homens de terno e gravata
Fernando Frazão/Agência Brasil
Cláudio Castro também é investigado pela polícia

Cerca de três meses depois de assumir o cargo, em janeiro de 2019, o governador agora afastado Wilson Witzel  chamou o vice, Cláudio Castro, para um almoço no Laranjeiras. À mesa, a revelação e a pergunta: “Serei candidato a presidente em 2022, você está preparado?”. A resposta veio, de acordo com assessores próximos, com uma movimentação estratégica do vice, que assume o cargo interinamente nesta sexta-feira. Em vez de se restringir ao Departamento de Estradas e Rodagem (DER) e ao Detran, sob seu guarda-chuva, começou desde então a ter uma participação e uma visão mais amplas da gestão. Foi o interlocutor de deputados e prefeitos, visto que Witzel dispensava o tête -à- tête . Sete meses depois, em entrevista à Época, o governador anunciava seu rompimento com o presidente Jair Bolsonaro, já escancarando uma suposta concorrência com ele nas eleições presidenciais.

Cláudio Castro, 41 anos, foi vice do azarão Wilson Witzel sem rezar a mesma cartilha do governador. Jamais imaginava que seria eleito, tanto que seu discurso de volta à Câmara dos Vereadores já estava pronto na antevéspera do resultado das eleições. No PSC, cumpria seu segundo ano de mandato quando foi convidado a concorrer na chapa de Witzel. Com o afastamento, duas mudanças indicam essa diferença: vai sair do PSC, deve migrar para o DEM (mesmo tendo convites de outros partidos) e já deixou claro que não seguirá a política de segurança do governador. Não é bélico, e tem uma inclinação para atuações na área social. Hoje sua agenda seria a inauguração de um projeto na Fundação Leão XIII, com Witzel.

O catolicismo, que exerce intensamente como pároco da Igreja Santa Rosa de Lima, na Barra, onde cantou no último domingo. Cantor gospel, tem funções especificas na Igreja, como participar da liturgia e dos cânticos nas missas. Foi por meio da religião que chegou à política. Tudo começou no Encontro de Jovens com Cristo. Com o padre Zeca, participou, em 1998, do movimento Deus é Dez. Ali se tornou amigo de Márcio Pacheco, também católico, de quem se tornou, mais tarde, assessor, no Detran, na Câmara dos Vereadores e na Assembleia Legislativa. Tentou ser vereador em 2012, teve oito mil votos. Em 2016, com 10 mil votos, foi eleito. Foi Claudio Castro que levou o famoso Padre Omar, da paróquia São José da Lagoa, ao catolicismo: os dois estudaram juntos na adolescência e começaram juntos a frequentar o encontro de jovens com Cristo. Guarda as imagens do encontro que teve com o Papa Francisco, em Roma, no ano passado, e também um terço que mantém no bolso permanentemente. Nascido em Santos (SP), veio para o Rio com 1 ano de idade e perdeu a mãe aos três. Casado, tem dois filhos.

A habilidade que prefeitos e deputados garantem que tem para a conversa começou de um modo literalmente paroquial. Nos seus dois anos de mandato como vereador, recebia padres e autoridades religiosas em seu gabinete. A preocupação de parlamentares é que amplie seu rol de preocupações e se concentre nas questões financeiras do estado.

"Ele não se mostra muito, não entra em polêmicas, não é de ir para o front. Quando soube que se candidataria a vice, achei que seria maluquice", lembra a vereadora Rosa Fernandes (PSC), colega de mandato de Cláudio Castro por dois anos.

"Em favor dele, tem o fato de que é do ramo. O tratamento com deputados e prefeitos melhora muito. E também deve olhar com mais atenção para o Plano de Recuperação Fiscal", diz o presidente da Assembleia Legislativa, André Ceciliano (PT), ao lembrar do rompimento de Witzel com Bolsonaro.

Prefeitos confirmam a boa relação. O de Barra Mansa, Rodrigo Drable, diz ter relação antiga de amizade com Cláudio Castro. A definição dele e de outros prefeitos, de partidos distintos, é de um vice com temperamento oposto ao do governador afastado – que com orgulho se apresentava como um defensor do confronto.

"É um pacificador. Ouve mais do que fala e tenta construir um caminho suave", diz o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo Drable (DEM). "É um grande conciliador e tem experiência na vida pública", confirma o prefeito de Teresópolis, Vinícius Claussen (PSC).

Nos últimos tempos esquentou o café do vice-governador, no jargão da política. O que significa que passou a ser mais procurado por parlamentares. Criou-se, no Palácio Guanabara, a chamada “antessala do vice”, onde o beija-mão era traduzido na aglomeração de políticos com pedidos e cientes da expectativa de poder. Witzel poderia tanto ser afastado pelo STJ, como ocorreu hoje, quanto sofrer impeachment pela Assembleia Legislativa, depois de envolvimento em escândalo de corrupção na Saúde.

"Ele não é pessoa de arroubos emocionais. É racional. O fato é que não foi um vice decorativo, e tem duas características essenciais para a política: é confiável e cumpre o que combina", afirma o deputado estadual Jorge Felipe Neto (PSD).

A expectativa de poder agregou novos aliados. Mas dentro do Palácio há ressentimentos. O grupo ligado a Witzel considera que o governador foi traído pelo vice, quando assumiu as funções de interlocutor com a Assembleia Legislativa, em busca de uma maioria contra o impeachment. Em pouco tempo, foi substituído na função pelo Secretário da Casa Civil, André Moura. E acompanhou de casa o desenrolar de seu destino e do governador.

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