Carro sendo abastecido
Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas
Carro sendo abastecido


Uma corrida por combustível nos últimos dias agravou ainda mais a escassez do produto no Reino Unido, o que levou o governo a cogitar recorrer ao Exército para amenizar a falta de caminhoneiros. Durante o fim de semana, foram registradas longas filas em vários postos de gasolina, especialmente nas grandes cidades e na capital, Londres.

O aumento da demanda por gasolina levou a a Associação de Postos de Gasolina do Reino Unido (PRA) a advertir que até dois terços de seus membros, o equivalente a quase 5.500 postos de gasolina independentes do total de 8 mil no país, tinham pouca quantidade de combustível no domingo. Os demais estavam "quase sem nada".

Nesta segunda-feira, quase 30% dos postos do grupo BP ainda eram afetados pela escassez. Nos últimos dias, apesar das tentativas do governo de tranquilizar a população, muitos cidadãos correram para os postos de gasolina. Ao observar a falta de alguns alimentos nos mercados, temeram pela falta de combustível.

"Um dos nossos membros recebeu um carregamento ao meio-dia e, no fim da tarde, já havia acabado completamente", disse à rede BBC Brian Madderson, presidente da PRA.

A situação lembra a década de 1970, quando a crise energética provocou o racionamento de combustível e a redução da semana de trabalho para três dias. Há quase 10 anos, as manifestações contra o preço elevado da gasolina também provocaram um bloqueio das refinarias e paralisaram as atividades no país durante semanas.

A escassez se deve, sobretudo, à falta de motoristas. A situação levou o governo britânico a alterar, no sábado, a política de imigração pós-Brexit e conceder até 10.500 vistos de trabalho provisórios, de três meses. As permissões devem atenuar a falta de caminhoneiros e de profissionais em setores cruciais da economia britânica, como a criação de aves.


Na Alemanha, o candidato a chanceler do Partido Social-Democrata (SPD), Olaf Scholz, que teve uma vitória apertada na eleição de domingo, foi questionado sobre a crise.  A pergunta, feita por um repórter britânico em uma entrevista coletiva de Scholz, foi recebida com risos. Em um inglês fluente, o social-democrata lembrou aos britânicos que seus problemas também são consequência do Brexit.

"A livre circulação de mão-de-obra faz parte da União Europeia (UE). Trabalhamos muito para convencer os ingleses a não deixarem a UE. Eles decidiram diferente e espero que administrem os problemas decorrentes disso", respondeu ele, lembrando que a "a questão dos salários" e das "condições de trabalho" também poderiam ter tornado o setor de transporte de carga menos atraente.

Vazamento de relatório
Em um comunicado divulgado no domingo, o ministro de Empresas e Energia, Kwasi Kwarteng, anunciou a isenção temporária para o setor das distribuidoras de combustíveis das regras da concorrência, para que possam abastecer, prioritariamente, as áreas mais necessitadas.

O tabloide The Sun cita o exemplo de uma enfermeira que precisou percorrer três postos de gasolina e esperou por muito tempo.

"Agora vou me atrasar para visitar os pacientes, que precisam da minha ajuda para suas refeições e medicamentos", declarou a profissional da saúde ao jornal, sem conter as lágrimas.

Em entrevista ao canal Sky News, o presidente da PRA atribuiu o movimento de pânico ao "vazamento de um relatório confidencial da empresa BP durante uma reunião do governo". O documento foi divulgado na quarta-feira e acompanhado por "compras motivadas pelo pânico na quinta-feira, sexta-feira, sábado e ontem", completou.

De acordo com a imprensa britânica, o governo contempla recorrer ao Exército, no curto prazo, para enfrentar a escassez. Ao ser questionado sobre se medida vai conseguir melhorar a situação, Madderson respondeu com cautela.

"Não é tão fácil como se pensa, pois os caminhoneiros são muito especializados e o os caminhões-tanque transportam um líquido muito inflamável por todo país, algo que exige procedimentos adequados de carga e descarga".

Ele ressaltou que, devido à pandemia da Covid-19, muitas pessoas não conseguiram tirar a carteira de motorista para caminhão e que a escassez de caminhoneiros afeta a Europa continental. O presidente da PRA disse esperar, no entanto, que o problema seja resolvido, pelo menos em parte, até o fim de semana.

*Com agências internacionais

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