Tamanho do texto

Divisão da esquerda e abstenção de Podemos impede confirmação do premier interino; nova votação deve acontecer na quinta-feira (25)

Pedro Sánchez arrow-options
Reuters
Pedro Sánchez não conseguiu fazer alianças para formar um governo

A possibilidade de um governo de coligação de esquerda na Espanha, formada pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e a aliaça Unidas Podemosficou mais remota nesta terça-feira. Com a astenção do Podemos, o socialista Pedro Sánchez não alcançou a maioria absoluta necessária para ter seu nome confirmado como primeiro-ministro espanhol. Na votação, o líder do PSOE recebeu 124 votos favoráveis contra 170 contrários e 52 abstenções. Na próxima quinta-feira, o Parlamento votará novamente mas, desta vez, Sanchéz só precisará de uma maioria simples para formar governo.

Leia também: Bolsonaro parabeniza Boris Johnson por eleição: "Conte com o Brasil"

Um dia antes, as divergências entre as duas legendas ficaram claras com o duro confronto entre Pedro Sánchez  e o líder do Podemos, Pablo Iglesias . Iglesias exigia as pastas de Finanças, Trabalho, Igualdade, Habitação, Transição Ecológica e Ciência. O PSOE, em resposta, ofereceu ao partido o cargo de vice-primeiro-ministro para a área social, que seria entregue à vice-presidente e porta-voz do Podemos no Congresso, Irene Montero, mulher de Iglesias.

"Não estamos dispostos a estar num governo como mera decoração", disse Iglesias, na tribuna de oradores do Congresso, na segunda-feira; "Não vamos permitir que nos pisem ou nos humilhem. E se não fizer uma coligação conosco, senhor Sanchéz, receio que nunca seja primeiro-ministro".

Em um discurso de duas horas no Parlamento, a apresentação de candidatura mais longa no Congresso até hoje, Sánchez fez uma série de acenos ao Podemos , com ofertas de pactos de estados e compromissos em curto e médio prazo. O premier reconheceu que “um acordo não é simples”, mas apresentou um programa que descreveu como “a promessa da esquerda ”.

Nesta terça, a vice-presidente do PSOE , Carmen Calvo reiterou sua oferta, advertindo que a posição de Pablo Iglesias “complica” a negociação. Sanchéz já havia lembrado que, ao rejeitar um acordo com o PSOE, Podemos daria força ao bloco conservador, formado por Partido Popular (PP) e  Cidadãos, além do ultradireitista Vox — “uma ameaça para a democracia”, nas palavras do premier.

Leia também: Mulher arremessa mochila em brasileira dentro de ônibus no Canadá; assista

Após o resultado desta terça-feira, o PSOE convocou seu gabinete para tentar reverter a negociação. Um dos pontos de maior divergência, a Catalunha, não foi abordado diretamente no discurso de Sánchez, na segunda-feira. O Podemos, ao contrário do PSOE, defende o direito da região de realizar um plebiscito e descreve os políticos autonomistas catalães detidos como “presos políticos”. Sánchez limitou-se a defender uma Espanha “unida e diversa”.

O porta-voz dos independentistas da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Gabriel Rufián, não revelou qual será a posição do partido na segunda votação —  à espera das negociações entre PSOE e Podemos.

Já outro grupo separatista representado no Parlamento, Juntos pela Catalunya (do ex-presidente catalão Carles Puigdemont e do seu sucessor Quim Torra), votou contra a confirmação de Sánchez nesta terça-feira e disse que repetirá o voto daqui a dois dias.

"O que aconteceu na Catalunha e eu adianto a senhora Borrás que não acontecerá novamente", disse Sánchez na segunda-feira a Laura Borrás, porta-voz da Juntos pela Catalunya, deixando clara sua opinião sobre a questão.

Leia também: Líderes da UE parabenizam Johnson, mas alertam que não irão renegociar Brexit

'Representação teatral'

Neste primeiro voto, Sánchez precisava do apoio de uma maioria absoluta de deputados. Mas não se descarta que o Podemos vote contra Sánchez na quinta-feira, o que abriria um novo período de debate de dois meses, o que, segundo o próprio PSOE, é improvável. Com a falta de um acordo após esse período, novas eleições teriam que ser convocadas — a quarta em quatro anos.

Tanto PP quanto Cidadãos consideram que o pacto entre PSOE e Podemos já está fechado e que os espanhóis assistem nestes dias de debate, a uma representação teatral. Ambos rejeitaram os pedidos de Sánchez para viabilizarem o Executivo através da abstenção.

"Pedro Sánchez abriu a porta do Conselho de Ministros para a extrema esquerda. Para isso levou 84 dias? Por isso pediu a abstenção do PP? Acreditamos que é um dia que confirma o fracasso de Pedro Sánchez ", disse Teodoro García Egea, secretário-geral do PP.

Leia também: Irã anuncia prisão de 17 espiões dos Estados Unidos

O PSOE e o Podemos governaram juntos durante o curto primeiro mandato de Sánchez, a partir de junho de 2018, mas a relação foi desde então tomada por desconfiança. Desde a eleição em abril, quando foi o partido mais votado, o PSOE recusou-se por 60 dias a negociar com o Podemos, dizendo que não aceitaria que Iglesias participasse do gabinete. A situação pareceu se destravar na sexta-feira, quando Iglesias renunciou a estar no Executivo.