Circuito Fora do Eixo é criticado por cineasta, e polêmica se alastra pela web

Por iG São Paulo , por José Gabriel Navarro | - Atualizada às

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Grupo que reúne coletivos culturais e é responsável pela Mídia Ninja ganhou notoriedade após a cobertura em vídeo dos protestos ocorridos no País em junho

No início da madrugada de quinta-feira (9), três dias após os integrantes do Circuito Fora do Eixo (FdE) Pablo Capilé e Bruno Torturra serem entrevistados no programa “Roda Viva” (TV Cultura) para falarem sobre a Mídia Ninja (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação), uma ex-parceira do grupo o criticou publicamente por meio do Facebook - desencadeando uma série de discussões sobre o papel do Fora do Eixo.

Criado em 2005, o FdE reúne coletivos culturais em todo o país, e sua área de comunicação colaborativa, Mídia Ninja, ganhou notoriedade a partir da cobertura em vídeo, em tempo real, dos protestos realizados em junho pelo Brasil.

Divulgação/Facebook Casa Fora do Eixo
Evento realizado na Casa Fora do Eixo, em São Paulo

A cineasta Beatriz Seigner escreveu, em seu perfil no Facebook, que não recebeu nenhum tipo de remuneração por liberar a exibição de um filme seu em um projeto do FdE que levava obras cinematográficas a pequenas e médias cidades brasileiras. Seigner não teria angariado nem mesmo “Cubo Cards”, moeda paralela criada pelo grupo para realização de permutas entre profissionais de várias áreas que pertençam ao coletivo. Seigner classificou o modo de trabalho vigente no FdE como “escravo”, e acrescentou que a organização não esclarece quanto dinheiro capta ao vencer editais e conquistar patrocínios.

A cineasta também comparou o grupo a uma “seita”. “Como alguns me contaram, ‘eles funcionam como uma seita religiosa-política, tem gente ali capaz de tudo’ na tal ânsia de disputa por cada vez mais hegemonia de pensamento, por popularidade e poder político, capital simbólico e material, de adeptos”, escreveu. Segundo Seigner, como o FdE não é formalizado de nenhuma maneira (como organização não governamental, cooperativa etc.), tampouco pode ser processado por aqueles que, como ela, se sentiriam lesados. Ela ainda afirma que três pessoas lhe disseram terem sido ameaçadas caso cogitassem deixar o grupo.

Até a conclusão deste texto, a postagem de Seigner no Facebook havia sido “curtida” por mais de 3,4 mil usuários, e compartilhada mais de 4,5 mil vezes.

Desde então, ao menos três reações ganharam tenção como contraponto às acusações da cineasta. Já na manhã de quinta-feira, o fotógrafo da Mídia Ninja Rafael Vilela publicou, também no Facebook, um depoimento a favor do sistema de trabalho do FdE. “Quando nada é de ninguém, tudo é de todos e a gente voa. Parei de assinar individualmente as imagens que fazia e elas começaram a duplicar e triplicar sua capacidade de replicação”, escreveu.

Durante a tarde, o jornalista e comandante da Mídia Ninja, Bruno Torturra – que já havia reproduzido em sua página no Facebook o testemunho de Vilela –, se confessou, na mesma rede social, “deprimido”. “Não quero, nem tenho como, destrinchar o texto dela [Seigner] aqui. Mas me ater ao básico: a leitura dela e de muita gente sobre o FdE não revela tanto sobre a rede quanto sobre a própria mentalidade automática à qual o FdE tenta resistir”, declarou. “Investiguem, mas não acusem dessa forma. Discordem, mas não agridam simplesmente. Não precisa gostar, não precisa aderir, não precisa defender nem passar pano. Mas vamos ser honestos: há algo muito maior em jogo do que cachês e impressões de uma cineasta”.

O fundador do FdE Pablo Capilé se manifestou no Facebook à noite, deixando aberta uma lista de perguntas que se compromete a responder “nos próximos dias”. Nenhum dos textos publicados até agora tornam claras a quantia e a distribuição de verbas obtidas pelo coletivo por meio de patrocínios e editais.

Outras reclamações

Também na noite de quinta-feira, a bacharel em jornalismo Laís Bellini publicou um depoimento no Facebook sobre a experiência de ter vivido numa das Casas Fora do Eixo, moradias comunitárias dos membros do FdE também criticadas por Seigner. Dizendo-se motivada pela queixa pública da cineasta e desapontada com o coletivo, Bellini desabafou: "A galera faz sim o que pedem, a todo momento. Sim, tenho amigos ali dentro que me vêem como quem desistiu, mas não se dão conta do escravismo que estão vivendo, e aqui eu digo escravismo referindo-me ao mental e ao financeiro". Sobre o trato com uma das líderes do grupo, declarou que "era uma mistura de prepotência com aspereza, e intencionalmente querendo me passar medo".

Já na terça-feira, o cantor Daniel Peixoto, conhecido pelo extinto duo Montage, havia se manifestado contra o FdE. "Cadê este dinheiro que as pessoas sabem que circula?", questionou. Ele diz ter recebido do grupo, no máximo, uma ajuda de custo de R$ 500 por um dos shows que realizou dentro do sistema do coletivo. O FdE rebateu as acusações de Peixoto, que por sua vez fez uma tréplica.

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