Eleições EUA
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Embate entre Biden e Trump pode definir os rumos de diversos temas nos próximos anos

‘Uma República, se puderem mantê-la.’ Com tais palavras, Benjamin Franklin definia, ao final da Convenção da Filadélfia, o sistema de governo criado pela Constituição escrita naquelas semanas de 1787 — que resultaria, nas 23 décadas seguintes, na democracia mais longeva, mais próspera e mais bem-sucedida do planeta. Nunca a manutenção daquela República esteve tão em xeque quanto na eleição de hoje, transformada numa espécie de plebiscito em que os americanos escolherão se ficam com Donald Trump no poder ou o trocarão pelo democrata Joe Biden .

O comparecimento promete ser recorde. Pelo menos  98 milhões, ou 71% do eleitorado de 2016, já haviam votado pelo correio ou pessoalmente até ontem. No Texas, um dos estados mais disputados, a votação antecipada já superava a de quatro anos atrás na última sexta-feira. Num país onde o voto é facultativo, tamanho engajamento em plena pandemia dá uma dimensão do que está em jogo.

Uma vitória de Trump traria não apenas uma surpresa maior do que quando ele desafiou todas as previsões e derrotou Hillary Clinton. Não é exagero afirmar que seria a maior ameaça já vista àquele sistema descrito por Franklin. A reeleição de um presidente cujo comportamento nada republicano guarda ecos dos monarcas e autocratas lançaria o país, nas palavras do analista Michael Hirsh, “como mais um dejeto na pilha de cinzas das repúblicas fracassadas que se estende à Grécia e Roma antigas”. Os Estados Unidos se tornariam, segundo o cientista político Eliot Cohen, “não um estado fracassado, mas uma visão fracassada, uma potência em declínio cujo tempo passou”.

Quem quer que vença —pode levar semanas até sabermos —, as feridas permanecerão abertas num país rachado ao meio, onde o fantasma da secessão continua a assombrar. Além do terremoto interno, o resultado repercutirá em todo o planeta. O isolacionismo de Trump fez recrudescerem o risco climático, a proliferação nuclear, as disputas comerciais. Um segundo mandato traria um divórcio mais duradouro dos europeus, um conflito mais acirrado com os chineses e uma influência mais abrangente de atores perniciosos como Rússia ou Irã.

Uma vitória de Biden , em contrapartida, representaria o retorno dos Estados Unidos ao acordo climático de Paris, novos compromissos nucleares com a Rússia e outro tipo de relação com a China (embora seja improvável a ressurreição do tratado do Pacífico, firmado por Barack Obama para contrabalançar o poderio chinês). Também haveria outra atitude diante da pandemia, da ciência, da imprensa, dos organismos multilaterais e acordos comerciais.

Para o Brasil , Trump ou Biden teriam significados obviamente distintos. O primeiro permitiria a Jair Bolsonaro manter sua ilusão de uma “relação especial” com os Estados Unidos. Persistiria a pressão para o afastamento da China, em particular no leilão da telefonia celular de quinta geração (5G). O segundo não seria essencialmente diferente na disputa com os chineses, mas exerceria pressão maior em nossos pontos frágeis, como meio ambiente ou direitos humanos. Biden, se o confronto com Bolsonaro crescer, aproximaria o Brasil da posição de “pária internacional” aventada outro dia pelo chanceler Ernesto Araújo.

Ou, se prevalecer o bom senso e o Brasil se mantiver na órbita americana sem alienar os chineses, o próprio Biden poderia acelerar conquistas como a entrada na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico ( OCDE ), reforçar parcerias científicas e comerciais firmadas recentemente — cuja meta, ainda que improvável, é um acordo de livre-comércio — ou até fazer renascer a promessa do assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Tudo depende de quão desanuviado estiver o cenário global.

Nesse ponto, as perspectivas não são exatamente promissoras. Se Trump transformou o outrora partido de Ronald Reagan naquele em que o vice Mike Pence defende tarifas e a guerra comercial, Biden também não teria como retomar o ímpeto da globalização anterior ao trumpismo. As resistências ao livre-comércio são crescentes em seu próprio partido. Por mais caricato que pareça, o isolacionismo de Trump não é gratuito. Corresponde a uma tendência presente na sociedade americana desde Franklin, que volta e meia ressurge.

O que certamente mudaria com Biden seria o estilo. Seu perfil conciliador e seu talento político trariam vantagens evidentes na missão de pacificar os hoje “estados desunidos”. Biden também representaria uma inflexão no avanço das lideranças que, como Trump ou Bolsonaro, vicejam no solo infestado pelas ervas daninhas da polarização, do populismo e do autoritarismo.

Trump surgiu não como político, mas como figura midiática, estrela de reality show que se projetou graças a uma campanha mentirosa nas redes sociais contra Obama . Explorou a fratura da sociedade americana, a propaganda digital, as deficiências de um sistema eleitoral tão vulnerável quanto convoluto e um talento singular de comunicador para provocar o terremoto que ainda chacoalha as instituições republicanas do país. Dado seu narcisismo e seu espírito infantil, é incerto como reagiria a uma derrota. O certo é que, nessa hipótese, não será suave a transmissão do poder — nem se sabe que tipo de república sobreviverá para os americanos manterem.

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