"Para Roma, Com Amor" serve como desculpa para Woody Allen filmar cidade

Comédia com Alec Baldwin e Penélope Cruz tem seus momentos, mas no geral é inconstante e repete fórmula dos filmes "cartão-postal" do diretor

Marco Tomazzoni , iG São Paulo | - Atualizada às

Desde que encontrou na Europa a fonte de recursos para seus filmes, Woody Allen desenvolveu uma fórmula para filmar os cartões-postais das belíssimas cidades por onde passa. Deu certo em "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e mais ainda com "Meia-noite em Paris" (2011), maior sucesso comercial de sua carreira e sua terceira indicação ao Oscar de melhor filme (as primeiras foram com "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa", que ganhou o prêmio em 1978, e "Hannah e Suas Irmãs"). Em "Para Roma, Com Amor", que estreia nesta sexta-feira (29) no Brasil, o expediente dá sinais claros de cansaço.

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Muito provavelmente porque o cineasta só escreveu o roteiro depois do convite (e aporte) da produtora italiana Medusa Film (uma das empresas do grupo controlado por Silvio Berlusconi). A história por encomenda rendeu quatro episódios independentes, intercalados na montagem e apresentados em inglês por um narrador com sotaque macarrônico. Uma homenagem aos filmes do formato comuns no cinema italiano nos anos 1960 e 1970.

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Em comum, os curtas-metragens – se considerados assim – só guardam as belas paisagens romanas, aquelas obrigatórias para qualquer turista médio: Fontana di Trevi, Piazza di Spagna, Coliseu, Piazza Navona e por aí vai. A fotografia do iraniano Darius Khondji, o mesmo de "Meia-noite em Paris", continua belíssima, mas isso nunca foi o segredo do cinema do diretor.

AP
Woody Allen com Roberto Benigni no set do filme

Os episódios mais problemáticos são, curiosamente, os dois falados em italiano. No primeiro deles, Roberto Benigni interpreta um esteoreotipado italiano de classe média, reclamando que a tecnologia provoca desemprego, os chineses vão dominar o mundo... É como se Woody, membro da elite cultural nova-iorquina, não soubesse retratar uma pessoa normal sem cair no lugar-comum. Pois da noite para o dia o tal joão ninguém vira estrela instantânea, alvo dos paparazzi e de um bizarro interesse da mídia pelo modo como prepara seu pão de manhã, faz sua barba ou escolhe cuecas. É uma crítica clara ao mundo das celebridades, algo que o diretor fez com muito mais competência em "Celebridades" (1998). Aqui, é só uma piada longa demais.

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No outro, dois jovens recém-casados no interior da Itália chegam a Roma para uma entrevista de emprego. A mulher (Alessandra Mastronardi) sai para encontrar um cabeleireiro e se perde nas ruas labirínticas da capital italiana – mais tarde, esse arco da história também serve para falar do circo das celebridades. Enquanto isso, o marido (Alessandro Tiberi), ansioso pela reunião de negócios, vê entrar pela porta a estupenda Anna (Penélope Cruz), prostituta que erra de quarto no hotel. O resto pouco importa – a impressão é de algo feito às pressas –, mas Penélope rouba a cena. Desenvolta falando italiano, ela esbanja sensualidade, mesmo pouco tempo depois da gravidez. Basta dizer que a espanhola remete a Sophia Loren em seu auge.

As duas histórias restantes são Woody Allen por excelência. Em uma delas, Jesse Eisenberg ("A Rede Social") assume de vez a influência do diretor ao interpretar seu alterego, um jovem arquiteto que mora com a namorada (Greta Gerwig) em Roma. Depois de um encontro casual com Alec Baldwin, um arquiteto famoso, e do convite para um café, o fantástico mais uma vez adentra a obra de Allen: sem explicações, Baldwin se converte na consciência experiente de Eisenberg, aconselhando-o durante a chegada de Monica (Ellen Page, sem qualquer sex appeal), hóspede desamparada e, por alguma razão, irresistível. Os diálogos, deliciosos, são típicos do cineasta (destaque para a cena em que Page descreve sua experiência lésbica), apesar da sensação de "já vi isso antes, e bem melhor" nunca se dissipar.

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O melhor segmento, não por acaso, é o que marca a volta de Woody como ator, o que ele não fazia desde "Scoop - O Grande Furo" (2006). Impossível disfarçar a alegria de vê-lo desfilar, com gosto, seu personagem neurótico padrão, uma máquina de piadas. Ao lado de Judy Davis, ele interpreta um ex-empresário do mundo operístico que vai a Roma visitar a filha (Alison Pill) e conhecer seu namorado italiano (Flavio Parenti), um comunista. Acontece que o pai do rapaz, um agente funerário (o tenor Fabio Armiliato), se mostra incrível cantando ópera no chuveiro e Woody insiste em levá-lo para o showbiz.

Não dá para negar que "Para Roma, Com Amor" tem seus momentos – a máxima de que um Woody Allen, mesmo ruim, é bom, prevalece. No geral, no entanto, o filme segue inconstante e repetitivo, embalado por uma trilha sonora kitsch, quase de mau gosto. Como a média da fase europeia do diretor não é nada boa, é um alívio saber que seu próximo filme será rodado em Nova York . Que venha 2013.

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