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Partidos de oposição conseguiram mais de 50% dos votos juntos no 1º turno e podem tirar Frente Ampla do poder depois de 15 anos

Daniel Martínez no meio de apoiadores arrow-options
Reprodução/Twitter
Candidato da Frente Ampla, Daniel Martínez foi para o segundo turno

O candidato à Presidência do Uruguai da Frente Ampla, coalizão de esquerda que governa o país desde 2005, enfrenta um desafio árduo para reconquistar pelo menos parte da maioria dos eleitores que apoiaram candidatos de direita na eleição de domingo, antes do segundo turno em 24 de novembro.

Daniel Martínez, da Frente Ampla, mesmo partido de José “Pepe” Mujica e do atual presidente Tabaré Vázquez, no poder, conqustou 39,2% dos votos, contra 28,6% de Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional ou Blanco, de centro-direita. Lacalle Pou, contudo, já recebeu o apoio declarado de Ernesto Talvi, do liberal Partido Colorado, que teve 12,3% dos votos, e de Guido Manini Rios, do direitista Cabildo Aberto, que teve 10,9%. Juntas, as três forças superam a situação no segundo turno.

Martínez, ex-prefeito de Montevidéu, de 62 anos, terá que recuperar uma parcela significativa dos quase 9% dos eleitores que apoiaram a Frente Ampla nas eleições de 2014, mas votaram na oposição desta vez, disse Mariana Pomies, diretora do instituto de pesquisa Cifra.

"Sua estratégia será capturar eleitores que não pertencem ao Partido Nacional e que não estão em sintonia ou não têm afinidade ideológica com Lacalle Pou", disse ela em entrevista à Bloomberg.

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Martínez fez exatamente isso em um discurso no domingo à noite destinado não apenas aos fiéis da Frente Ampla, mas também àqueles que votaram no Partido Nacional e no Partido Colorado — o Cabildo Aberto, grupo formado em 2019, é de perfil muito conservador, e a missão de atrair seus simpatizantes é mais difícil. Ele evitou antagonizar excessivamente com Lacalle Pou, mas fez um chamado para que os uruguaios não deem à oposição um "cheque em branco" para a implementação de austeridade, como prometeu seu adversário.

"Dou meus parabéns ao meu oponente no segundo turno", disse Martínez a jornalistas, que mais tarde afirmou no Twitter que continuará "fazendo todo o possível para garantir estabilidade e certeza. O Uruguai precisa continuar crescendo, distribuindo riqueza e sendo uma nação de justiça".

Lacalle Pou, enquanto isso, tem apresentado a sua coalizão como uma "frente multicolorida, liderada pelo Partido Nacional", na qual há um grande "terreno fértil" para acordos com outras partes.

"Uma alternância de poder era iminente", disse Lacalle Pou em um discurso que fechou a noite das eleições. "Aquele que vem para destruir, que vem para desunir, não será capaz de construir", acrescentou, em referência à falta de alianças para o partido governista.

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A possível virada para a direita no Uruguai se relaciona a um aumento do descontentamento dos eleitores devido a uma economia estagnada, a um aumento do desemprego e do crime e à possibilidade de uma recessão.

A Frente Ampla também perdeu a maioria que detinha nas duas casas do Congresso. O novo Senado terá na próxima legislatura 13 representantes da Frente Ampla, 10 do Partido Nacional, quatro do Partido Colorado e três do Cabildo Aberto. Na Câmara dos Deputados, a Frente Ampla terá 42 assentos, os blancos 30, os colorados, 13 e o Cabildo Aberto, 11, além de três representantes de partidos menores.

Estes resultados significam que, se Martínez vencer o segundo turno, ele se tornará o primeiro presidente da Frente Ampla que terá que negociar apoio parlamentar com a oposição desde que o partido assumiu o controle da Presidência e do Congresso em 2005.

Por outro lado, o plebiscito "Viver sem medo", proposto por um senador do Partido Nacional que, entre outros, reinstituiria a pena de morte, não atingiu 50% mais um dos votos necessários para a aprovação e, com 46% de apoio (1.120.780 votos), foi rejeitado.

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A Frente Ampla ainda desfruta de grande apoio graças aos gastos pesados em programas sociais, pensões e a uma grande expansão nas folhas de pagamento do governo. No entanto, os indicadores invejáveis de redução da pobreza e  da desigualdade resultaram em elevados déficits, que podem ameaçar o acesso do Uruguai a crédito barato se o próximo governo não pôr as finanças públicas em ordem.

Martinez prometeu reduzir o déficit e treinar pelo menos 400 mil pessoas para trabalhar em setores de rápido crescimento, como tecnologia da informação e silvicultura, que terão o apoio do governo sob sua Presidência.

Já Lacalle Pou, de 46 anos, filho de um ex-presidente, fez campanha com a promessas de reiniciar a economia cortando o déficit, eliminando gastos governamentais desnecessários e reduzindo os preços dos combustíveis.

Em busca dos eleitores perdidos

Para o cientista político Eduardo Bottinelli o "primeiro desafio (do partido no poder) é encantar as pessoas que já votaram na Frente Ampla e não votaram agora".

"Precisam recapturar aqueles [que se foram] ou qualquer outro eleitor da oposição", afirmou, em referência à queda de oito pontos percentuais do voto na Frente Ampla em relação às eleições de 2014. "Martínez precisa mudar agora, hoje, ele precisa mudar claramente para um discurso claro e também buscar uma identificação das pessoas com os avanços da Frente Ampla."

Botinelli acrescentou que hoje a população já não receia “perder o que já tem se a oposição vencer”, o que impõe a necessidade da situação “oferecer argumentos” para conquistar votos.

O cientista político da Universidade da República Diego Luján concordou que, para Martínez, o desafio é "incorporar eleitores que claramente não o apoiaram no primeiro turno" e, para isso, ele pode se voltar para o centro.

Luján ressalta que essa opção tornaria a Frente Ampla "mais competitiva" para o segundo turno", mas teria o custo em longo prazo de desfocar ideológica e programaticamente um partido que teve “consistência e coerência ideológica ao longo de seus 40 anos de vida".