Equador quer virar 'laboratório cinematográfico' da América Latina

Neste ano, 12 produções locais estrearam ou estão em processo de pós-produção naquele país

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Cena de 'Sin Otoño, Sin Primavera', do equatoriano Iván Mora

O diretor de cinema equatoriano Iván Mora levou cinco anos para juntar dinheiro suficiente para filmar "Sin Otoño, Sin Primavera". O projeto teve início em 2007, quando o realizador recebeu uma bolsa de US$ 10 mil (R$ 20 mil) do Conselho Nacional de Cinematografia do Equador para transpor seu roteiro às telas de cinema. Mora também teve de arrecadar outros US$ 600 mil (R$ 1,2 milhão). Sem tais recursos, a película jamais ficaria pronto.

O filme é uma das 12 fitas que estrearam ou estão em processo de pós-produção neste ano no Equador. Essa quantidade sem precedentes de projetos cinematográficos nacionais deve-se em grande parte ao conselho estabelecido pelo governo em 2006 com objetivo de impulsionar o cinema nacional.

"O Conselho Nacional de Cinematografia mudou a forma como se filma e se produz no Equador", disse Mora. "Foi como se a água virasse vinho".

Júri latino-americano

A cada ano, um júri composto por cineastas procedentes de vários países da América Latina reúne-se para conceder prêmios a projetos locais em nome do conselho. Mais de 40 películas e documentários receberam este tipo de ajuda até agora. "Como os recursos são limitados, a concorrência é acirrada", disse Jorge Luis Serrano, diretor do Conselho Nacional de Cinematografia. "Nos últimos seis anos, o cinema equatoriano tornou-se uma espécie de laboratório para a América Latina."

Segundo explicou, o número de produções nacionais praticamente dobrou, o que elevou o cinema ao posto de setor cultural mais dinâmico do país. Para especialistas, trata-se de um avanço sem precedentes para um país com escassa história cinematográfica, em comparação com outros países latino-americanos.

História

"Sin Otoño, Sin Primavera" foi rodado em Guayaquil, a maior cidade do Equador. O primeiro longa-metragem produzido no Equador, "O Tesouro de Atahualpa", estreou em 1924, e retratava o mistério em torno do tesouro do último imperador inca. Durante toda a década de 1990, foram filmados apenas cinco filmes. No entanto, um deles, "Ratas, Ratones e Rateros", de Sebastián Cordero, obteve fama internacional e é considerada até hoje a estrela da nova era do cinema equatoriano.

O longa "Sin Otoño, Sin Primavera" é um exemplo da safra recente da qualidade dos filmes que atualmente são produzidos no Equador. A película, que Mora define como uma "balada punk", conta a história de vários jovens de classe média de Guayaquil.

Além da ajuda financeira do Conselho Nacional de Cinematografia, os produtores dizem que o governo equatoriano também vem impulsionando as relações públicas do setor, o que propicia a continuidade de um ciclo virtuoso.

Mais equipe

A oposição equatoriana, entretanto, afirma que o polo cinematográfico, que já consumiu US$ 4 milhões (R$ 8 milhões) de recursos públicos, está sendo utilizado pelo governo para "difundir sua mensagem por todo o país". O governo nega a acusação, mas, independentemente de quanto dinheiro já foi gasto, os produtores de cinema concordam que agora há muito mais equipe disponível.

Isso porque a administração central emprega especialistas em audiovisual para produzir e editar mais material oficial. Com isso, o governo conseguiu atrair profissionais treinados do setor. Mas o cinema do Equador ainda enfrenta grandes obstáculos. Com US$ 700 mil (R$ 1,4 milhão) disponíveis por ano, o Conselho Nacional de Cinematografia tem recursos limitados. "O fundo é estático, não cresce", disse Serrano. "Isso cria dificuldades".

Problemas de distribuição

Um dos maiores problemas enfrentados atualmente por cineastas e produtores do país é conseguir lucrar, ou pelo menos recuperar a totalidade do dinheiro investido nas produções. "Ainda é impossível viver como diretor de cinema", disse Paul Venegas, produtor de "La Llamada". "As possibilidades de reaver os investimentos, que permitiriam aos produtores reinvestir o dinheiro em novas produções e ser menos dependentes do governo, por enquanto, não existem", acrescentou.

A distribuição e a publicidade também são considerados obstáculos ainda a serem transpostos. Com apenas 220 salas de cinemas no país, o cinema nacional também enfrenta a concorrência das produções estrangeiras. Segundo especialistas, apenas 4% do que é exibido no país advém de conteúdo nacional.

Mas os cineastas estão hoje mais motivados. Mora financiou parte de seu filme trabalhando como editor de outra fita durante a produção de "Sin Otoño, Sin Primavera". "A gente não quer dinheiro. Se você quiser dinheiro no Equador, não será diretor de cinema. Somos pessoas que gostam de contar histórias", afirmou.

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