Chanceler iraniano, Hossein Amirabdollahian
Mohammadreza Abbasi / Wikimedia Commons
Chanceler iraniano, Hossein Amirabdollahian

Com as conversas sobre a retomada plena do acordo sobre o programa nuclear prestes a um desfecho aparentemente positivo, autoridades do Irã ainda aguardam respostas sobre uma mudança de posição, por parte da Rússia, que pode atrasar ou atrapalhar a iniciativa: no final de semana, o chanceler russo, Sergei Lavrov, passou a exigir um compromisso dos EUA de que as  sanções aplicadas ao país por conta da guerra da Ucrânia não seriam válidas para os negócios realizados entre Moscou e Teerã.

Oficialmente, o Irã mantém abertos os canais de diálogo com Moscou, e até agora tem evitado condenar a invasão à Ucrânia, embora aponte que os EUA e a expansão da Otan “estão na raiz” dos problemas na região. A linguagem até certo ponto ambígua também está sendo usada por lideranças iranianas ao falar das novas demandas russas.

"A cooperação nuclear pacífica não deve ser limitada ou ser afetada por sanções, inclusive a cooperação pacífica entre o Irã, Rússia e China", disse, em entrevista coletiva, Said Khatibzadeh, porta-voz da chancelaria do Irã. "A abordagem russa para que seja obtido um acordo coletivo em Viena tem sido construtiva."

Por outro lado, o chanceler, Hossein Amirabdollahian, disse que não permitiria que "elementos estrangeiros minem os interesses nacionais" do Irã, em comentários publicados pela imprensa local. Nas entrelinhas, um recado direto aos políticos russos.

Iniciadas em abril do ano passado, as negociações envolvendo Irã, Rússia, China, França, Reino Unido, Alemanha e, indiretamente, Estados Unidos, visam recolocar nos trilhos o acordo sobre o programa nuclear iraniano, assinado por esses países em 2015 e rasgado pelo presidente Donald Trump em 2018.

Pelo plano, o Irã se comprometeria com limitações às suas atividades nucleares, com sobre o grau de enriquecimento de urânio e armazenamento de material enriquecido, além de permitir inspeções mais frequentes e intrusivas. Em troca, as  sanções relacionadas a atividades no setor seriam retiradas, e o país voltaria a ter acesso aos canais usuais de comércio internacional.

O acordo funcionou até 2018, quando Trump o abandonou de forma unilateral e endureceu a política de sanções, virtualmente impondo um bloqueio econômico a Teerã que, por sua vez, deixou de observar seus compromissos junto ao texto. Aliada a questões regionais, a decisão de Trump contribuiu para a deterioração da segurança coletiva no Oriente Médio.

Desde abril do ano passado, com Joe Biden na Casa Branca, todas as nações envolvidas retomaram as negociações, em Viena, para que o plano voltasse a funcionar — segundo diplomatas, um desfecho positivo era aguardado já para os próximos dias, mas a demanda russa, diretamente relacionada à guerra na Ucrânia, pode colocar um freio no otimismo.

"Foi reforçado que a retomada do Jcpoa [sigla em inglês para o nome oficial do acordo] precisa fornecer a todos os participantes direitos iguais em relação ao desenvolvimento da cooperação em todas as áreas, sem discriminação", afirmou Lavrov, durante conversa com Hossein Amirabdollahian, nesta segunda-feira, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores russo.

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Em entrevista à agência Tasnim , o embaixador da Rússia em Teerã, Levan Jagaryan, afirmou que as declarações de Lavrov no sábado foram “mal compreendidas”, e que Moscou daria as explicações necessárias “através dos canais diplomáticos”.

"Vamos oficialmente explicar a questão a nossos amigos iranianos", disse Jagaryan.

Hoje, Rússia e Irã possuem parcerias na manutenção e operação de centrais como a de Bushehr, e recentemente os russos foram beneficiados pela decisão dos EUA de emitir permissões para que empresas do país pudessem retomar  atividades nucleares pacíficas em solo iraniano. Sem essas permissões, elas poderiam estar sujeitas às chamadas "sanções secundárias", que impedem transações envolvendo empresas e instituições baseadas nos EUA.

Na entrevista coletiva, Khatibzadeh disse que ainda espera os esclarecimentos por parte da Rússia sobre a mudança de posição nas conversas — ouvido pela Reuters, um integrante da Presidência francesa disse que Moscou precisa entender que o que está na mesa em Viena são os compromissos do Irã com o acordo nuclear, uma vez que, para ele, a iniciativa russa não seria diplomacia, mas sim "chantagem". No fim de semana, o Departamento de Estado dos EUA sinalizou que as sanções relacionadas à Ucrânia não iriam interferir no acordo nuclear.


Ainda sobre os EUA, ainda não há sinais de que Washington pretenda cumprir uma das principais exigências iranianas nas conversas: uma garantia de que os americanos não vão mais deixar o acordo, como o fez Trump há quatro anos. A Casa Branca não se comprometeu com tal iniciativa, e ela tampouco agrada no Congresso, onde parlamentares dos dois partidos já declararam oficialmente que rejeitam a ideia.

“A possibilidade de chegar a um acordo em Viena não é clara devido à demora de Washington em tomar uma decisão política. A prioridade dos negociadores iranianos é resolver as questões restantes que são consideradas linhas vermelhas para o Irã”, disse no Twitter Ali Shamkhani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional. “Chegar a um acordo firme requer novas iniciativas de todas as partes.”

— Com informações de agências internacionais

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