Presidente Jair Bolsonaro
Agência Brasil
Bolsonaro descumpriu recomendação do Ministério da Saúde de evitar aglomerações e compareceu a manifestação em Brasília

Em meio a pandemia do novo coronavírus , autoridades brasileiras têm corrido contra o tempo para tomar decisões com o objetivo de frear o aumento de contaminações. A opinião de especialistas consultados pelo iG , no entanto, é de que o País sofre com a falta de lideranças fortes que estejam à altura de seus cargos de comando para lidar com esse momento de crise.

Para o cientista político Humberto Dantas, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), essa característica fica evidente no comportamento do próprio presidente Jair Bolsonaro , que não participou de uma reunião nesta segunda-feira (16) entre os líderes do três poderes.

O encontro teve a presença do presidente da Câmara, Rodrigo Maia , do presidente do Senado, Davi Alcolumbre , do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli , e do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta .

"Esse foi um encontro muito simbólico porque mostra que as instituições brasileiras estão dispostas ao diálogo e que o Bolsonaro se consagrou como um político pouco sintonizado com o que acontece no planeta. Ele não está interessado em levar o assunto a sério e flerta severamente com a irresponsabilidade . Ele está pagando para ver", afirma Dantas.

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De acordo com o cientista político, a solução seria a construção de uma narrativa única contra a proliferação do coronavírus, mas isso não é possível de ser feito porque somente uma parcela do Executivo quer trabalhar.

"A equipe do Bolsonaro é a de um governo de conflito em conflito . Nesse momento de crise ele teria oportunidade de se tornar um grande líder, mas prefere dividir e se isolar", completa Dantas.

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A opinião é compartilhada por Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP). Segundo o especialista, Bolsonaro tem postura irresponsável e é "ignorante" do ponto de vista do desafio que o coronavírus propõe.

"Ele não é deliberadamente irresponsável. Ele realmente não confia nas instituições brasileiras e tem uma ideia de que ele é solitário, que a República quer tentar se manter de pé sem ele", explica.

Apesar dessa descrença por parte do presidente, Ortellado lembra que um grupo de cientistas brasileiros foi o primeiro a sequenciar o genoma do coronavírus.

A equipe, coordenada pela médica Ester Sabino , diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP, entregou o resultado do mapeamento 48 horas depois da detecção do primeiro caso de contaminação no Brasil.

"Isso mostra que há uma mobilização para o combate ao coronavírus e que instituições brasileiras estão funcionando, sim."

"Impeachment no horizonte"

Diante da crise política causada pelo coronavírus , o deputado distrital Leandro Grass (Rede-DF) protocolou nesta terça-feira (17) um pedido de impeachment contra Bolsonaro.

O argumento é que o presidente cometeu crime de responsabilidade ao incentivar a manifestação contra o Congresso e o Poder Judiciário.

A hipótese de uma denúncia de impeachment já vinha sendo ventilada em vários setores da sociedade. Um dos vocalizou essa possibilidade foi o deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP), que disse que abriria o processo com alegações de crimes cometidos por Bolsonaro contra a saúde pública .

O motivo, de acordo com o parlamentar, seria a participação do presidente na manifestação a seu favor em Brasília no último domingo (15). Bolsonaro foi ao protesto de carro, contrariando a recomendação do Ministério da Saúde de evitar aglomerações, deu a mão a vários apoiadores, aproximou o rosto para posar para fotos e pegou vários celulares para tirar selfies.

A deputada Janaina Paschoal (PSL-SP) foi outra que defendeu o afastamento de Bolsonaro. Em um discurso na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), ela disse que se arrependeu de ter votado em Bolsonaro em 2018 e pediu que o vice-presidente, general Hamilton Mourão, assumisse a Presidência .

"Não tem mais justificativa. Como um homem que está possivelmente infectado vai para o meio da multidão? Como um homem, que faz uma 'live' na quinta e diz para não ter protestos, vai participar desses mesmos protestos e manda as deputadas que são 'paus-mandados' dele chamar o povo pra rua?", questionou Janaina.

Para o professor da USP, os motivos para um pedido de impeachment de Bolsonaro não faltam, mas ele acredita que ainda não há o ambiente ideal para a abertura de uma denúncia.

"Esse é um recurso que é válido, mas desde a redemocratização, seria a terceira vez que ele seria usado. A gente tem que evitar esse abuso e considerar a possibilidade de um impeachment no horizonte", diz Ortellado.

Já de acordo com Humberto Dantas, da FESP-SP, o afastamento do presidente neste momento seria a melhor opção, embora ele reconheça o trauma que essa conduta possa causar. "O País está muito cansado desse maremoto , mas mesmo assim o Bolsonaro conseguiu essa proeza de fazer muitas pessoas defenderem seu impeachment", afirma.   

Presidente não está sozinho

O professor ainda aponta despreparo em outras lideranças políticas, não apenas no presidente, o que agrava o quadro. "O Toffoli, por exemplo, foi um arranjo político. Ele não tem currículo para estar onde está, assim como o Alcolumbre é despreparado para ocupar a presidência do Senado", critica.

Outro exemplo, segundo Dantas, é o ministro da Economia, Paulo Guedes, que minimizou as mortes causadas pelo coronavírus na China dizendo que "morreram só cinco mil pessoas". "Esse governo tem pessoas que são pouco razoáveis do ponto de vista intelectual", conclui.                                                          

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