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Procuradores da força-tarefa tinham em mãos indícios de crimes cometidos por bancos; delação de Palocci que citava instituições não foi aceita

Deltan Dallagnol arrow-options
Lucas Tavares / Zimel Press / Agência O Globo
Procurador da força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, durante palestra no Rio de Janeiro

A força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, chefiada pelo procurador Deltan Dallagnol, deixou de investigar suspeitas contra bancos e preferiu tentar acordos com as instituições financeiras, é o que mostram mensagens do Telegram obtidas pelo site The Intercept Brasil e divulgadas pelo  El País , nesta quinta-feira (22).

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A reportagem mostra que, enquanto tentava acordo de delação premiada, o ex-ministro Antonio Palocci, em 2017, afirmou que bancos teriam cometido crimes graves. Os procuradores da Lava Jato , no entanto, não aceitaram o que Palocci falou, mesmo sabendo que o Ministério Público deve, segundo a lei, "adotar as providências cabíveis em face de
irregularidades de que tiver conhecimento".

O jornal mostra que em um documento chamado "Ideias e Metas FTLJ 2017_2018", enviado pelo aplicativo de mensagens em 2016, a força-tarefa de Curitiba tinha como estratégia fazer
acordos com as instituições financeiras “a título de indenização por lavagem de dinheiro e falhas de compliance”, mas quando o assunto fosse as empreiteiras, tinha que "responsabilizar todas as empresas".

Antes da prisão de Marcelo Odebrecht , mostram as mensagens, Deltan Dallagnol perguntou ao então procurador Carlos Fernando Lima quais eram as "violações de grandes bancos" que
eles tinham conhecimento. "Fazer uma ação contra um banco pedindo pra devolver o valor envolvido na lavagem, ou, melhor ainda, fazer um acordo monetário, é algo que repercutiria
muito, mas muito, bem", escreveu Dallagnol.

Já em 21 de outubro de 2016, Dallagnol sugeriu a instalação de um Inquérito Civil Público (ICP) para apurar as falhas do que ele chama de "compliance" dos bancos, mostram as
mensagens. O procurador da Lava Jato queria solicitar informações sobre investigações internas e pressionar por uima negociação com a força-tarefa.

A operação chegou ao primeiro banco, no entanto, em maio deste ano, quando três executivos do Banco Paulista foram presos acusados de lavagem de dinheiro e de atuar para
beneficiar a Odebrecht. Três meses antes, o procurador Pozzobon já comemorava a futura operação.

“Chutaremos a porta de um banco menor, com fraudes escancaradas, enquanto estamos com rodada de negociações em curso com bancos maiores. A mensagem será passada!", escreveu
Pozzobon. "show!!! vai ter muita gente que vai começar a perder o sono, rs”, respondeu, à época, a procuradora Laura Tessler .

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Curiosamente ou não, em outubro de 2018, Deltan Dallagnol palestrou pela Federação Brasileira de Bancos ( Febrabran ) sobre prevenção e combate a lavagem de dinheiro e recebeu
pouco mais de R$ 18 mil líquidos, conforme confirmou a entidade. Meses antes ele palestrou para CEOs e tesoureiros de bancos nacionais e internacionais, com a presença de
representantes do Itaú, Bradesco e Santander.

“Estou preocupado com relação aos nossos passos em relação aos bancos”, escreveu Dallagnol dois dias antes de palestrar à Febraban. “Eu acho que eles vão se mover e vão mudar
nosso cenário, via lei ou regulação (coaf, febraban…). São muito poderosos”, acrescentou.

Delação de Palocci

O ex-ministro Antonio Palocci arrow-options
Reprodução
O ex-ministro Antonio Palocci

O ex-ministro Antonio Palocci foi preso em outubro de 2016 e tentou negociar acordo de colaboração premiada com a Lava Jato, mas, por considerarem que era difícil comprovar tudo
o que Palocci dizia, decidiram não aceitar. "Os anexos precisam ser melhorados", afirmaram, em relação ao que apresentou a defesa do ex-ministro.

Entre os 39 anexos que faziam parte da delação de Palocci, segundo o El País , havia citações sobre a relação dele com representantes do Banco Safra, Bradesco e Unibanco (que
fundiu-se com o Itaú). A respeito do Safra , Palocci afirmou que tinha "carta branca" para buscar recursos quando ele ou Lula precisassem. O ex-presidente, inclusive, foi citado
359 vezes por Palocci e nem isso fez com que os procuradores aceitassem a colaboração.

Ainda segundo Palocci, outros executivos de bancos lhe pediram favores, como o então economista-chefe do Bradesco , Octavio de Barros, e o vice-presidente executivo do banco,
Júlio Siqueira, que o procuraram em 2019 para obter informações privilegiadas do Banco Central sobre a mudança da taxa básica de juros, a Selic.

Em troca das informações, o banco realizou doações para a campanha de Dilma Rousseff em 2010. O ex-ministro contou ainda que "sentou em cima" de um projeto de lei para evitar
que os bancos Unibanco e Itaú fossem fundidos, em 2008, a pedido do banqueiro Pedro Moreira Salles.

As mensagens ainda mostram que os procuradores da Lava Jato viam que investigar os bancos poderia promover um "risco sistêmico". “O que nós temos a favor e que é uma arma que
pode explodir é que uma operação sobre um grande banco pode gerar o tal do risco sistêmico. Podemos quebrar o sistema financeiro. Essa variável tem que ser considerada para o
bem e para o mal”, escreveu Januário Paludo, em 18 de outubro de 2018.

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Ao ser procurada pelo El País , a força-tarefa de Curitiba disse que por meio de nota que "é de conhecimento público que as forças-tarefas Lava Jato no Paraná e no Rio de Janeiro já adotaram diversas medidas de persecução criminal em face de integrantes de instituições financeiras, incluindo diretores e gerentes de bancos e corretoras". Afirmou ainda que "não reconhecesse as mensagens que lhe têm sido atribuídas. O material é oriundo de crime cibernético e sujeito a distorções, manipulações e descontextualizações".