light"].

iG: O senhor é bastante amigo de Clint Eastwood, não?
Richard Schickel:
Sim, somos próximos. Escrevi muito sobre ele, fiz diversos filmes a seu respeito e estou prestes a fazer outro, focando nele como diretor. Dirigi um mais geral sobre ele recentemente para o lançamento de uma caixa. Tinha feito um na época de "Os Imperdoáveis" e outro ao mesmo tempo de "Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal".

iG: Eastwood parece imbatível. Produz muito, faz quase que um longa-metragem por ano.
Richard Schickel:
Na verdade, ele não sente que trabalha demais. Clint mantém um ritmo estável e forte. Até vai fazer um filme como ator depois do Ano Novo, dirigido por um rapaz que tem trabalhado com ele como produtor, Robert Lorenz [o projeto se chama "Trouble with the Curve"]. Clint nunca disse que não ia mais trabalhar como ator, como se chegou a ler por aí. Acho que ele queria dizer que nunca mais ia dirigir e atuar ao mesmo tempo depois de "Gran Torino", o que é trabalho duro. Foi uma história pequena que cresceu demais.

iG: O senhor já dirigiu muitos filmes sobre diretores...
Richard Schickel:
19.

iG: Está ansioso pelo vigésimo?
Richard Schickel:
Não. Quer dizer, não tenho no momento nenhum candidato. Já fiz de todos os grandes. Não vejo ninguém pelo qual esteja louco para fazer. Acho que isso acabou para mim.

iG: O que senhor acha de nomes como Robert Altman? E Terrence Malick, por exemplo?
Richard Schickel:
Odeio Robert Altman, só fez porcaria. "Árvore da Vida" ? Oh, Deus. Não consegui aguentá-lo. Um filme ruim, pobre, chato, pretensioso. É um dos piores filmes que vi recentemente. Gosto só do primeiro filme [de Malick, "Terra de Ninguém", de 73]. Hoje, não sou fã de ninguém em particular.

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