
Um pé fossilizado encontrado há mais de uma década na Etiópia acaba de ganhar identidade e pode reescrever parte da história da evolução humana. Segundo um estudo publicado nesta terça-feira (25) na revista Nature, o chamado “pé de Burtele”, com 3,4 milhões de anos, pertencia ao Australopithecus deyiremeda, um parente distante e controverso da espécie de Lucy.
O fóssil foi descoberto em 2009, mas por anos permaneceu sem classificação oficial. Sua anatomia incomum, com características modernas e primitivas ao mesmo tempo, deixou especialistas intrigados. Somente agora, após novas análises e a descoberta de mais fragmentos de mandíbula e dentes na mesma região, a equipe conseguiu confirmar a associação com o A. deyiremeda.

Segundo os pesquisadores, esse hominíneo apresentava dentes caninos menores, parecidos com os da famosa Australopithecus afarensis (espécie de Lucy), mas também retinha um dedo grande do pé opositor, típico de primatas que escalam árvores.
“Bipedalismo foi essencial para nossa história evolutiva, mas existiam várias maneiras de andar sobre duas pernas”, explicou Yohannes Haile-Selassie, paleoantropólogo e diretor do Instituto de Origens Humanas da Universidade Estadual do Arizona, em entrevista ao Live Science.
Um hominíneo que caminhava… e escalava
Apesar do hálux (dedão) adaptado para agarrar galhos, o estudo mostra que o A. deyiremeda caminhava ereto no solo, um contraste marcante com Lucy, que era totalmente bípede. Isso indica que diferentes espécies de hominíneos conviveram há mais de 3 milhões de anos, cada uma com seus próprios modos de locomoção.

Quando o fóssil foi encontrado, causou estranheza entre os especialistas. Até então, acreditava-se que, no período em que Lucy viveu, os parentes humanos já haviam abandonado de vez a vida arborícola. A descoberta mostrou que a transição para o bipedalismo pleno pode ter sido muito mais complexa.
Lucy, cujo esqueleto de 3 milhões de anos foi achado em 1975, ajudou a consolidar essa visão. A discrepância com o pé de Burtele deixou pesquisadores em dúvida sobre sua origem por anos, incerteza alimentada pelo fato de que a identificação de espécie costuma depender de partes do crânio.
Retorno ao sítio arqueológico trouxe respostas
A equipe voltou ao sítio de Woranso-Mille, na região de Afar, e encontrou 13 fragmentos adicionais de dentes e mandíbulas datados do mesmo período e da mesma área do misterioso pé. Essa coincidência, segundo os autores, permitiu associar o fóssil “com confiança” ao A. deyiremeda.
A conclusão, no entanto, não é consenso: parte da comunidade científica mantém reservas sobre a classificação, enquanto outros especialistas comemoram a possibilidade de entender melhor como diferentes espécies de hominíneos dividiram o mesmo território e talvez os mesmos recursos.
A descoberta reacende o debate sobre como a evolução humana ocorreu em seus estágios iniciais e mostra que, enquanto alguns ancestrais desciam das árvores, outros ainda dependiam delas para sobreviver.