O ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson
Reprodução/Flickr - 24.12.2020
O ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson

Um dia após Boris Johnson renunciar à liderança do Partido Conservador, a disputa pelo cargo — e pelo comando do Reino Unido —, ganha fôlego. Enquanto correligionários anunciam o lançamento de suas candidaturas, fica cada vez mais claro que as vozes críticas ao premier demissionário não conseguirão removê-lo antes do processo de escolha do seu sucessor chegar ao fim em algumas semanas.

O calendário da disputa conservadora será divulgado na segunda, mas os nomes já despontam. Um dos primeiros a se pronunciar foi Rishi Sunak, o ex-ministro do Tesouro cuja renúncia na terça foi uma das que catalisou a debandada de quase 60 integrantes do governo em menos de 48 horas. A sangria provou-se o golpe fatal para o premier já pressionado.

“Estou concorrendo para ser o novo líder do Partido Conservador e seu primeiro-ministro”, tuitou Sunak, que recebeu quase de imediato o apoio dos deputados Laura Trott e Mark Harper, os primeiros endossos da disputa conservadora.

Em uma gravação também compartilhada nas redes sociais, Sunak afirmou que deseja “guiar o país pela direção certa” e que “alguém precisa tomar as rédeas neste momento e tomar a decisão certa” para que os britânicos tenham “um futuro melhor”. Indicou também que, se eleito, sua plataforma será focada na disciplina fiscal:

“Vamos enfrentar este momento com honestidade, seriedade e determinação?”, indagou. “Ou vamos dizer para nós mesmos contos de fadas reconfortantes que podem ajudar no momento, mas deixarão um futuro melhor para nossos filhos?”, disse ele, que também ressaltou valores familiares.

A aposta do agora ex-ministro, que se provou acertada, era que o rompimento com Boris causaria um cataclisma no governo britânico e o catapultaria como um dos favoritos para sucedê-lo na liderança do partido governista. O filho de imigrantes indianos é atualmente o favorito na disputa, segundo a casa de apostas Ladbrokes.

O ex-ministro do Tesouro renunciou quase simultaneamente ao seu amigo Sajid Javid, ministro da Saúde e outro nome bem cotado para a sucessão. Até pouco antes de abandonar o cargo, no entanto, a dupla defendia publicamente o premier na sucessão de crises que há meses o faziam andar na corda bamba, complicadas por uma economia que sofre os impactos do Brexit, o divórcio britânico da União Europeia.

Boris era pressionado para que deixasse o poder de imediato, mas conseguiu uma vitória derradeira com sua permanência interina. Para isso, nomeou um novo Gabinete e concordou em não tomar decisões políticas ou econômicas que representem grandes guinadas, deixando as decisões maiores para o novo premier.

Quadros críticos no partido passaram o último dia buscando vias alternativas de tirá-lo de imediato, acusando-o de ser moralmente inapto para governar o Reino Unido. Defendiam a indicação de um líder temporário ou que o processo de escolha do sucessor fosse acelerado. Nesta sexta, contudo, tudo indica que o grupo perdeu a batalha.

A oposição trabalhista, por sua vez, planeja um voto de desconfiança no governo, mas não devem conseguir votos suficientes entre os conservadores porque isso desencadearia uma nova eleição. Os parlamentares do partido governista resistem a um pleito antecipado, já que estão atrás nas pesquisas e provavelmente perderiam a maioria.

A Comissão de 1922, o órgão responsável por determinar as regras eleitorais conservadoras, elegerá novos integrantes na segunda-feira e, então, anunciará quais serão as regras exatas da disputa pelo comando da legenda. A tendência, contudo, é que seja um processo bastante similar ao atual.

Pelos termos vigentes, os 358 integrantes do partido no Parlamento enxugarão a vasta lista de candidatos para dois, algo deve acontecer até o dia 21 deste mês, quando começa o recesso de verão. Em seguida, os 180 mil britânicos filiados ao Partido Conservador votarão para eleger seu novo líder. A expectativa é que o processo já esteja concluído em 5 de setembro, quando o recesso de verão boreal chega ao fim.

Além de Sunak e Javid, outro nome bem cotado é o da chanceler Liz Truss, que retornou às pressas da reunião do G20, em Bali, e já deixou claro seus planos de concorrer. Thatcherista, ela não fez parte do esvaziamento do governo nos últimos dias, preferindo permanecer ao lado de Boris, no que especialistas dizem ser uma tentativa de herdar o apoio dos mais radicais.

Outro nome popular é o de Nadhim Zahawi, o atual ministro do Tesouro, que substitui Sunak. A ele, soma-se Penny Mordaunt, secretária do Comércio que já meses fazia crítica veladas a Boris.

Também correm por fora o ex-secretário da Saúde, Jeremy Hunt, o atual secretário de Defesa, Ben Wallace, e Michael Gove, secretário de Habitações que foi demitido após ser o primeiro integrante do Gabinete a aconselhar Boris a deixar o cargo.

Nenhum deles, contudo, anunciou formalmente sua candidatura. Além de Sunak, apenas a procuradora-geral Suella Braverman e o deputado Tom Tugendhat já se lançaram como candidatos, mas as chances de ambos parecem ser periféricas.

“Os conservadores estão se engalfinhando com uma lista de líderes pretensiosos, que apoiaram o premier por meses e meses sabendo que ele não era apto para governar”, disse o líder trabalhista, Keir Starmer, em uma entrevista coletiva nesta sexta.

Starmer falou à imprensa após uma investigação da polícia de Durham constatar que ele e sua vice, Angela Rayner, não violaram as regras de distanciamento social impostas para conter a Covid. 

A dupla era acusada de ter quebrado as diretrizes ao comer curry e beber cerveja durante um evento em abril de 2021, quando havia restrições para reuniões em espaços fechados.

A polícia constatou, contudo, que o evento foi uma reunião de trabalho e que, após comerem, os políticos voltaram ao trabalho. É uma vitória para a dupla, que prometia renunciar caso fossem multados, em contraste com Boris, que foi multado devido ao escândalo “partygate”, que há seis meses causava dor de cabeça para o governo.


Enquanto a população encarava duras regras de confinamento social para conter a Covid-19, várias festas foram realizadas em Downing Street, e Boris chegou a participar de ao menos duas delas. A crise fez com que os conservadores convocassem um voto questionando a capacidade de Boris de continuar a frente do partido, no último dia 6.

Notório por sua habilidade de escapar de situações que já puseram fim em várias outras carreiras políticas, o premier sobreviveu à votação, mas perdeu o apoio de 49% dos parlamentares conservadores. A gota d’água foi a renúncia do vice-líder da bancada do Partido Conservador, Chris Pincher, acusado de apalpar dois homens em uma festa em um clube privado londrino.

Por dias, Downing Street insistiu que o premier não tinha conhecimento sobre “acusações específicas” de má conduta do aliado, mas mudou de versão após vir à tona que Boris havia sido informado sobre as alegações. 

Ele de fato sabia, justificou o governo, mas havia se esquecido. Boris deu uma entrevista à BBC se justificando, que foi ao ar quase simultaneamente às renúncias de Sunak e Javid.

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