Foi lição de vida, diz condenado a trabalhar em albergue como pena alternativa

Por Renan Truffi - iG São Paulo | - Atualizada às

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Consultor de vendas comemora poder "se reerguer" com apoio da família após crime de apropriação indébita

Em 2009, o consultor de vendas Roberto de Souza Oliveira, de 45 anos, “entrou em parafuso”. Morador de Diadema, na Grande São Paulo, ele diz que nunca tinha tido problemas com a Justiça, mas naquele ano foi considerado culpado pelo crime de apropriação indébita, artigo 168 do Código Penal, na 5ª Vara das Execuções Criminais da Capital. Recorreu, mas não conseguiu provar sua inocência. Acabou condenado a pouco mais de um ano e meio de prisão. O pavor, no entanto, se transformou em “lição de vida” quando a punição foi convertida em 555 horas de prestação de serviços à comunidade.

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“Eu vou falar pra você de verdade, eu entrei em parafuso. Até hoje sabe, querendo ou não, isso te marca. Eu venho de uma família pobre, mas decente. Nunca tive um problema, uma briga em bar, nem bebo e acabou acontecendo um negócio desse”, explicou Oliveira sobre sua reação ao saber da possibilidade de ficar preso. “Quer dizer, para mim foi uma lição de vida”, complementou.

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Veja como é o trabalho de pena alternativa em um albergue:

Lição de vida porque agora, todas às quintas-feiras, das 7h às 14h, ele vai ao Instituto Humanizado e Desenvolvimento Integral (IHDI), associação que gerencia um albergue, localizado no Ipiranga, zona sul da capital paulista, em parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo. No local, o consultor recebe os moradores de rua, preenche a ficha de cada um deles e distribui toalha para os que vão tomar banho e sabão para quem quer levar roupa. Depois disso costuma auxiliar as cozinheiras, servindo o almoço.

“O que eu vejo dessa pena alternativa é a proximidade de estar perto da minha família, reerguer a estrutura familiar. Já imaginou estar um ano e meio preso, longe da minha família? Eu não consigo me imaginar longe da minha família. Longe da minha filha, da minha mulher. São as duas pessoas que eu mais amo na vida”, afirmou.

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Na versão de Roberto de Souza Oliveira, ele foi acusado de apropriação indébita por ter sido usado como “laranja” em uma briga de família. “Eu trabalhava numa empresa onde eu recebia cheques por fora. Sempre fui comissionado. Então eu recebi uma comissão de pagamento de umas vendas que eu fiz, em cheque de terceiro. Só que havia uma grande briga entre mãe e filha, donas da empesa. Peguei esse cheque e depositei. Se eu fosse sem vergonha, larápio, eu nunca ia depositar na minha conta. Eu iria procurar passar para alguém. Só que ai deu um problema entre elas (mãe e filha) e falaram que eu tinha roubado os cheques. Eu não tinha documentação para provar, acabei pagando”, lamenta.

Mão de obra para associações

O albergue gerenciado pelo IHDI atende em torno de 600 pessoas por mês, sem contar aqueles que têm vaga fixa na instituição. O trabalho de atendimento a todos esses moradores de rua só é possível por conta da ajuda de pessoas condenadas a penas e medidas alternativas. "Eles (pessoas que pagam pena alternativa) preenchem uma lacuna, que é a falta de mão de obra que nós, como organização, temos. O prestador de serviços pode atuar em várias de nossas áreas e vai contribuir para apresentar um serviço de qualidade às pessoas acolhidas. E também essas pessoas se reintegram à sociedade ao tomarem consciência do que é o serviço a pessoas em situação de rua”, explicou o diretor Luiz Ciasca Júnior.

Atualmente, o albergue tem outros 17 prestadores de serviço, como os funcionários costumam chamar quem trabalha na instituição para pagar pena alternativa. Mas não é sempre que os autores de delitos compreendem o papel socioeducativo da pena.

“Depende muito da pessoa. Tem alguns pelo que eu conheço aqui que tem essa consciência. Algumas pessoas até comentaram que aprenderam e que não quer voltar a ter problema de novo com a Justiça. E tem outros que parece que tanto faz como tanto fez”, contou José Emanuel Chaves, que orienta o trabalho de quem paga pena alternativa na unidade.

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