Spielberg estreia na animação com "As Aventuras de Tintim"

Diretor acelera aventuras do personagem de Hergé, mas mantém espírito dos quadrinhos

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Steven Spielberg estava olhando para o passado ao mesmo tempo em que fez coisas inéditas na carreira. Aos 65 anos, o diretor finalizou há pouco "Cavalo de Guerra" , sua homenagem ao cinema clássico de Hollywood, e estreia nesta sexta-feira (20) seu primeiro longa-metragem de animação – embora os efeitos especiais sempre tenham feito parte da rotina do cineasta, ele nunca havia feito algo inteiramente digital.

Com cópias em 3D e Imax, "As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne" inaugura a parceria com Peter Jackson e a franquia baseada no personagem criado por Hergé na década de 1930. Quem temia pela integridade do herói de topete loiro pode ficar sossegado: Spielberg conseguiu.

Leia também: Compare o Tintim dos quadrinhos e a animação de Spielberg

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Tintim e o capitão Haddock no cinema: cenários impecáveis e rostos cartunescos
A primeira decisão acertada foi a captura de movimentos, na qual atores, cobertos por sensores no corpo, atuam de verdade e os dados, gravados com minúcia, servem de guia para a animação posterior. A tecnologia foi celebrizada por James Cameron em "Avatar", mas foi a neo-zelandesa Weta Digital, empresa de Jackson, desde o primeiro filme da trilogia "O Senhor dos Anéis", quem lhe deu o status de arte. O resultado, como se poderia imaginar, tira a rigidez dos personagens e o universo criado por computador fica muito mais convicente. Mas o detalhismo impressionante das cenas, que poderiam facilmente passar por um cenário real, é contrastado por rostos cartunescos, que tratam de enfatizar que se trata de um desenho animado. 

Ricardo Calil: Por que “As Aventuras de Tintim” não deu certo?

O papel de Tintim coube ao jovem Jamie Bell ("Billy Elliot"), enquanto seu fiel amigo, o capitão Haddock, ficou a cargo do camaleão Andy Serkis. Veterano da técnica, Serkis já fez as vezes de Gollum, King Kong e recentemente o macaco César em "Planeta dos Macacos: A Origem" . Se o ator já havia causado assombro interpretando um animal, imagine, então, como um experiente (e bêbado) lobo dos mares – ele tira de letra. Ainda no "elenco", estão Daniel Craig, o grande vilão, e a dupla Simon Pegg e Nick Frost, encarnando os atrapalhados gêmeos Dupond e Dupont.

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Milu e capitão Haddock, "dublado" por Andy Serkis

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O roteiro junta três histórias de Hergé, "O Segredo do Licorne", "O Tesouro de Rackham, o Terrível" (relançadas em edição conjunta pela Companhia das Letras) e "O Caranguejo das Tenazes de Ouro", pretensamente as favoritas de Spielberg e Jackson. O material foi entregue nas mãos de três britânicos famosos por seus trabalhos pop: Edgar Wright ( "Scott Pilgrim" , "Todo Mundo Quase Morto" ), Steven Moffat (séries "Doctor Who" e "Sherlock" ) e Joe Cornish (o elogiado "Attack the Block").

Mais do que imporem sua personalidade, os roteiristas se esforçaram para manter o espírito original. O cuidado aparece na tela e, olhando os livros de perto , boa parte se manteve.

Na trama, Tintim compra a miniatura de um velho barco sem saber que se trata da réplica de um barco naufragado cheio de tesouros, o Licorne (sinônimo de unicórnio). O jovem repórter/detetive adolescente se vê em meio à corrida para decifrar o enigma contido no barco e logo conhece o capitão Haddock. Sempre, claro, acompanhado pelo cãozinho Milu, alvo no filme do destaque que merece.

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Há tiroteios, perseguições, homens misteriosos, ataques de pirata, mensagens em código... Nada que Spielberg não tenha feito antes. Na verdade, "Tintim" às vezes lembra até demais Indiana Jones, da trilha sonora (preguiça de John Williams?) até a famosa sequência da moto com sidecar de "Indiana Jones e a Última Cruzada".

Seu álibi, no entanto, é que os filmes do arqueólogo e as histórias de Hergé compartilham o mesmo imaginário, as grandes aventuras das décadas de 1930 e 1940, com a diferença de que a imaginação fica sem rédeas num longa animado. Aí Spielberg conseguiu ir ainda mais longe, ao concretizar, por exemplo, uma batalha de guindastes (!) e uma eletrizante fuga no norte da África quando se rompem as comportas de uma represa. Sem contar a liberdade para criar fusões belíssimas – o deserto vira mar num piscar de olhos e o fundo de uma garrafa, a luneta de um capitão – e os créditos iniciais, um curta a la Pantera Cor de Rosa, que Spielberg já havia utizado em "Prenda-me Se For Capaz".

Assista: Steven Spielberg e Peter Jackson falam sobre o filme em vídeo

Se há uma diferença de "As Aventuras de Tintim" para o mundo dos quadrinhos, além do humor um pouco acima do tom ( por mais que fosse racista , Hergé provavelmente não acharia graça em um alcoólatra tomando álcool cirúrgico), é de ritmo. Embora tenha dito na década de 1980 que considerava Spielberg a pessoa certa para os filmes do personagem, o artista belga não imaginaria a velocidade que as cenas ganhariam nos anos 2010. Ação vertiginosa, com jeito de videogame.

Um esperado pé no acelerador para tornar Tintim atraente às novas gerações, sem, no entanto, desvirtuá-lo: a aura de matinê permanece intocada. As plateias parecem ter aprovado. Nos Estados Unidos, onde o personagem é um reles desconhecido, o filme arrecadou US$ 69 milhões, mas ao redor do mundo a bilheteria sobe para US$ 348 milhões. Isso abriu as portas para o segundo filme, no qual Jackson vai pular da cadeira de produtor para a de diretor. Boas histórias não faltam.

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