'Efeito CSI' impulsiona estudo de insetos para desvendar crimes no Brasil

Por Nivaldo Souza - iG Brasília | - Atualizada às

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Núcleos de pesquisa crescem no país, atraindo jovens inspirados na série americana sobre entomologia forense

"Estudo o tempo de desenvolvimento das espécies de moscas varejeiras para estimar o tempo de morte de uma pessoa." A frase podia ser de personagem da série americana CSI (Investigação da Cena do Crime, na tradução do inglês), mas faz parte do repertório da bióloga Karine Brenda Barros-Cordeiro, 29 anos. Ela finaliza mestrado na Universidade de Brasília (UnB) em entomologia forense, a ciência que estuda os insetos e outros artrópodes para solucionar crimes, área que vem ganhando destaque no país e colocando o Brasil na dianteira acadêmica da biologia criminal.

Karine Brenda Barros-Cordeiro é uma das jovens pesquisadoras que desvenda crimes a partir da análise de insetos . Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaMoscas varejeiras são usadas para estimar o tempo de morte de uma pessoa. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaKarine mostra material de trabalho para suas investigações. Foto:  Alan Sampaio/iG BrasíliaA partir da mosca contida na droga é possível identificar de onde ela vem. Foto: Alan Sampaio / iG Brasília

A pesquisa de Karine é resultado do chamado "efeito CSI", como define o professor José Roberto Pujol, coordenador do Núcleo de Entomologia Forense do Instituto de Ciências Biológicas da UnB. "Temos uma demanda reprimida no país em pesquisa de ponta, mas mesmo assim o Brasil é referência na América Latina. O efeito CSI é grande na garotada que quer entrar nessa área. Há uma procura bombástica", diz Pujol.

A procura cresceu junto com o despertar do interesse das polícias investigativas pela entomologia ao se depararem com casos complexos, nos quais a precisão pode inocentar ou condenar um acusado. "A UnB abriu esse espaço por causa da demanda da polícia, que trouxe esse problema (criar conhecimento) para a academia", afirma.

Não à toa, o núcleo brasiliense formou 76 legistas e peritos criminais com suporte financeiro do Ministério da Justiça em 2003 e 2004. Alguns desses alunos voltaram para seus estados e instalaram núcleos próprios de pesquisa. Atualmente, além dos já tradicionais laboratórios de Campinas (SP), Rio de Janeiro e Brasília, há entomologistas em Belém, Curitiba, Macapá, Manaus, Salvador e Recife.

Foi graças à evolução do segmento científico, por exemplo, que foi identificar a adolescente Isabella Tainara, morta em 2007, cujo corpo ficou desaparecido por 45 dias. A precisão do momento de morte de Isabella foi feito com a ajuda da equipe de Pujol.

Isso porque estudos como o realizado por Karine podem identificar o estágio de desenvolvimento de larvas de moscas e, com isso, a hora exata que o inseto nasceu. "O olfato das moscas faz com que elas sintam o cheiro de um corpo a 10 quilômetros de distância, depois de 10 minutos da morte", diz a bióloga.

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A descoberta dos restos mortais dos 154 passageiros do voo 1907 da Gol, em setembro de 2006, foi possível também por conta do olfato das varejeiras. "Depois do acidente da Gol já trabalhamos em outros acidentes de massa e na identificação de cemitérios clandestinos", conta o professor.

O biólogo da UnB comemora também o número expressivo de casos que o núcleo de estudos brasiliense contribuiu em dez anos. "O pesquisador mais antigo em atividade mora no Hawai (EUA) e trabalhou em 150 casos em toda a vida. Em 10 anos, 50 casos passaram pelo nosso laboratório", afirma.

Estufas sem tomada
Apesar do crescimento do interesse da “geração CSI”, a entomologia enfrenta dificuldade em segurar talentos e atrair especialistas experientes. O motivo é a falta de recursos para a investigação científica. "Em pesquisadores o efeito CSI é contrário. Para convencer um pesquisador a montar um laboratório é preciso muita lábia, em parte porque ele sabe que precisa estar à disposição da polícia 24 horas caso seja acionado e também por falta de fomento", diz o coordenador.

Ele também se queixa do investimento governamental na área. "Tem alguns anos que converso com o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para abrir um edital e nada. Se abrissem edital para 10 pesquisadores receberem R$ 10 mil cada um, seria maravilhoso", lamenta.

As dificuldades são visíveis no núcleo de Brasília. A UnB adquiriu há dois meses três estufas climatizadoras com o repasse de R$ 126 mil pelo Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), mas não conseguiu ligá-las por falhas estruturais. "Não estou fazendo uma pesquisa de ponta por não conseguir ligar esse equipamento", critica.

A estufa capaz de reproduzir diversos ambientes nos quais é possível identificar diferentes estágios de desenvolvimento de insetos e, com isso, precisar melhor crimes,demanda cerca de R$ 9 mil para construção da infraestrutura. "Esses equipamentos foram fabricados especificamente com um alto nível eletrônico e está desligado por falta de tomada, tubulação e a instalação de ar-condicionado para refrigerar o ambiente", diz.

A falta de infraestrutura prejudica novas investidas científicas. "A gente não consegue fazer projeto de pesquisa e ao mesmo tempo ajudar num caso, porque só temos uma estufa funcionando", diz Karine.

Guerrilha do Araguaia
Ainda assim, o núcleo de entomologia brasiliense dribla adversidade ganhando projeção internacional. Os brasileiros colaboraram com a perícia da Colômbia para identificar desaparecidos pelas Farc e desenvolveram a segunda pesquisa já produzida no mundo utilizando insetos para identificar a origem de maconha traficada para o Brasil.

"A partir da mosca contida na droga é possível identificar de onde ela vem. O único estudo desse tipo era do começo da década de 1980 e foi feito no Canadá. Um aluno conseguiu autorização da Justiça para fazer uma pesquisa igual aqui e o resultado foi ótimo", conta Pujol.

O brasileiro prepara agora o terreno no qual vai montar o primeiro campo experimental para trabalhar na descoberta de cemitérios clandestinos. A experiência deve ajudar na busca pelos guerrilheiros desaparecidos na Guerrilha do Araguaia. "Os gringos ficam impressionados com a variedade de cenários que temos", afirma.

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