Mc Donald's na Rússia: brasileiro diz que lanches ainda estão sendo vendidos em Kazan
Reprodução: commons - 21/03/2022
Mc Donald's na Rússia: brasileiro diz que lanches ainda estão sendo vendidos em Kazan

Poucas - e selecionadas - informações, o receio pairando no ar, e grande parte da população tentando viver como se nada estivesse fora do lugar. Esse, segundo alguns brasileiros, é o dia a dia na Rússia desde que, comandados por Vladimir Putin, soldados do país invadiram a Ucrânia.

Kevin D'arc Rocha, estudante de cinema e professor de língua russa, mora em Kazan, a 600 km de Moscou, e afirma que é possível notar que a visão sobre o que é a guerra muda conforme as gerações.

"Percebo que o povo mais velho tem uma posição mais pró-Putin. Os anos de 1990 foram muito duros, pesados, de violência, instabilidade social, e a galera que viveu isso, vê o Putin como um cara que botou ordem na coisa, então é melhor deixar ele lá, e se ele está fazendo, é necessário. Os mais jovens são bem menos fiéis, alguns a favor do [Alexey] Navalny [opositor de Putin]", conta.

"Eles não viveram outro presidente que não fosse Putin, tem uma outra opinião, são anti-guerra. Nas universidades, o discurso mais progressista seria o neutro. A maior parte das universidades apoiam, tem o 'Z', dizem que fazem isso pela paz, que é preciso apoiar os soldados. Pode ser dividido, mas não acredito que a maioria dos russos seja contra - todo mundo é contra a guerra, mas acreditam que o conflito é, de alguma forma, justificado", completa.

A fala também é comum ao advogado Renato Bassi, que foi à Rússia para estudar. Ele ganhou uma bolsa de estudos para finalizar o curso de medicina iniciado no Paraguai, e ouviu dos seus professores que as notícias veiculadas pelo Ocidente não passam de "mentiras".

"Quando questionamos meus professores sobre o que estava acontecendo, eles colocam que não é nada disso que está acontecendo, como se o Ocidente estivesse querendo manchar a imagem da Rússia, especialmente os mais velhos. Uma professora de uns 80 anos falou que era tudo mentira", diz.

"Só que a gente sabe que eles são mais conservadores, que vem de uma cultura mais soviética. O pessoal mais jovem consegue fazer essa filtragem."

Mesmo após as sanções, Rocha conta que grande parte dos serviços ditos cancelados estão funcionando em Rostov.

"Por enquanto temos tudo. Falaram que o Mc Donalds ia fechar, chegou o dia, mas o cheirinho continua lá... Está funcionando, a gente sabe. Tem filas de carros, então está funcionando, o pessoal está comprando. No 'último dia' vários carros fizeram uma fila, pessoas comprando um de cada lanche para matar a vontade, mas teve, e continua tendo. Coca cola, produtos da Rebook, da Adidas, da Nike, as lojas estão funcionando."

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A exclusão da Rússia do Swift, no entanto, teve grande impacto direto no bolso dos brasileiros, já que utilizam o sistema de transferência internacional para receber dos clientes e serviços prestados no Brasil.

"Eu estava em um restaurante e meu cartão não passou. Na hora transferi por criptomoeda para a conta russa, mas Visa e Master saíram do país. Parou novamente. Emiti um cartão de bandeira russa e consegui movimentar o dinheiro novamente. Quando a Apple saiu, fiquei sem ter como pagar contas porque não tenho cartões físicos, estava tudo na Apple Pay, aí precisei de um de emergência. Todo dia enfrentamos uma crise diferente aqui", conta Bassi.

Apesar das dificuldades, a maioria da população tenta seguir a vida, como conta o cineasta.

"Claro, ninguém está feliz com a guerra. A guerra é muito triste. Mas não tem nada de diferente, as pessoas estão vivendo normalmente, fazendo compras, indo à universidade, vivendo como se nada tivesse acontecendo porque a guerra é longe daqui. Nem os nazistas, nem napoleão chegou aqui [a 600 km de Moscou]. A guerra é uma coisa muito distante", afirma.

"Não tenho do que reclamar, não me sinto ameaçado. Por enquanto não há ameaças de segurança - obviamente tenho meu plano de fuga para voltar ao Brasil. A gota d'água seria se a Otan entrassem com forças militares, com soldados, aparato militar, aqui."

Mantendo a neutralidade

Vivendo à sombra de uma lei que pode penalizar com até 15 anos de prisão quem contar uma versão diferente da dada pelas mídias oficiais do governo sobre o conflito, os brasileiros tentam manter uma posição de neutralidade sobre a guerra, que amanhã (24) completa um mês.

"A gente evita falar o que pensa perto dos russos. Eu fui falar perto de um, quando eu vi que ia virar briga, cortei o assunto, disse que a gente era amigo, que não poderia discutir por isso, que eu era muito grato por ter sido acolhido na Rússia. E o assunto parou. A partir dali eu vi que a gente não tem liberdade para falar. E agora, promulgada uma lei de cerceamento de liberdade de expressão, corremos até risco. A gente tem receio, não estamos no nosso país, não sabemos o que vai acontecer. Evitamos até às vezes expor alguma opinião. Ficamos meio em silêncio."

** Filha da periferia que nasceu para contar histórias. Denise Bonfim é jornalista e apaixonada por futebol. No iG, escreve sobre saúde, política e cotidiano.

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