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Evidências apontam que presidente condicionou apoio à Ucrânia a investigação contra Joe Biden, um forte adversário político dele em 2021

Trump com feição séria arrow-options
Divulgação
Trump é acusado de usar influência política para forçar investigação contra Biden

As acusações de que  Donald Trump  se valeu do cargo de presidente dos  Estados Unidos  para pressionar a  Ucrânia  a investigar o seu rival e pré-candidato democrata  Joe Biden  ganharam novo fôlego nesta sexta-feira (4), com o depoimento na véspera da primeira testemunha do caso a três comissões do Congresso .

Mensagens de texto trocadas entre diplomatas americanos mostram que um importante encontro entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelesnky ,  foi condicionado pelos americanos a uma declaração pública do líder ucraniano afirmando que investigaria uma empresa de gás onde trabalhou o filho de Biden, Hunter Biden , e uma suposta interferência da Ucrânia na eleição de 2016 para favorecer democratas.

Até então, sabia-se que, em um telefonema de 25 de julho, Trump tinha pedido “um favor” a Zelesnky, quando disse para o líder ucraniano articular-se com o secretário de Justiça americano, William Barr, e com o advogado pessoal de Trump, Rudolph Giuliani, para investigar o filho de Biden, que trabalhava em uma empresa de petróleo da Ucrânia quando o pai era vice-presidente.

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As mensagens mostram que três diplomatas de alto nível do Departamento de Estado várias vezes afirmaram diretamente ao assessor mais próximo do presidente da Ucrânia que uma visita oficial de Zelensky à Casa Branca dependia de uma promessa pública de investigar a empresa onde o filho do pré-candidato democrata à eleição de 2020 trabalhou na Ucrânia e a eleição americana de 2016.

As mensagens de texto não mencionam Biden pelo nome, mas democratas que lideram a investigação de impeachment afirmam que os textos são uma evidência clara de que Trump condicionou as relações com a Ucrânia a uma investigação política contra um rival, de acordo com um comunicado divulgado na noite de quinta-feira.

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Os textos foram entregues pelo ex-representante especial de Trump para as negociações na Ucrânia, Kurt Volker, que, na quinta-feira, testemunhou por mais de nove horas às comissões de Relações Exteriores, Supervisão e Inteligência, que conduzem as investigações que podem conduzir ao impeachment do presidente. Volker renunciou na semana passada depois de ter sido citado na denúncia sobre a conversa telefônica entre Trump e Zelensky.

Algumas das novidades mais importantes descobertas:

1) A visita de Zelensky à Casa Branca ficou vinculada a uma declaração pública sobre a Rússia e Biden

“Ouvimos falar da Casa Branca — supondo que o presidente Z convença Trump que ele investigará / chegará até o fundo do que aconteceu em 2016, definiremos a data da visita a Washington”, disse Volker a Andrey Yermak, assessor imediato de Zelensky, em 25 de julho de 2015, poucas horas antes de Trump e o presidente ucraniano se falarem pelo telefone. As partes nunca chegaram a marcar uma data para a visita, assim como a Ucrânia nunca declarou oficialmente que investigaria Biden.

2) Diplomatas vincularam a suspensão da ajuda à campanha política de Trump

Dias antes do telefonema, Trump congelou uma ajuda militar de US$ 391 milhões à Ucrânia. William Taylor, embaixador interino em Kiev, vinculou a suspensão da ajuda à exigência de Trump de uma investigação sobre Biden. "Estamos dizendo agora que a ajuda para a segurança e a reunião da Casa Branca estão condicionadas às investigações?", ele perguntou ao embaixador americano na União Europeia, Gordon Sondland, em uma mensagem de texto de 1º de setembro. Em resposta, ouviu de Sondland, um aliado de Trump, que ele preferia falar por telefone.

No dia seguinte, em outra mensagem, Taylor reiterou a suspeita. "Como eu disse no telefone, acho uma loucura reter assistência de segurança para obter ajuda em uma campanha política."

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3) Rudolph Giuliani participou diretamente

As mensagens mostram a participação direta de Rudolph Giuliani, tendo sido um dos proponentes do telefonema, em 19 de julho. Na véspera, ele ouviu de Volker que suas suspeitas sobre Biden e o filho eram infundadas, afirmou o diplomata em seu depoimento.

Em 2 de agosto, uma semana após o telefonema, Giuliani se encontrou em Madri com Yermak e disse que o presidente ucraniano deveria emitir uma declaração comprometendo-se a combater a corrupção.

4) Os EUA chegaram a fazer uma declaração para a Ucrânia

Volker chegou a escrever uma declaração em um tom e com conteúdo que satisfaria Giuliani, entusiasta da tese de que a Ucrânia deveria investigar Biden, e a enviou a Yermak.

"Atenção especial deve ser dada ao problema de interferência nos processos políticos dos Estados Unidos, especialmente com o suposto envolvimento de alguns políticos ucranianos", dizia a declaração. “Pretendemos iniciar e concluir uma investigação transparente e imparcial de todos os fatos e episódios disponíveis, incluindo aqueles que envolvem a Burisma e as eleições de 2016 nos EUA”. A Burisma é a empresa onde trabalhava o filho de Biden.

5) A Ucrânia se sentiu pressionada

Embora o presidente da Ucrânia tenha dito no dia 25 de setembro, em entrevista coletiva ao lado de Trump em Nova York, que nunca se sentiu pressionado pelo americano, as mensagens deixam claro que os ucranianos tinham receio de serem arrastados para a política doméstica americana.

"O presidente Zelenskyy tem a preocupação de que a Ucrânia seja levada a sério, não apenas como um instrumento na política de e na reeleição doméstica de Washington", escreveu William Taylor, o principal diplomata americano em Kiev, no dia 20 de julho.

A Ucrânia também disse que divulgaria a sua declaração comprometendo-se com as investigações desejadas por Trump só depois que a visita à Casa Branca fosse oficialmente agendada.

"Quando tivermos uma data, pediremos uma entrevista coletiva, anunciando a próxima visita e delineando a visão para o reinício do relacionamento EUA-Ucrânia, incluindo, entre outras coisas, a Burisma e interferência nas eleições nas investigações", escreveu Yermak.