Reserva no Paraná se torna santuário para o estudo da Mata Atlântica

Área é ponto para pesquisas sobre a conservação da flora e a fauna do bioma

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Biólogo trabalha na Reserva Natural de Salto Morato

Salto Morato, uma reserva natural no litoral do Paraná, converteu-se em santuário para cientistas dedicados ao estudo da escassa Mata Atlântica, menos conhecida do que a Amazônia, mas com uma biodiversidade tão rica quanto, e igualmente ameaçada pela expansão humana.

A Mata Atlântica cobria originalmente uma área de 1,3 milhão de km², aproximadamente um quarto da Amazônia, quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil no século XVI.

Hoje, devido ao desmatamento para o cultivo de alimentos e a expansão urbana, resta menos de 10% de sua superfície, em fragmentos espalhados ao longo de toda a costa.

Chega a 62% a população brasileira que vive em regiões de Mata Atlântica, em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, entre outras. Contudo, menos de 2% é declarada área protegida.

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Salto Morato foi inaugurada em 1994 por uma fundação criada pela gigante de cosméticos, O Boticário. Possui 2.200 espécies de pássaros, mamíferos, répteis e anfíbios, cerca de 60% de todas as espécies animais sob ameaça de extinção no Brasil.

A reserva, aberta para o público em 1996, faz parte de um conjunto de "unidades de conservação" públicas e privadas, instaladas para preservar o que resta de Mata Atlântica.

"Para preservar é necessário conhecer", resume o administrador da reserva, Eros Amaral Ferreira.

Um grupo de cientistas que estuda a flora e fauna locais, financiados pelo Boticário, realizam suas pesquisas de campo neste paraíso de biodiversidade de 2.253 hectares.

Marcelo Silva, um biólogo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, estuda a polinização das bromélias, que se caracterizam por terem flores com um cálice muito profundo.

"As bromélias se reproduzem de forma sexuada ou assexuada e produzem o pólem que os beija-flores usam para polinizar outras plantas. De modo que cumprem um papel vital", explicou Silva à AFP. "Lamentavelmente muita gente vem e arranca essas flores", contou.

Na exuberante e úmida reserva, as espécies de palmeiras e bananas são onipresentes, assim como as helicônias vermelhas e amarelas e aves do paraíso.

O canto das aves também é frequente, para o deleite de Ricardo Pamplona Campos, um ornitólogo da Universidade Federal do Paraná.

Campos estuda há quase dois anos a interação entre as plantas e os pássaros que se alimentam de frutas, assim como o impacto da degradação da mata nas espécies locais de aves.

Salto Morato abriga 324 espécies de aves (entre elas cerca de 200 que são encontradas apenas no Brasil), 43 de rãs, 55 de peixes, 36 de répteis e 58 de mamíferos. Os pesquisadores da reserva descobriram duas novas espécies de peixes e uma nova espécie de rã de três dedos. As câmeras de vigilância registraram a presença de ao menos três pumas concolor, conhecido como suçuarana.

Uma das maiores dores de cabeça do administrador de Salto Morato é a expansão da retirada ilegal de palmitos selvagens dentro da reserva, que provocam a morte palmeiras, assim como a caça ilegal de animais selvagens e o roubo de plantas.

As espécies mais ameaçadas pela caça e perda de habitat são a jaguatirica, o caititu, o tatu, a suçuarana e o Pipile pipile, uma ave conhecida por papo vermelho e uma mancha branca nas asas.

Ferreira afirma que sua equipe de 10 pessoas é muito pequena para monitorar as estradas e lidar com os mais de 5.000 visitantes por ano, incluindo os que acampam. Ele acredita que há um grande potencial para impulsionar o ecoturismo, mas argumenta que mais investimento que seria necessário para melhorar as estradas de acesso e o monitoramento, bem como para a abertura de novos caminhos.

A reserva, que realiza programas educacionais em escolas locais, tem uma unidade de polícia ambiental, um centro de visitantes e outro de pesquisas, um centro de treinamento e uma estação meteorológica.

Aclamada como um modelo de gestão de reserva natural, Salto Morato foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 1999.

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