Começa disputa entre 'ricos' e 'pobres' na Conferência do Clima em Doha

No segundo dia da Cúpula da ONU sobre mudanças climáticas, países discordam sobre prolongamento de acordo que limita as emissões dos gases causadores do efeito estufa

iG São Paulo |

Os primeiros sinais de tensão entre os países na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas apareceram nesta terça-feira (27) quando delegados dos países-ilha e das nações da África repreenderam os países desenvolvidos que se recusam a fazer novos cortes nas emissões de gases do efeito estufa nos próximos anos.

O debate girava em torno basicamente do Protocolo de Kyoto – acordo legalmente vinculante que limita as emissões e que expira este ano. Alguns países esperam conseguir negociar a extensão do pacto, mas várias nações como Japão Nova Zelândia e Canadá já anunciaram que não assinarão o acordo.

Marlene Moses, representante da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS, 44 membros) vulneráveis à elevação do nível das águas, disse estar fortemente decepcionada com os países ricos ao afirmar que eles não conseguiram agir ou oferecer novos cortes de emissões para o curto prazo. Os Estados Unidos, por exemplo, que não são signatários do Protocolo de Kyoto, disseram na segunda-feira que não irão aumentar os compromissos anteriores para reduzir as emissões em 17 por cento abaixo dos níveis de 2005 até 2020.

O acordo sem os EUA deixaria o comprometimento apenas com União Europeia, Austrália e vários pequenos países desenvolvidos, que juntos respondem por menos de 15% das emissões globais. A delegação japonesa defendeu também a decisão de não assinar uma extensão de Kyoto, insistindo que seria melhor se concentrar em chegar a um acordo até 2015, que exigiria que todos os países façam a sua parte para não permitir que a temperatura global aumente mais de 2 º C, em comparação aos dos tempos pré-industriais.

Leia mais:
Queda de desmatamento na Amazônia deve influenciar negociações na Cop-18
Degelo de solo no hemisfério Norte pode liberar dobro de carbono na atmosfera
Pequenas ilhas temem desastre 'épico' por causa do aquecimento

As negociações começaram e no estilo retranca. Ontem, no dia da abertura da Conferência, antes mesmo de iniciarem as críticas dos países pobres, os Estados Unidos se defenderam com a afirmação de que estão avançando a passos largos na redução das emissões de gases do efeito estufa.

O delegado americano Jonathan Pershing não ofereceu nenhuma nova iniciativa, mas reiterou o que o país fez  para combater o aquecimento global. Pershing divulgou ações como investimento maciço em energia limpa, aumento da eficiência energética e redução das termoelétricas alimentadas por carvão. Ele também disse que os Estados Unidos não vão aumentar o comprometimento de cortar as emissões em 17% , em relação ao níveis de 2005, até 2020 – o que seria metade da meta pedida.

Infográfico: Os maiores emissores de CO2 do mundo
Entenda: como acontece o aquecimento global

O Japão também botou as garras de fora em oposição à extensão do protocolo de Kyoto. “Como dissemos, apenas países desenvolvidos estão vinculados ao protocolo de Kyoto e suas emissões correspondem a apenas 26% do total”, disse Masahiko Horie, da delegação japonesa. “O Japão não vai participar do segundo período de comprometimento do Protocolo de Kyoto. O que importa agora é o mundo elaborar um novo quadro que seja justo e efetivo e que todos participem”, disse.

Impasse
A posição do Japão e de outros países desenvolvidos tem o potencial de reacender batalhas entre nações ricas e pobres que condenaram os esforços anteriores para se chegar a um acordo. Ainda que isto não tenha acontecido, alguns países, entre eles o Brasil, estão alertando que será difícil para as nações mais pobres fazerem sua parte se continuarem a ver as nações industrializadas intimidadas com a assinatura de acordos legalmente vinculantes como o Protocolo de Kyoto.

“Isto é muito sério”, disse Andre Correa do Lago, chefe da delegação brasileira na Conferência. “ Se os países desenvolvidos, que têm os meios financeiros, tecnológicos e uma população estável, com classe média forte, pensam que não podem reduzir as emissões e combater as mudanças climáticas, como eles podem pensar que países em desenvolvimento podem fazer isto”, disse do Lago. “É por isso que o Protocolo de Kyoto deve ser mantido vivo. Se tirarmos ele, teremos o que as pessoas chamam de velho oeste. Todo mundo vai fazer o que quer e sem obter as reduções necessárias”.

(Com informações da Associated Press)

    Leia tudo sobre: cop18mudanças climáticasdoha

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG