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Em depoimento, Lucas dos Santos, um dos filhos da parlamentar que está preso, disse que a mensagem foi escrita por seu irmão, Flávio, e um ex-PM

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Reprodução
Lucas dos Santos disse que apenas copiou texto e que irmão é verdadeiro autor

A juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce, da 3ª Vara Criminal de Niterói, determinou que a Polícia Civil investigue crimes envolvendo a confecção de uma carta na qual Lucas Cézar dos Santos, filho da deputada federal Flordelis dos Santos (PSD), muda sua versão sobre a morte do pastor Anderson do Carmo e confessa participação no crime. A decisão da magistrada foi tomada após Lucas ter admitido em seu interrogatório na Justiça, no último dia 1º, que não foi o autor da correspondência.

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O filho de Flordelis afirma ter copiado um texto já pronto, entregue a ele por seu irmão, Flávio dos Santo Rodrigues, e pelo ex-PM Marcos Siqueira da Costa. Os três estavam presos, juntos, na Penitenciária Bandeira Stampa, conhecida como Bangu 9.

O pedido de investigação foi feito pela promotora Fernanda Lopes e determinado pela juíza. A solicitação é para que a polícia apure todos os envolvidos na confecção da carta pelos crimes de fraude processual, falsidade ideológica e calúnia contra o vereador Wagner Andrade Pimenta, conhecido como Misael , e de Alexsander Felipe Matos Mendes, chamado pela família de Luan .

Na carta, Lucas acusou Misael e Luan, seus irmãos, de envolvimento na morte de Anderson. Ele afirmou que, na presença de Luan, o vereador lhe ofereceu vantagens para “dar um susto” no pastor . Ele relatou que pediu para um amigo fazer o serviço. “O moleque já sabia o que ia fazer, mas deu ruim”, escreveu na carta, justificando o fato do pastor ter sido morto.

A versão da carta nunca foi dada por Lucas à polícia. Na Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, Lucas acusou Flávio do crime e sempre negou seu envolvimento na trama. Os nomes de Misael e Luan nunca tinham sido citados por ele. Misael, junto com o irmão Daniel dos Santos de Souza, foi o primeiro a acusar Flordelis de envolvimento na morte de Anderson . Ele disse à polícia acreditar que a mãe foi a “mentora intelectual do crime”. Em entrevista ao “SBT Rio”, após a divulgação da carta, Flordelis passou a atacar o vereador.

Ainda na carta, Lucas afirma que no dia que recebeu a proposta, soube que Anderson tentou agarrar uma das netas. Fato semelhante foi citado por Flávio, em seu depoimento à DH no qual confessou o crime . Ele afirmou ter tomado conhecimento de que o pastor havia “passado a mão” em uma das netas, o que foi negado pelas jovens.

A juíza Nearis dos Santos também determinou que a esposa de Marcos Siqueira, Andrea Santos Maia, seja investigada. Ela é suspeita de ter sido a responsável por entregar a carta para Flordelis. Em entrevista ao “Fantástico”, da TV Globo, no dia 22 de setembro, a deputada afirmou que um de seus filhos recebeu a correspondência da esposa de um preso.

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Troca de advogado

Cerca de duas semanas após a divulgação da carta por Flordelis, Lucas passou a ser defendido por Marcelo Pires Branco da Costa, que também é advogado do ex-PM Marcos Siqueira. Procurado pelo Extra, Marcelo afirmou que entrou na defesa do filho de Flordelis após um pedido de Marcos.

O advogado chegou a acompanhar a primeira audiência do caso, no dia 31 do mês passado, mas foi destituído por Lucas no fim da sessão. O rapaz decidiu voltar a ser assistido pela Defensoria Pública. Já com a nova defesa, no dia 1º, Lucas contou à Justiça sua aversão sobre a carta. No interrogatório, o rapaz voltou a negar participação no crime, como na versão que havia apresentado à polícia, e mais uma vez acusou Flávio.

O advogado Marcelo Pires afirma que Marcos nega ter qualquer envolvimento na confecção da carta. O ex-policial militar cumpre pena de 480 anos e seis meses de prisão. Ele foi condenado por participação na maior chacina do estado do Rio, a da Baixada Fluminense, em março de 2005. Na chacina, 29 pessoas foram mortas em Nova Iguaçu e Queimados.

Um dos advogados de Flávio, Anderson Rollemberg, disse que não poderia comentar o caso, já que o processo está em segredo de Justiça.

No fim do primeiro dia de audiência, a promotora do caso, Fernanda Lopes, pediu que ficasse registrado nos registros da sessão algumas questões relacionadas à carta . Ela citou o “fato inusitado” de os advogados de Flavio terem visitado Lucas no presídio antes do aparecimento da correspondência. Por decisão judicial, atualmente Flávio e Lucas estão em diferentes presídios.

DH já apura

Antes mesmo do pedido da juíza, a DH já vinha investigando a carta que Lucas afirma ter copiado. Ao apreender o telefone celular de Flordelis, no dia 17 de setembro, a polícia encontrou indícios de que o documento pode ter sido fraudado.

Os policiais descobriram diálogos da deputada com Andrea, mulher de Marcos. Em uma das conversas, a deputada envia para a interlocutora um comprovante de transferência bancária de R$ 2 mil. Os agentes também encontraram conversas de Flordelis com seu então advogado, Fabiano Migueis, no qual eles falam sobre Lucas. Em uma das mensagens, Flordelis diz que o “marido da moça vai falar pra ele confessar”.

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A assessoria de imprensa alegou que o dinheiro depositado por ela foi usado para comprar kits de roupas e outros utensílios para seus filhos e outros presidiários.

Na última sexta-feira, ao ser procurado pelo Extra, Fabiano afirmou que havia deixado a defesa de Flordelis por “motivo de foro íntimo”. Procurada, Flordelis afirmou que se houve fraude, “evidentemente, ela não participou e sequer tomou conhecimento de que isso teria ocorrido. Quanto à carta, ela, ao recebê-la, entregou-a ao advogado dela que deu o melhor destino para colaborar com as investigações”.