Corpos encontrados em uma rua em Bucha, cidade a noroeste de Kiev
Reprodução 04.4.2022
Corpos encontrados em uma rua em Bucha, cidade a noroeste de Kiev

Enquanto o Ocidente repudia os indícios de um massacre de civis em Bucha, nos arredores de Kiev, e a Rússia nega a responsabilidade pelas atrocidades registradas na cidade, moradores que sobreviveram à invasão militar ou conseguiram fugir antes dela, sentem luto e choram a morte de pessoas próximas.

Alguns se perguntam "Por que fizeram isso conosco?", enquanto lembram dos dias de terror no período em que as tropas do país vizinho controlaram a região. Outros defendem que as imagens de corpos espalhados pelas ruas sejam cada vez mais compartilhadas para mostrar a realidade da guerra que começou em 24 de fevereiro.

Nesta segunda-feira, o casal Ivan, 55 anos, e Helen, 50, estava limpando os vidros e fragmentos de granadas e armas em frente ao bloco de apartamentos onde mora há apenas três meses. Eles contam que fizeram isso durante toda a invasão. Das oito famílias que viveram alia, apenas os dois permaneceram no local.

"Nós arrumamos o tempo todo e varremos. Não tínhamos um porão para nos esconder de qualquer maneira. Queríamos mostrar que não estávamos com medo, não sei... Mas você vê ali aquele bloco de apartamentos alto? Bem, havia um atirador nele e ele estava com raiva por não estarmos assustados e encolhidos. Então ele disparou sobre a nossa cabeça", contou Ivan ao jornal britânico The Guardian. Ele e a mulher decidiram não revelar os sobrenomes.

Serhiy Savenko, de 43 anos, mora na cidade com a mãe, Larisa, 72. No dia 27 de fevereiro, ele contou os veículos blindados russos que passara a partir das 9h10 na frente da casa, seguindo para o sul em direção à cidade vizinha e Irpin e à capital, Kiev.

"Havia 70 veículos blindados, como tanques, e soldados russos caminhavam ao lado. Demorou cerca de 40 minutos para eles passarem por nossa casa. Eu assisti e contei. E então os ucranianos lançaram seus projéteis contra os russos", lembra.

Ao Guardian, Savenko disse que quando confronto começou, um galpão que tinha em casa foi atingido, bem como o jardim dos fundos. Os veículos militares tentaram dar meia-volta, sem sucesso. Os 30 minutos seguintes foram de "devastação".

Corpos de russos ficaram espalhados pela estrada, janelas estavam quebradas, árvores e veículos queimavam. Uma hora depois, ele conta que russos voltaram para recuperar os corpos e transformaram o jardim da família em uma trincheira.

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"Estávamos em nosso porão o tempo todo. Os russos montaram suas armas e uma fogueira no jardim da frente. Um deles desceu ao porão e nos viu. Ele disse para ficarmos quietos. Disse que ele era um cara legal, mas seus colegas nos colocariam de joelhos e atirariam em nós. Eles pegaram nossos telefones e disseram: nada de fogueiras. Como se pudéssemos mandar um sinal para alguém", lembrou Savenko.

Zinaida, de 62 anos, passou praticamente um mês presa no porão de casa. No domingo, o Exército ucraniano encontrou o corpo de seu genro na esquina da casa dela. A filha e o neto de 16 anos deixaram a cidade e, até ontem, sabiam apenas que ele estava desaparecido. Zinaida tinha um bilhete na mão. Era uma lista de itens que a filha pediu que o marido trouxesse para casa, para que a família pudesse passar dias no abrigo.

"Minha filha pediu que ele saísse do porão para pegar algumas coisas na casa de um vizinho. Aqui está o bilhete dela que estava com ele: cigarros na prateleira perto do sofá, pílulas, mantimentos, chinelos, um cobertor. Ele saiu de casa em 4 de março. Andou apenas 20 metros da casa e os russos o mataram. Sem aviso, sem motivo. Ele era um pai tão bom, seu filho o amava tanto. Como posso contar a eles?", lamentou.

O ucraniano Alex Dayrabekov escapou de Bucha quando a guerra começou, mas manteve contato com as pessoas de lá. Ele tem compartilha a situação da cidade nas redes sociais, na esperança de que o material possa usado como prova em julgamentos criminais posteriores.

"O mundo inteiro tem que ver isso. Se o mundo não souber o que está acontecendo aqui, os negócios seguem como de costume. Isso não é uma guerra, é um massacre contra nossa nação. São pessoas reais. Isso não é falso", ressaltou em entrevista à BBC.

* Com informações de agências internacionais.

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