Vala comum na cidade de Mariupol, no Sudeste da Ucrânia
Reprodução/Twitter - 12.04.2022
Vala comum na cidade de Mariupol, no Sudeste da Ucrânia

Na tarde de segunda-feira, o Batalhão Azov, a milícia de extrema direita que atua ao lado das forças de segurança ucranianas desde 2014, anunciou em suas redes sociais o que seriam evidências do uso de um tipo de arma química em Mariupol , onde o Exército russo busca eliminar os últimos focos de resistência e onde autoridades locais afirmam que morreram "milhares de pessoas".

"Há cerca de uma hora, as forças de ocupação russas usaram uma substância venenosa de origem desconhecida contra militares e civis ucranianos na cidade de Mariupol, que foi lançada de um VANT (drone) inimigo", dizia a publicação, mencionando que as supostas vítimas apresentavam "insuficiência respiratória" e tontura.

Caso comprovado, o ataque causaria repercussões dentro e fora da Ucrânia, com a possibilidade de nações ocidentais incrementarem o apoio militar às forças locais, além de pressionarem por sanções mais duras contra a Rússia. Contudo, para especialistas e lideranças políticas, incluindo o próprio presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, há poucas, ou nenhuma, evidência concreta que comprovem as alegações do Azov.

Em uma longa sequência no Twitter, Dan Kaszeta, um dos principais especialistas em armas químicas e autor de "Toxic: A History of Nerve Agents" ("Tóxico: Uma História dos Agentes Nervosos", sem edição no Brasil), apontou para alguns fatores necessários para comprovar a denúncia e até agora ausentes. Um ponto é a falta de relatos do local do suposto ataque, como sobre o tipo de armamento que teria sido usado, se o drone citado pelo Azov realizou mesmo a ação e, principalmente, sobre os sintomas das supostas vítimas.

"Temos alguns soldados ucranianos doentes, mas não mortos. Eles apreentam dificuldade de respiração e ataxia. Isso não nos diz muito", escreveu Dan Kaszeta. "O que temos aqui são pessoas atordoadas. O que não temos são sinais e sintomas (e algum tipo de diagnóstico médico) que leve a investigação para o uso de agentes químicos, quanto mais de um agente químico específico."

Na manhã desta terça-feira, o Batalhão Azov publicou um vídeo mostrando pessoas apresentando alguns sintomas que, segundo a milícia, seriam compatíveis com os de um ataque com armas químicas: fraqueza, febre, taquicardia e pressão baixa, observados por algum tempo depois da exposição a uma "fumaça branca".

Kaszeta, além de reiterar a falta de evidências, como sobre a aparência ou o cheiro da suposta substãncia, apontou para o local do ataque, uma metalúrgica que serve como um dos últimos bolsões de resistência contra os russos.

"Há muita margem em um ambiente industrial para que armas convencionais ou incendiárias provoquem problemas químicos conta dos incêndios e explosões", disse o especialista. "Vamos também olhar para o cenário mais amplo. Mariupol é um grande e tóxico poço de queima neste momento. De alguma forma devemos concluir que uma pequena munição de um drone é algo mais insalubre do que o resto dos elementos naquele ambiente."

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Uma hipótese levantada por alguns analistas é a de que as forças russas tenham usado munições de fósforo branco, um tipo de armamento que provoca graves queimaduras e pode levar à morte — apesar de seu uso ser condenado por organizações de defesa dos direitos humanos, ela não é proibida pela legislação internacional. No final de semana, o Ministério da Defesa do Reino Unido afirmou que as tropas russas poderiam usar este tipo de armamento em sua ofensiva em Mariupol.

Por enquanto, as autoridades ucranianas tratam com cautela as alegações do Batalhão Azov. Em vídeo divulgado na noite de segunda-feira, o presidente Volodymyr Zelensky sugeriu que as armas químicas deveriam ser tratadas como uma "linha vermelha" pelos países ocidentais.

"Um dos porta-vozes dos ocupantes afirmou que eles poderiam usar armas químicas contra os defensores de Mariupol. Levamos isso o mais a sério possível. Gostaria de lembrar aos líderes mundiais que o possível uso de armas químicas pelos militares russos já foi discutido. E já naquela época significava que era necessário reagir à agressão russa com muito mais força e rapidez" disse o presidente ucraniano. Assessores afirmaram que as alegações já estão sendo investigadas.

O governo dos EUA declarou que não tem como conformar o uso de armas químicas, como alegado pelo Batalhão Azov, e que não possui informações sobre movimentações de agentes químicos russos em direção ao front na Ucrânia. No mês passado, o presidente Joe Biden, em reunião da Otan, afirmou que Washington responderia a um ataque do tipo, ao lado dos parceiros da Otan.

O uso, a produção e o armazenamento de armas químicas foi banido pela Convenção de Armas Químicas de 1997, e a Rússia, que é uma das signatárias, concluiu a destruição de seu arsenal de 40 mil toneladas de agentes como sarin, soman, gás VX e gás mostarda em 2017 .

Contudo, o Kremlin é acusado de usar algumas dessas substâncias não no campo de batalha, mas contra dissidentes. O caso mais recente é o do líder oposicionista Alexei Navalny, envenenado durante um voo na Sibéria, em 2020. Ele foi levado para tratamento na Alemanha, onde especialistas apontaram que ele havia sido exposto ao Novichok, considerado uma arma química. Navalny acabou preso ao retornar a Moscou, no começo do ano passado, e recentemente foi condenado a uma pena adicional de nove anos de prisão, relacionada a acusações de fraude e desacato. O Kremlin nega qualquer participação no incidente.

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