
Médicos de Pune, na Índia, realizaram uma cirurgia impressionante ao remover uma enorme bola de cabelo, com cerca de 300 gramas, equivalente ao tamanho de um rolo de papel-toalha, do estômago de uma menina de 10 anos diagnosticada com a chamada síndrome de Rapunzel, um distúrbio digestivo e comportamental extremamente raro. As informações são do NY Post.
A condição é causada pela compulsão de arrancar e ingerir o próprio cabelo, o que, ao longo do tempo, faz com que os fios acumulados no estômago se misturem com muco e restos de alimentos, formando uma massa sólida conhecida como tricobezoar. Se não tratada, essa massa pode se estender ao intestino delgado, provocando infecções, obstruções, úlceras e graves deficiências nutricionais.
No caso recente, a “cauda” da bola de cabelo, composta também por fios de algodão, se estendia do estômago da criança até o intestino delgado e a vesícula biliar, algo considerado inédito pelos especialistas.

“A paciente apresentava dores abdominais intermitentes havia quase dez meses, sem melhora com tratamentos convencionais”, explicou o cirurgião pediátrico e neonatal laparoscópico Kalpesh Patil, que liderou a equipe responsável pela operação.
“Ela foi internada em 8 de outubro. No exame clínico, percebemos uma grande massa dura ocupando toda a parte superior do abdômen.”
A cirurgia de emergência durou cerca de duas horas e meia. Segundo Patil, mesmo entre os raríssimos casos de síndrome de Rapunzel, encontrar cabelo dentro da vesícula biliar é algo jamais relatado. Desde que o distúrbio foi descrito, em 1968, menos de 100 casos foram documentados.
A síndrome costuma atingir principalmente meninas entre 13 e 19 anos. Para o médico, a chave para evitar complicações graves é o diagnóstico precoce de condições psicológicas associadas, como ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e depressão. Ele reforça que o tratamento pós-operatório deve incluir acompanhamento psiquiátrico para impedir a formação de novos tricobezoares.
“Além da cirurgia e dos cuidados de recuperação, recomendamos avaliação psiquiátrica”, afirmou Patil.
“As chances de recorrência são pequenas, mas existem, especialmente se o transtorno de base não for tratado.”
Após a operação, a criança foi encaminhada à UTI pediátrica. Com a confirmação de que não havia vazamentos no trato gastrointestinal, a alimentação oral foi retomada. Uma semana depois, ela chegou a eliminar fios e fragmentos de algodão nas fezes, material residual, segundo os médicos. Estável e tolerando bem os alimentos, ela recebeu alta em 29 de outubro.
A síndrome de Rapunzel surge da combinação entre tricotilomania, transtorno em que a pessoa arranca compulsivamente os próprios cabelos, e tricofagia, que envolve chupar, mastigar ou ingerir os fios.
Ambos os distúrbios são considerados raros: estima-se que entre 0,5% e 3% da população viva algum episódio de tricotilomania ao longo da vida, e de 10% a 30% desses casos incluem tricofagia. Entretanto, apenas cerca de 1% dos pacientes com ambos os transtornos desenvolve um tricobezoar, segundo estudo de 2019.
Apesar de raro, o quadro é perigoso. Em 2021, uma adolescente britânica desenvolveu uma bola de cabelo de mais de 45 centímetros que perfurou seu estômago e, ao ser retirada, revelou-se moldada no formato completo do órgão. Já em 2017, outra jovem no Reino Unido morreu após uma infecção causada por um tricobezoar provocar uma úlcera perfurada, levando à falência múltipla de órgãos.