Camilo Santana
José Cruz / Agência Brasil
Camilo Santana, governador do Ceará

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), culpa o presidente Jair Bolsonaro pelo aumento da circulação de pessoas em Fortaleza. Como consequência disso, ele sustenta que foi obrigado a implantar o lockdown - medida extrema de confinamento - na capital cearense a partir de sexta-feira. Mesmo com a medida, Camilo diz que não é possível garantir que o sistema de saúde do estado está livre de entrar em colapso.

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"O epicentro do problema no estado é a capital, com quase 80% dos casos e dos óbitos. A gente constatou nas últimas semanas a diminuição do isolamento. Compreendemos as dificuldades (das pessoas ficarem em casa) até porque Fortaleza é a cidade mais densa do ponto vista demográfico do Brasil. Nas áreas mais periféricas há dificuldade de manter as pessoas em casa em razão das precariedades urbanas. Os objetivos do isolamento rígido, o nome independe, o importante são as medidas, diminuir a curva, fazer com que as pessoas cumpram mais fortemente o isolamento, e evitar a transmissão.Se isso chegar ao interior do estado nessa velocidade seria mais problemático ainda", afirmou Camilo, em entrevista ao jornal O Globo.

Questionado sobre a postura do presidente, e se isso foi relevante para o envolvimento e adesão da população aos pedidos de isolamento e distanciamento sociais, o governador foi taxativo: "não tenho dúvida".

"Isso cria uma confusão na cabeça das pessoas. Você vê a maior autoridade do Brasil dando uma orientação contrária do que os especialistas falam, do que a Organização Mundial da Saúde fala, do que o próprio Ministério da Saúde tem orientado. É lamentável. Acho que este é o momento de somarmos esforços, nos unirmos com o objetivo de combater o inimigo comum que é esse vírus. Não tenho dúvida que isso tem contribuindo para a diminuição do isolamento no caso específico aqui do Ceará", concluiu.

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Sobre a projeção de mortes no estado, feita pela secretaria da Saúde e que estimou um total de até 250 no mês de maio, Camilo afirmou que o valor levava em conta a adesão da população ao isolamento. Porém, como essas medidas foram relaxadas, há o risco de aumento desse valor. Então, veio a necessidade da implementação do "lockdown", com regras mais rígidas. 

"A preocupação agora é porque houve uma diminuição do isolamento. Tem bairros aqui de Fortaleza, que estava com 32% (de adesão). Se mantivesse isso, havia um risco de aumentar significativamente os casos e consequentemente os óbitos porque o sistema de saúde não iria comportar. É por isso que as medidas mais restritivas, mais duras, a partir de agora, para diminuir novamente a curva. Para o sistema de saúde não ter que fazer um opção de quem será atendido ou não, quem usará o respirador ou não", disse.

Colapso da saúde e falta de profissionais

Segundo o governador, é "difícil avaliar" se o estado poderá ter um colapso na saúde mesmo com o "lockdown". Tudo porque os resultados passam pela adesão e conscientização da população ao isolamento e a capacidade de atendimento por parte dos profissionais, grupo que enfrenta afastamentos por contágio e até a defasagem de números.

"Hoje, estamos tendo dificuldade com profissionais de saúde. Há dificuldade de montar equipes, principalmente equipes especializadas de UTI, que saibam intubar um paciente, saibam usar um respirador. O médico que era responsável por dez leitos, agora ele ficará responsável por 20. Estamos solicitando que a política de contratação de médicos do governo federal possa vir para o Ceará.  Tem sido uma desafio enorme a contratação de profissionais na área da saúde. Isso não é um problema só do Ceará. Vamos fazer todos os esforços possíveis para garantir essa ampliação (de atendimento). Mas é impossível dizer qual será o nível que nós vamos alcançar daqui a 15 dias ou daqui a 30 dias", afirmou.

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Sobre as críticas sofridas por parte de empresários e comerciantes, ele ressalta que sempre pautou seu trabalho em orientações técnicas e que já tomou algumas decisões compensatórias para minimizar os impactos. 

Questão Bolsonaro

Por fim, o governador foi questionado sobre as críticas feitas ao presidente e se este seria o momento de uma possível renúncia. Segundo Santana, o principal é que a Democracia seja respeitada, assim como o direito de expressão. Além disso, apontou que o foco neste momento deve estar voltado para salvar vidas e minimizar os efeitos da pandemia.

"É lamentável uma agressão a um profissional da impressa. É lamentável que, enquanto vivemos uma epidemia com os números crescendo a cada dia, o presidente estar estimulando aglomeração, estar orientando no caminho contrário. É lamentável essa postura e precisamos alertar o país sobre isso. É o que tenho tentando fazer, sempre ao meu estilo, com muito respeito. É a maior autoridade do brasil. Este era o momento de estarmos todos unidos. Assim com as alegações do Moro precisam ser investigadas. Mas a prioridade neste momento deve ser o combate à pandemia. Infelizmente, é lamentável essa postura do nosso dirigente maior do país", finalizou.


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