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Juiz federal que assumirá o ministério da Justiça diz que governo Bolsonaro não fará discriminação e comete ato falho: "não sou político que minto". Veja

Futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro disse que vai combater crime organizado e a corrupção no futuro governo Bolsonaro
Fábio Rodrigues Pozzebom/Arquivo Agência Brasil
Futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro disse que vai combater crime organizado e a corrupção no futuro governo Bolsonaro

O juiz federal e futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, disse não acreditar que as minorias estejam ameaçadas no futuro governo Bolsonaro. Convidado pelo presidente eleito para assumir a pasta, Moro afirmou que "não ingressaria em um governo se houvesse sombra de suspeita que exista política nesse sentido".

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Em entrevista concedida à TV Globo e exibida neste domingo (11), Sérgio Moro afirmou que "acompanhei todo o processo eleitoral e nunca vi propostas de cunho discriminatória às minorias. Não acho que estejam ameaçadas. Nada vai mudar" mesmo diante de declarações de Bolsonaro de que "a minoria tem que se calar, se curvar à maioria" . Para reafirmar isso, o juiz federal disse: "tenho grandes amigos que são homossexuais. Umas das melhores pessoas que eu conheço é homossexual".

O futuro ministro da Justiça disse também que “o governo deve ter uma postura rigorosa contra crimes em geral e também crimes de ódio" e que o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), não fará discriminação de qualquer tipo.

Sérgio Moro quer combater a corrupção e o crime organizado

Presidente eleito Jair Bolsonaro convidou o juiz federal responsável pela operação Lava Jato, Sérgio Moro, para reforçar pauta sobre combate à corrupção
José Cruz/ABr
Presidente eleito Jair Bolsonaro convidou o juiz federal responsável pela operação Lava Jato, Sérgio Moro, para reforçar pauta sobre combate à corrupção

Responsável pela operação Lava Jato que descobriu esquemas, foi responsável pelo combate à corrupção e condenou diversos políticos, entre eles o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, Moro também reafirmou que espera transferir a estrutura da operação para a pasta federal e que quer combater a corrupção e o crime organizado através do ministério da Justiça.

Moro, no entanto, foi questionado sobre o relacionamento com futuros colegas ministros, entre eles o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), futuro ministro da Casa Civil, que admitiu ter usado dinheiro de caixa 2 da JBS para pagar dívidas eleitorais, mas não teve sequer um processo aberto que o investigasse.

Em outra entrevista, após aceitar assumir o ministério da Justiça, Moro declarou que "quanto a esse episódio no passado [caixa 2], ele mesmo admitiu os erros e pediu desculpas, e tomou as providências para reparar". Dessa vez, reiterou sua posição em defesa do futuro colega de governo, "fiz essa afirmação em um contexto muito respeitoso", disse.

Questionado sobre se defenderia o afastamento de um ministro suspeito de corrupção, Moro afirmou que "se a denúncia for consistente, sim", a pessoa deve ser afastada. Ele lembrou que ouviu de Bolsonaro que não haveria proteção no seu governo em meio a eventuais suspeitas. “[Ele, o presidente eleito, disse que] ninguém seria protegido.”

Em seguida, o juiz federal foi categórico. “Eu não assumiria um papel como ministro da Justiça com risco de comprometer a minha biografia.”

Na sequência, Moro também foi convidado a responder sobre se sua postura não demonstrava uma certa parcialidade já que ele condenou políticos de oposição ao presidente eleito do qual o juiz agora faz parte da equipe. Sobre isso, moro reiterou que a decisão de ingressor no governo é posterior às medidas anteriores, como a condenação de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro.

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“Existe essa fantasia de que o ex-presidente Lula, que foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, teria sido excluído arbitrariamente das eleições por conta do processo penal. Mas o fato é que ele foi condenado porque cometeu um crime”, afirmou o juiz federal, lembrando que proferiu a decisão em 2017.

O Conselho Nacional de Justiça, na semana passada,  pediu explicações a Moro sobre sua suposta atividade político-partidária enquanto ainda exercia a magistratura. Ele negou qualquer irregularidade na sua conduta e a defesa de Lula entrou com novo pedido de habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) alegando parcialidade do juiz e citando fatos como o próprio convite aceito para ser ministros de Bolsonaro. O julgamento poderá ocorrer ainda este ano .

Sérgio Moro disse também que sua meta é, além de combater a corrupção adotar medidas de combate ao crime organizado, sustentadas em investigações sólidas, prisão dos líderes, isolamento dos chefes do esquema e confisco de bens.

“É assim que se desmantela a organização criminosa”, afirmou o juiz federal. “Não é uma coisa simples”, acrescentou. “Não se pode construir uma política baseada em confrontos.”

Questionado sobre a proposta do governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), de colocar snipers (atiradores de elite) para “abater” criminosos armados de fuzil, sem que haja implicação legal para os policiais, Moro disse que o assunto tem de ser tratado com “mais cautela” e que pode futuramente “sentar e conversar com o governador eleito”.

Sérgio Moro nega que seja político, mas comete ato falho

Sérgio Moro afirma que
Sylvio Sirangelo/TRF4
Sérgio Moro afirma que "não sou político que mente", mas depois se corrige e diz que "não sou político e não minto"

Contando com alta popularidade e aceitando um cargo no governo pela primeira vez na carreira, o juiz federal negou que pretenda se lançar à sucessão presidencial, em 2022. Ele disse que exercerá uma função técnica e não política. “O grande motivador foi a oportunidade de ir a Brasília e de poder ter uma agenda anticorrupção e anticrime organizado.”

Moro disse também que não se vê fazendo política no futuro. “Na minha visão, estou assumindo um cargo, predominantemente técnico”, disse reconhecendo, porém, que pode estar sendo "ingênuo". Na sequência, ressaltou “estou falando aqui que não vou ser [candidato à Presidência da República].”

Indagado sobre se poderia mudar de idade futuramente, Moro disse que "eu não falto com a verdade, não sou um político que minto. Tenho respeito aos políticos, política é uma das mais nobres profissões que existem, mas é uma questão de natureza", disse antes de ser alertado pela jornalista Poliana Abritta pelo ato falho e se corrigir: "não sou político e não minto".

Moro também justificou não ter pedido exoneração imediata da função de juiz [ele está oficialmente de férias] por ter "recebido diversar ameaças". "Se daqui uns dias eu peço exoneração e acontece alguma coisa comigo, minha família fica desamparada, fica sem proteção. Por isso estou esperando esse momento de férias, para então pediar exoneração e assumir como ministro", explicou.

Já sobre eventuais divergências com o presidente eleito, Moro disse que buscaria um acordo. Se não for possível, Bolsonaro poderia substituí-lo. “Quem foi eleito foi o senhor presidente”, ressaltou. “Se tudo der errado, eu vou ter de procurar me reinventar no setor privado de alguma forma.”

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Com a perspectiva de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF) a partir da abertura das vagas dos ministros Celso de Mello e Marco Aurélio de Mello, em 2020 e 2021, respectivamente,  Sérgio Moro  disse apenas que é uma “possibilidade para o futuro”.

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