Trecho de rodovia que mais matou no País coleciona erros no Ceará

Falhas de engenharia, buraco no asfalto, falta de passarelas e de fotossensores fazem dos trechos das BRs-116 e 222 os mais fatais

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

As condições da malha viária são precárias, a sinalização horizontal é repleta de lacunas, as passarelas para pedestres são raridades e o mesmo vale para os fotossensores. Não faltam falhas que expliquem o fato de os 10 primeiros quilômetros da BR-116 no Ceará ser o trecho que mais matou no Brasil este ano. Essa coleção de erros fez 25 vítimas fatais.

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De acordo com um levantamento feito pelo governo federal e divulgado durante o lançamento da nova operação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) , batizada de 'RodoVida', dos 60 trechos mais perigosos das rodovias federais do Brasil, dois estão no Ceará. Com base no número de acidentes com e sem vítimas, o estudo classificou os 10 primeiros quilômetros da BR-222 como o quinto trecho mais perigoso do País e os 10 primeiros da BR-116 como o 11º nesse ranking.

Daniel Aderaldo/iG
Um erro grosseiro de engenharia deixou esse ponto da BR-116 com um declive que provoca acidentes com frequência.

A BR-116 tem início em Fortaleza e liga a capital a municípios do Vale do Jaguaribe, Sertão Central e Cariri. A rodovia atravessa todo o Brasil até o Rio Grande do Sul. Dentro da capital cearense, a estrada também cumpre um papel de via urbana, encurtando as distâncias entre o Centro da cidade e bairros afastados na periferia. Como resultado, há um trânsito intenso de carros de passeio que se somam aos caminhões de carga.

O grande fluxo de veículos, a urbanização no entorno das pistas e a presença de apenas duas passarelas e dois fotossensores nesse trecho fizeram 25 vítimas fatais, deixaram 226 feridos e causaram ainda 401 acidentes sem vítimas em 2011. A imperícia dos motoristas e a falta de consciência dos pedestres são elementos que também devem ser levados em conta nessas estatísticas, conforme lembra o chefe de policiamento e fiscalização da PRF no Ceará, inspetor Ricardo Araújo. “Já atendi casos de atropelamentos sob a passarela e a alta velocidade também faz muitas vítimas”, pondera.

Os problemas da BR-116 se manifestam de forma mais grave em seus 10 primeiros quilômetros, mas se estendem e se multiplicam ao longo dela pelo interior do Estado. A rodovia tem os 54 primeiros quilômetros duplicados de Fortaleza até o município de Pacajus, passando por Itaitinga e Horizonte.

Percorrendo esse trecho, a reportagem do iG identificou a construção de duas passarelas interrompidas. As obras estão paradas porque o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Ceará vive em crise desde que a cúpula do órgão e vários servidores foram presos pela Polícia Federal em agosto de 2010 na operação Mão Dupla, acusados de fraudar licitações e desviar verbas destinadas à execução de obras feitas sob a responsabilidade do órgão.

Em vários trechos desses primeiros 54 quilômetros a sinalização horizontal que separa as faixas não existe, deixando os motoristas confusos. As muretas de proteção que separam as mãos da rodovia também estão destruídas em vários pontos.

As falhas não parar por aí. Na altura do quilômetro 11 no sentido interior-capital, um erro grosseiro de engenharia. Nesse ponto, a pista tem um declive brusco metros antes de uma curva fechada que precede a entrada para o bairro Messejana, em Fortaleza. Como o asfalto é irregular, no momento do declive, com o solavanco, o assoalho do veículo tende a bater na pista. Os amortecedores do carro se contraem totalmente. Com o sopapo no chão, o veículo salta e o motorista perde o controle, passando reto na curva. Prova dos frequentes acidentes são as muretas de proteção no entorno destruídas.

BR-222

A BR-222 começa em Fortaleza e faz a ligação com a região Norte do Estado, além do Piauí, Maranhão, chegando até o Pará. O trecho de dez quilômetros citado no levantamento registrou 22 mortes em 2011. Além disso, 351 pessoas ficaram feridas e aconteceram mais 359 acidentes sem vítimas. Segundo a Polícia Rodoviária Federal no Ceará, metade das mortes foi decorrente de atropelamentos.

Daniel Aderaldo/iG
BR-222 em Umirim. Nos períodos de chuva, a rodovia mais parece pista de rally

Um dado ajuda a elucidar esse verdadeiro massacre: há apenas uma passarela para pedestres ao longo desses 10 quilômetros que, a propósito, estão no perímetro urbano da região metropolitana de Fortaleza. Porém, há ainda um conjunto de falhas como buracos no asfalto, remendos mal feitos, que deixam a pavimentação irregular, além de acostamentos sem sinalização e pistas estreitas.

Crise no Ministério dos Transportes

O Ceará esteve no centro da crise do Ministério dos Transportes, que culminou com a demissão do ex-ministro Alfredo Nascimento (PR). O estado precário das estradas federais no Estado levou o governador Cid Gomes (PSB) a chamar Nascimento de "inepto, incompetente e desonesto" e o Dnit de "laia" e "antro de roubalheira". A BR-222 chegou a ser palco de um protesto em forma de rally protagonizado por Cid Gomes.

A repercussão das palavras ácidas proferidas pelo governador cearense gerou um “bate-boca” público entre os dois políticos, que só teve fim quando o ex-ministro foi ao Ceará, reconheceu que Cid tinha razão e anunciou um plano de recuperação das rodovias estaduais ao custo de R$ 1 bilhão, prometendo cobrir 1,7 mil quilômetros de estradas – 77% da malha viária pavimentada do Estado. Contudo, na prática, até agora, quem trafega pelas estradas em questão, viu poucas mudanças.

Sem respostas

O iG entrou em contato com a assessoria de impressa do Dnit em Brasília e com a superintendência do órgão federal no Ceará, pela qual responde José Abner de Oliveira Filho. A reportagem aguardou um posicionamento por dois dias, mas não recebeu nenhuma resposta.

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