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De olho nas eleições municipais, partido de Bolsonaro quer evitar quadros que queiram pegar carona na imagem do presidente, mesmo sem afinidades

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Marcos Corrêa/PR - 21.6.19
Avaliação interna é que muitos filiados do PSL pegaram carona na popularidade de Bolsonaro nas eleições de 2018

Enquanto prepara uma campanha nacional de filiação para agosto, o PSL , partido do presidente Jair Bolsonaro, está elaborando uma cartilha de princípios. Com vistas às eleições municipais, o partido quer usar a medida para enfrentar um dilema: como buscar quadros competitivos para eleger mais prefeitos em 2020 sem desaguar numa filiação desenfreada de pessoas com pouco ou nenhum alinhamento com a legenda. Além de “filtrar” novos filiados, o objetivo é ter um instrumento para “enquadrar” os que não seguirem à risca as diretrizes do partido.

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A avaliação interna é que muitos filiados pegaram carona na popularidade de Bolsonaro nas eleições de 2018, ou são remanescentes de quando o PSL era um partido nanico e não estão comprometidos com as atuais bandeiras da sigla. Nesses casos, a edição da cartilha será um caminho para desfiliações.

O texto está sob responsabilidade da direção nacional. Segundo dirigentes ouvidos pelo Globo , ele abordará temas caros ao bolsonarismo , da agenda liberal na economia à pauta conservadora nos costumes, como a defesa das privatizações e a condenação do aborto e da chamada “ideologia de gênero”.

Diretórios estaduais também buscam reduzir problemas na próxima eleição, como divisões internas e discursos erráticos. Em São Paulo, uma das medidas do novo presidente da legenda no estado, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, foi pedir a elaboração de uma cartilha com regras de compliance para orientar a conduta dos filiados.

"Quantos de nós aqui já ouviu: “esse cara era do PT até ontem e está querendo se filiar ao PSL para surfar a onda”? Então, por que não colocar como filtro que a pessoa esteja há “x” anos não filiada ao PT?", disse Eduardo em sua posse. Em seu discurso, ele também falou em “selecionar os quadros” para ser um partido muito mais de direita. 

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Dono da maior fatia do fundo partidário e do segundo maior tempo no horário eleitoral, o PSL tem sido visto como alternativa eleitoral por potenciais candidatos. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o partido foi o que mais cresceu desde outubro de 2018, quando terminou a disputa presidencial. O assédio tem inspirado cautela em dirigentes regionais, que esperam a edição da cartilha para replicá-la nos estados.

O lançamento ainda não tem data, segundo o presidente nacional do PSL, deputado Luciano Bivar (PE). Já o ato nacional que dará a largada à temporada de novas filiações do PSL será em 17 de agosto em diversos estados:

"A ideia da cartilha surgiu para orientar os novos filiados, para que conheçam princípios e valores do partido", diz. Apesar de faltar mais de um ano para a eleição municipal, a agitação nos diretórios regionais do PSL já começou, segundo relato de seus presidentes, com pedidos de filiação de políticos interessados em trocar de partido.

"Não podemos permitir que o partido cresça como um elefante numa loja de cristais. Queremos trazer figuras que tenham alinhamento com o partido para fazermos uma base sólida se o presidente Bolsonaro decidir disputar a reeleição", afirmou o presidente estadual do PSL no Paraná, Fernando Francischini.

No Espírito Santo, o diretório oferecerá aulas aos filiados e simpatizantes do partido em todo o estado para conscientizar sobre conceitos da direita.

"O que é ser de direita, liberal na economia e conservador nos costumes? Estamos preparando essas aulas porque todo mundo que está no PSL tem que saber esses conceitos. Muita gente entrou no vácuo, porque apoiou o presidente Bolsonaro, mas isso acabou. Temos que nos fortalecer não só para 2020, mas para 2022", afirmou o presidente estadual do PSL no Espírito Santo, Carlos Manato.

A primeira palestra aconteceu em junho, num encontro estadual do PSL capixaba.

"Quem está ou quiser entrar no PSL tem que saber o que é livre mercado, que o partido defende um tamanho mínimo do Estado e que não dá para ser a favor do aborto ou de políticas assistencialistas", diz o professor de história Wellington Callegari, resumindo o conteúdo das aulas que dará.

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O PSL nacional também tem feito uma ofensiva para regularizar a situação dos seus diretórios estaduais e municipais junto à Justiça Eleitoral. Muitos têm processos de prestação de contas julgados irregulares, e um mutirão está sendo feito para quitar todos os débitos do partido, para não haver problemas na próxima eleição. Na seara política, tem havido troca de comando das direções regionais para um alinhamento maior com o projeto presidencial de Bolsonaro.