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Cerca de mil militares americanos vão deixar região enquanto parentes de jihadistas fogem de campo; curdos consideram decisão uma traição

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Divulgação
Ofensiva turca começou após aval de Trump

O governo dos Estados Unidos vai retirar mais mil soldados americanos do Norte da Síria, onde as tropas turcas fazem uma ofensiva contra os militantes curdos para estabelecer uma "zona de segurança" ao longo da fronteira. O anúncio foi feito este domingo pelo secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, enquanto as forças da Turquia ampliam os ataques, aumentando a área que Ancara tinha dado a entender que ocuparia com a operação.

A ofensiva turca começou na quarta-feira, dias após o presidente americano, Donald Trump, dar o sinal verde numa conversa telefônica com seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, na qual prometeu a retirada das tropas dos EUA na região, que impediam ataques aos curdos. Inicialmente, Washington anunciou que apenas algumas dezenas de militares deixariam a região, mas o número foi aumentando neste domingo pelo Pentágono.

Uma das razões alegadas por Esper foi que as Forças Democráticas Sírias (FDS), grupo curdo aliado dos EUA contra o Estado Islâmico (EI) que é alvo da ofensiva turca, estaria prestes a fazer um acordo com os governos da Síria e da Rússia para tentar conter os ataques das forças de Erdogan. Segundo o secretário Esper declarou em entrevista à CBS, a situação paras as tropas americanas na área está "insustentável".

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A decisão de Trump foi vista como uma traição pelos curdos, desde 2015 os principais aliados dos EUA na luta contra o Estado Islâmico (EI), que resultou no fim do califado do grupo extremista na Síria. Mesmo aliados de Trump no Partido Republicano criticaram ferozmente o presidente, que alegou estar na hora de os governos da região cuidarem de seus problemas. Diante da repercussão negativa, Trump passou a ameaçar a Turquia de retaliação se Ancara passasse dos limites, sem no entanto deixar claro qual seria a linha vermelha.

A Turquia alega querer criar uma "zona de segurança" na fronteira para instalar um milhão dos 3,6 milhões de refugiados sírios que fugiram para seu território após o início da guerra civil no país vizinho, em 2011. Erdogan ameaça enviar os refugiados à Europa se os países do continente não apoiarem sua incursão na Síria.

Outro objetivo de Ancara é impedir os curdos, que controlam uma região semiautônoma no Norte da Síria, de formarem um Estado independente. O governo turco considera terroristas as Unidades de Proteção do Povo (YPG) por seus vínculos com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que desde 1984 luta contra Ancara para estabelecer um Estado curdo independente no Leste da Turquia. As YPG são a principal tropa das FDS, que são a base da autonomia curda.

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"Não vamos permitir o estabelecimento de um Estado terrorista no Norte da Síria", disse Erdogan em entrevista coletiva neste domingo. "Não temos interesse em terras de outros países, entretanto, outros que estejam com os olhos em nossas terras, não podemos fechar os nossos olhos, não temos o luxo de mostrar misericórdia."

Na frente militar, Erdogan disse que as tropas turcas e seus aliados de grupos rebeldes sírios pró-Ancara tomaram as cidades de Ras Al Ain e Tel Abyad. Segundo o presidente turco, suas forças cortaram ao meio a rodovia M4, a principal que liga as regiões leste e oeste da zona curda do Norte da Síria, isolando a cidade de Kobani. Erdogan disse que o Exército turco vai penetrar entre 30 e 34 quilômetros dentro de território sírio, dando a entender que a Turquia vai ampliar a "zona de segurança" de 20km de largura ao longo da fronteira, como indicado no início da operação.

Neste domingo, também foi anunciado pelas autoridades curdas que houve uma fuga de parentes de terroristas do EI do campo de Ain Issa, durante um ataque turco nas imediações. Os detalhes da fuga ainda não estão claros nem o número total de pessoas que escaparam — as autoridades curdas falam em quase 800, enquanto um grupo de monitoramento aponta cerca de 100.