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Autoridades acusam estabelecimentos de 'contrariarem a moral islâmica' e tocarem 'música não autorizada'

bandeiras do Irã
Reprodução
Irã faz repressão contra restaurantes e cafés do país


Autoridades iranianas fecharam 547 cafeterias e restaurantes em Teerã por "contrariarem a moral islâmica", segundo o comandante da polícia da capital, general Hosein Rahimi. Entre as violações, estão "tocar música não autorizada" e "incitar a libertinagem", informa o jornal El País, do Irã.

 Desde a Revolução Islâmica , o regime impõe normas rigorosas de vestuário e comportamento nos espaços públicos do  Irã , e as campanhas de vigilância são recorrentes. De acordo com Rahimi, 11 proprietários de estabelecimentos comerciais foram detidos nas últimas duas semanas durante a operação, que também pretendia combater a publicidade imoral na internet.

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"(Vigiar o respeito às normas islâmicas) é uma das missões mais importantes", disse o chefe de polícia, referindo-se ao trabalho dos agentes.

Entre essas normas, destacam-se a proibição do álcool, que deu origem a um lucrativo mercado negro; a obrigação de que mulheres cubram o cabelo e as curvas do corpo em público; e o banimento de festas mistas. Os cafés são um dos poucos lugares públicos onde jovens podem se encontrar, e, por isso, são considerados um retrato do fracasso da revolução em impor valores conservadores em um país onde dois terços da população têm menos de 40 anos.

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Carros rebocados devido à música alta

Não está claro se os fechamentos anunciados pelo general Rahimi indicam uma volta às campanhas de vigilância do passado ou um gesto para agradar os mais conservadores. Na mesma ocasião, o chefe de polícia também disse que 559 carros foram levados ao depósito municipal "por darem voltas", um eufemismo para se referir ao descumprimento de normas não escritas, como ouvir música alta. Ele negou que havia disponibilizado um número de telefone para que os cidadãos pudessem denunciar "atos imorais" cometidos em espaços públicos.

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Um jovem morador de Teerã, que não quis se identificar, contou ao jornal El País que esteve em um shopping center de luxo da capital no final de semana retrasado e que não viu diferença nos estabelecimentos do local:

"Ouvi dizer que 180 restaurantes fecharam as portas por falta de carne e outros produtos que ficaram mais caros com as sanções, mas aqui no norte não notamos nada", disse.

Nos últimos anos, cafeterias e restaurantes de estilo ocidental se multiplicaram nas cidades iranianas, sobretudo na capital, onde vive um quinto dos 82 milhões de habitantes do país. Por um lado, o setor mais aberto do regime entendeu que a juventude necessita de espaços de lazer. Por outro, o próprio sistema deu origem a uma classe de novos ricos, a quem as sanções limitam as viagens e investimentos no exterior.

Em estabelecimentos como o Sepanj de Yusefabad ou o Chai Bar Cafe de Niavarán, as mulheres, sobretudo as mais jovens, costumam circular com os lenços sobre os ombros, e não na cabeça. Em ambos, a trilha sonora é composta por músicas ocidentais, o que é considerado pelos mais tradicionais "uma invasão cultural".

Com o agravamento das sanções americanas ao Irã , um certo relaxamento nas restrições sociais pôde ser notado, ao menos na capital. Para alguns observadores, essa aparente liberação é um exercício de pragmatismo diante dos problemas econômicos do país.