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População nas ruas protestando contra aumento de tarifas de transportes lembra o que aconteceu no Brasil em 2013; caso chileno, porém, pode reacender gana dos brasileiros de lutar por melhores condições

Manifestantes tomam as ruas da capital chilena em novo protesto arrow-options
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Manifestantes tomam as ruas da capital chilena em novo protesto



O Chile está paralisado. Os protestos se niciaram na última sexta-feira (18) com a revolta do movimento estudantil diante do aumento da passagem do metrô - que subiu de 800 para 830 pesos (aumento de cerca de R$ 0,17). O acontecimento foi o estopim para diversas reivindicações, que contemplam acesso à saúde, educação, aposentadorias, sistemas de capitalização e uma sociedade mais justa.

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Chile espera um canal de diálogo entre o governo e os manifestantes, que coloque em pauta acordos nacionais, políticos e institucionais, incluindo até mesmo a possibilidade de uma nova Constituição.

"Efeito contágio"

Passe Livre em 2013 arrow-options
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Protestos contra o aumento das tarifas de metrô em ônibus explodiram no Brasil em 2013


Uma onda de manifestações assola a América Latina. Especialistas afirmam que o que aconteceu no Equador e o que tá acontecendo no Chile pode acontecer no Uruguai - onde existe uma insatisfação social crescente - no Peru, Venezuela, Brasil ou Argentina.

Existe um aumento generalizado da pobreza no mundo - que segundo a CEPAL, passou a se intensificar novamente em 2014 - além da forte onda de insatisfação com os governos. A média de popularidade dos presidentes latino americanos é hoje de 30%. Há 10 anos, esse número representava o mínimo de insatisfação. Além disso, a impopularidade dos governos está crescendo de forma muito acentuada em pouco tempo de mandato, o que elenca a América Latina em uma crise delicada. 

O aumento do preço das passagens e o fato de não ter sido organizada por partidos políticos, nem por forças institucionais, traça paralelos das atuais manifestações chilenas com os protestos de 2013 no Brasil, que reivindicou preço das passagens.

Para Amâncio de Oliveira, Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, tanto as manifestações que assolaram o Brasil em 2013,  quanto a paralisação dos caminhoneiros, em 2018, são exemplos de situações que "chegam no limite de teste  da insatisfação, tanto da democracia quanto de reformas liberalizantes".

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Segundo ele, existe a possibilidade de haver um "efeito contágio" no Brasil e em outros países latinoamericanos. "O próprio governo [brasileiro] tem essa preocupação. Tudo depende de disparos, exemplos que possam arrebanhar as mobilizações". 

A saída do ex-presidente Lula da prisão, por exemplo, poderia gerar movimentos populares contra e a favor.  "O ex-presidente Lula pode começar a reaglutinar as forças populares, e na medida em que você tem forças de aglutinação neste campo, você pode ter forças de reaglutinação também no campo bolsonarista. Então eu acho que pode haver uma estalada, dependendo de como os agentes políticos vão se comportar, mas que esse é um fenômeno que pode gerar aglutinação de um lado e de outro, isso realmente tem potencial. Se vai acontecer ou não é outra história", conclui.

"Penso que, o que aconteceu no Chile é uma lição e um aviso para a América Latina e o mundo. O foco no crescimento econômico não é suficiente a todo custo sem uma visão de equidade e previdência social - que deveria estar em primeiro lugar", enfatiza a jornalista chilena Ana Arriagada.

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Por dentro dos protestos

Os protestos que ascenderam sob o lema “Evitar, não pagar, outra maneira de lutar!”, foram, para aAna Arriagada, "apenas o gatilho para uma ruptura definitiva entre a elite política e os cidadãos. A origem da insatisfação [pela qual a população vai as ruas] são 30 anos de abuso e impunidade política e comercial".

Para a cofundadora do El Soberano - um canal de notícias independente  - os protestos são fruto de uma mobilização apartidária, já que, segundo ela, "os partidos políticos hoje não têm capacidade para mobilizar todas as pessoas" que foram as ruas.

Por que em um dos países mais ricos e estáveis da América Latina?

Nem bons números econômicos garante tranquilidade a Sebastián Piñera arrow-options
VANESSA CARVALHO
Nem bons números econômicos garante tranquilidade a Sebastián Piñera


O país com maior IDH da América Latina, renda per capita maior que a brasileira, de crescente economia se viu tomado por protestos que resultaram em episódios de violência, mortes, saques e incêndios. 

Pela primeira vez, desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1990), militares foram chamados para patrulhar as ruas de Santiago, capital chilena. O fato é que desde então, o país enfrenta problemas de desigualdades sociais que ocasionalmente explodem. 

Segundo dados da última edição do relatório Panorama Social da América Latina (2017), realizado anualmente pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), 1% da população chilena mantém 26,5% da riqueza do país, enquanto enquanto 50% das famílias de baixa renda detêm 2,1% da riqueza líquida.

Para Arriagada, apenas a sociedade civil organizada pode avançar com um novo pacto social de que o país precisa. "Nossa Constituição atual foi elaborada em uma ditadura entre quatro paredes para beneficiar os 140 empresários que hoje concentram 18,1% da 'riqueza privada' do país. Os verdadeiros donos do Chile", afirma.

O salário mínimo no Chile representa 301 mil pesos (cerca de R$ 1.715,70). De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística do país, metade dos trabalhadores recebe um salário igual ou inferior a 400 mil pesos (R$ 2.280) ao mês.

Em outras palavras, uma família de baixa renda pode gastar quase 30% de seu salário no transporte público, enquanto, no nível socioeconômico mais rico, o percentual de gastos nesse setor pode ser inferior a 2%.

"O Chile tem uma renda per capita alta e é um país menos desigual que o Brasil, mas de todo modo, a conta das reformas - tanto de previdência quanto as reformas no sistema de ensino, e nesse caso, a questão do aumento das passagens - colocam a pressão nas camadas menos favorecidas da população", afirma Amâncio de Oliveira, Professor do Instituto de Relações Internacionais da USP.

Violência bate à porta



O governo recuou do reajuste da passagem de metrô, mas não conteve a onda de saques e incêndios. Hoje a população protesta contra a desigualdade, aumento do custo de vida, aposentadorias baixas e falta de acesso a serviços de saúde e educação.

O maior conflito social do Chile desde a redemocratização do país, em 1990, obrigou o governo a recorrer às forças armadas e determinar toque de recolher em Santiago, Valparaíso e Concepción. 

Sebastián Piñera, atual presidente do Chile, tem apostado na militarização do país e em uma forma de repressão violenta contra os manifestantes. “Estamos em guerra contra um inimigo violento” - disse sem identificar ou dar nome ao inimigo. 

Setores da oposição e do governo indicam que o presidente se refere a grupos terroristas e que isso seja uma estratégia para justificar repressão violenta aos manifestantes. Para Arriagada, a fala do presidente foi uma "estratégia para instilar o pânico na população e dividi-la, bem como para justificar a repressão militar e policial que se aproximava", afirmou.

Além da violência física, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (NHRI) confirmou a existência de nove queixas de violência sexual durante as detenções de manifestantes. Todas elas relacionadas a ameaças de estupro e toque. 

"O NHRI indicou que cinco correspondem a vítimas do sexo feminino que relataram nudez e a obrigação de realizar agachamentos nus. Uma das queixas foi registrada por um menor, que foi forçado a ver seu tio fazendo agachamentos nus na frente de seu sobrinho. E duas das queixas são sobre ameaças de estupro e toques, uma pela polícia e outra pelos militares", relatou a jornalista.

Do aumento nas passagens de metrô à uma nova constituição

O aumento das passagens do metrô, assim como o aumento dos combustíveis, levou a população a uma reação vertiginosa. O Metrô de Santiago transporta mais de 1 milhão de pessoas por dia, numa cidade que tem 7 milhões.

Entretanto, a revolta social adquiriu uma dimensão inesperada. Hoje os chilenos clamam por um diálogo conciso sobre o modelo econômico e social, profundamente desigual que impera no Chile, inclusive exigindo uma  nova constituição federal, para que possam enterrar a herdada de Pinochet.

Um grande exemplo é a educação chilena. Boa parte das universidades são controladas pelo setor privado. Aspectos como a  água no Chile, que é privada, e  monopolizada por grandes empresários agrícolas "à custa da população" e as baixas aposentadorias - sistema de capitalização individual imposto na ditadura - que "até agora, provou ser um desastre completo para os idosos", são outros motivos de reivindicações apontadas pela jornalista.

As manifestações deixaram claro o mal-estar social existente e a percepção de que uma grande parte da população chilena se viu deixada para trás pelas autoridades e não aproveitou o grande crescimento econômico vivenciado pelo país nas últimas décadas.