Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão
Alan Santos/PR
Bolsonaro e Mourão têm o costume de comentar o comportamento um do outro sem citar nomes

Nos últimos dias, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seu vice, o general Hamilton Mourão (PRTB), entraram em mais um conflito de ideias após episódio envolvendo uma apresentação do Conselho Nacional da Amazônia Legal. O documento do órgão previa a expropriação de propriedades privadas onde houve prática de crimes ambientais e a redução de verbas encaminhadas por municípios que desmatam.

O conselho, que é presidido por Mourão, tinha o objetivo de encaminhar uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) em maio do próximo ano para autorizar as punições por casos de grilagem de terras ou de exploração de terra pública sem autorização.

A intenção de avançar com essa proposta desagradou Bolsonaro, que afirmou considerar "sagrada" qualquer propriedade privada. O descontamento foi tão grande que o presidente chegou a dizer que poderia demitir o responsável por uma medida dessas. Ele não citou Mourão nominalmente, mas o recado foi dado.

"Ou é mais uma mentira ou alguém deslumbrado do governo resolveu plantar esta notícia. A propriedade privada é sagrada, não existe nenhuma hipótese neste sentido", comentou Bolsonaro na manhã desta quinta-feira (12) ao deixar o Palácio da Alvorada.

"Se alguém levantar isso aí eu simplesmente demito do governo. A não ser que esta pessoa seja indemissível", disse. Mourão foi eleito vice-presidente junto a Bolsonaro e, por ter sido escolhido pela população, não pode ser demitido de seu cargo. A situação é diferente para ministros, por exemplo, cuja prerrogativa de escolha é do presidente.

Antes disso, porém, o clima já ficou tenso algumas outras vezes entre Bolsonaro e Mourão. Houve ocasiões, inclusive, que os dois trocaram farpas e subiram o tom nas críticas um ao outro. Relembre cinco casos.

Não reconhecimento da vitória de Joe Biden

Após a confirmação de que o democrata Joe Biden venceria as eleições nos Estados Unidos, Bolsonaro tem se recusado a fazer muitos comentários sobre o pleito americano e até agora não parabenizou o presidente eleito pela vitória. O Brasil é um dos poucos países que ainda não deu esse passo.

Diante desse silêncio e após ser pressionado para falar sobre o assunto, Mourão disse que ele, "como indivíduo", via a eleição de Biden como irreversível . A estratégia usada pelo vice foi para evitar que a declaração dele fosse utilizada como um posicionamento oficial do governo. Em um primeiro momento, ele afirmou que autoridades brasileiras, incluindo Bolsonaro, se manifestariam "na hora certa".

"É óbvio que o presidente, na hora certa, vai transmitir os cumprimentos do Brasil a quem for eleito", disse Mourão, sem citar nenhuma data para que isso pudesse acontecer. 

Em entrevista à CNN Brasil , Bolsonaro disse que as declarações de Mourão representavam apenas a "opinião" dele e que não havia conversado com ele sobre assuntos dos Estados Unidos. "Não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele", afirmou o presidente.

Suspensão de vacina pela Anvisa

Nas discussões em torno da suspensão dos testes da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o governo do estado de São Paulo,  Mourão criticou a politização do imunizante.

Na semana passada, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) suspendeu os testes da vacina após um "evento adverso grave", que mais tarde foi revelado se tratar do suicídio de um dos voluntários que participava dos testes sem relação com a aplicação das doses. O Butantan viu a suspensão como uma decisão política. Na ocasião, Bolsonaro comemorou a paralisação dos testes e disse que se trava de "mais uma vitória" dele.

"Eu acho que é uma coisa normal [suspender os estudos] no processo de você descobrir uma nova forma de tratar uma doença. O que não pode é politizar, infelizmente aí, você sabe bem, essa questão está toda politizada e fica 'Ah, é do lado A, é do lado B', acho que isso não é bom", comentou Mourão.

Veto na compra da CoronaVac

Bolsonaro também já se manifestou seu descontentamento com Mourão após uma declaração na qual ele garantiu que o Brasil compraria o imunizante chinês para vacinar a população contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2). "Essa questão da vacina é briga política com o Doria. O governo vai comprar a vacina, lógico que vai. Já colocamos os recursos no Butantan, para produzir essa vacina. O governo não vai fugir disso aí", afirmou.

Em resposta, o presidente negou que haveria qualquer intenção de aquisição por parte do governo federal. Bolsonaro disse que "a caneta BIC é minha".

Na pandemia, o Palácio do Planalto tem travado uma guerra contra o governo de São Paulo. O motivo seria o risco de fortalecer a imagem de João Doria (PSDB), que é considerado adversário político de Bolsonaro e uma potencial ameaça para o presidente nas eleições presidenciais de 2022.

Ataques ao Congresso e ao STF

Em maio deste ano, Bolsonaro  participou de manifestações contrárias ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília que pedia o fechamento dos dois, além da implantação de um novo AI-5 (Ato Institucional nº 5). Esse mecanismo foi utilizado durante a ditadura militar para endurecer ainda mais a medidas de repressão, com o fechamento inclusive de veículos de imprensa.

Embora concordasse com as críticas do presidente, que citava interferência do demais poderes no Executivo, Mourão minimizou o efeito que as declarações de Bolsonaro poderiam ter. "[As falas] só seriam perigosas quando se tem o poder de fazer o que quer, mas ninguém tem o poder de fazer o que quer aqui no Brasil", disse o vice.

O comentário foi feito pelo número dois do governo federal no contexto em que o Planalto começava a fazer alianças com o Centrão para garantir sua governabilidade. "Há muita polarização na política, mas a nossa administração está conduzindo bem o País e as coisas estão melhorando", afirmou Mourão.

Leilão da tecnologia 5G

Outra oportunidade na qual Bolsonaro se irritou com seu vice foi quando ele falou sobre a implantação da tecnologia 5G no Brasil. Em entrevista à agência chinesa Xinhua, Mourão disse que o leilão seguiria "padrões técnicos" e que não haveria "qualquer restrição a empresas de quaisquer países".

"Não distinguimos as empresas pelo país de origem, mas sim pela sua capacidade em oferecer produtos e serviços confiáveis, seguros e, obviamente, a preços competitivos", completou.

Ocorre que Bolsonaro considera a China um de seus principais adversários no comércio mundial. Em uma live nas redes sociais, o presidente disse que não permitiria "ninguém dando palpite" sobre esse assunto. Ele não mencionou Mourão, mas a declaração foi uma evidente resposta ao general.

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