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Prédio e terreno no Rio valem cerca de R$ 6,5 milhões; ex-governador afirma ter recebido R$ 1,5 milhão e viagem a Turquia e Paris de Georges Sadala

Sérgio Cabral
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Cabral disse ainda que o empresário já pagou para ele e a mulher, a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, uma viagem a Paris

O ex-governador Sérgio Cabral afirmou nesta quinta-feira ser dono de um terreno em Ipanema, na Zona Sul do Rio, e de um prédio comercial comprado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste. O emedebista disse em depoimento ao juiz Marcelo Bretas que divide a propriedade dos imóveis com o empresário Georges Sadala, cujas empresas prestavam serviços ligados ao programa Poupa Tempo durante a gestão Cabral. 

"Há duas situações de propriedades minhas frutos de outros negócios com Georges Sadala. Um em Ipanema, em nome dele,  um terreno próximo à Rua Vinícius de Moraes, próximo à Barão da Torre. Não foi construído nada até hoje. A previsão era construir um prédio de quatro andares. E também de um prédio comercial que compramos na planta, na Barra", afirmou Cabral .

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Segundo ele, as propriedades valem cerca de R$ 6,5 milhões. A defesa de Sadala questionou o ex-governador se havia algum contrato que confirmasse que ele dividia a propriedade dos imóveis com o empresário. Cabral afirmou que não.

"(Era) na base da confiança recíproca", disse, afirmando que, como no caso em que tinha US$ 100 milhões no exterior administrados pelos irmãos doleiros Marcelo e Renato Chebar, também não havia nenhum documento. "Estou afirmando que metade dos imóveis da Barra e de Ipanema são meus."

Cabral disse ainda que o empresário já pagou para ele e a mulher, a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, uma viagem em 2015 a Paris e à Capadócia, na Turquia. O empresário Georges Sadala foi denunciado por integrar organização criminosa e por corrupção. O MPF aponta que Sadala realizou ao menos sete vezes pagamentos de propina em espécie ao esquema comandado pelo ex-governador. A denúncia afirma que os repasses realizados entre 2009 a 2015 somaram R$ 1,33 milhão. Em depoimento, Cabral admitiu que o valor foi maior, de R$ 1,5 milhão.

O emedebista afirmou que Sadala passou a ter um outro padrão de vida depois que o conheceu. Cabral afirmou ao juiz que conheceu o empresário por intermédio de "um político nacional de outro estado" e "que tem imunidade parlamentar". Afirmou que se colocava à disposição do MPF para maiores esclarecimentos.

Disse ainda que tem "99% de certeza" de que o empresário Arthur Soares estava com Sadala nos negócios envolvendo as empresas que ganharam as licitações no Poupa Tempo. Afirmou que o então secretário de Desenvolvimento Julio Bueno sabia que tinha que tomar a decisão de escolher a empresa de Sadala para o Poupa Tempo. O ex-governador afirmou que, em 2007, foi até São Paulo para conhecer o funcionamento do programa no estado.

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Farra dos Guardanapos

Sérgio Cabral
Reprodução/MPF-RJ
Ex-subsecretário Ricardo Cota, ex-secretário Wilson Carlos, ex-governador Cabral e ex-chefe da Casa Civil Regis Fichtnner

As operações teriam ocorrido por meio de Luiz Carlos Bezerra, um dos operadores de Cabral, em troca de contratos referentes ao programa "Rio Poupa Tempo" firmados entre o governo do Estado do Rio e o consórcio que inclui a empresa Gelpar Empreendimentos e Participações, criada em 2007 pelo empresário.

Segundo depoimento de Bezerra, os pagamentos variaram entre R$ 90 mil e R$ 311 mil por vez e foram realizados por Sadala pessoalmente em seu escritório, no Leblon, Zona Sul do Rio.

Sadala é um dos personagens da " farra dos guardanapos ", comemoração que reuniu Cabral, secretários, assessores e empresários numa festa em Paris, em 2009. Na contabilidade paralela do esquema, o empresário era identificado pelos codinomes “G”, “Salada” e “Saladino”.

Na denúncia, o empresário é apontado como "o grande corruptor da iniciativa privada" na área de prestação de serviços especializados relacionados ao programa "Rio Poupa Tempo". Os contratos, segundo a denúncia, renderam R$ 32,4 milhões entre 2009 e 2013. 

Também chamou atenção dos investigadores o fato de a Gelpar Empreendimentos e Participações não ter funcionários cadastrados em vários anos em que recebeu pagamentos por serviços prestados ao governo do Rio , principalmente porque a atividade da empresa seria o fornecimento e gestão de mão de obra para terceiros.

Além dos depoimentos de Bezerra e de Carlos Miranda, foram listadas como provas contra Sadala mensagens e ligações interceptadas durante as operações Calicute e Eficiência. Foram registradas centenas de ligações entre o empresário, Cabral e outros acusados de envolvimento no esquema. Ao todo, somente entre Sadala e o ex-governador do Rio foram contabilizadas 101 chamadas.

Também foram encontrados e-mails. Em um deles, Sadala cancela um evento de confraternização no mesmo dia em que Cabral foi preso, alvo da operação Calicute, em 17 de novembro do ano passado. No texto, o empresário afirma que o "Rio está de luto" e que achava inoportuno confraternizar "em um clima desses".