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Organização que reúne oposição e ativistas diz que junta promoveu resposta "desapontadora" e está protelando entrega do poder a conselho de transição

Tanque militar e população em protesto contra ditador
Reprodução/Twitter
Manifestações contra governo do Sudão já deixaram 11 mortos

Líderes dos protestos no Sudão anunciaram nesta quarta-feira que farão uma campanha de desobediência civil em retaliação ao que descrevem como resposta “desapontadora” dos militares para um governo interino. Se colocada em prática, a campanha pode pôr manifestantes e o Conselho Militar de Transição (CMT), que assumiu o poder após a derrubada do ex-presidente Omar al-Bashir, em rota de colisão depois de semanas de negociações sobre o futuro político do país.

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"Pedimos e nos preparamos para a desobediência civil", disse Madani Abbas Madani, um dos líderes da Declaração de Liberdade e Mudança de Forças, organização “guarda-chuva” que reúne grupos de oposição e ativistas políticos do Sudão .

A organização não deu detalhes sobre que tipos de ações planeja, mas o grupo já promoveu greves, marchas, ocupações, bloqueios de pontes, estradas e ferrovias e outros atos de desobediência civil nas últimas semanas. Milhares de manifestantes também permanecem acampados no entorno do complexo da sede do Ministério da Defesa na capital Cartum, numa ocupação que pressionou os militares a tal ponto que eles derrubaram Bashir, que estava no poder há 30 anos, em 11 de abril último.

Outro líder dos protestos , Khalid Omar Yousef destacou que o objetivo da campanha não é dar início a um confronto com os militares, mas apressar os esforços para resolver o impasse político. O rascunho constitucional desenhado pela organização lista os deveres do conselho de transição cívico-militar que substituiria o CMT, mas não especifica quem faria parte e qual seria a divisão de poder nele. O plano, visto pela agência Reuters, também traça as responsabilidades de um Gabinete de governo e um Legislativo de 120 cadeiras.

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Nesta terça-feira, o CMT deu boas-vindas às demandas da organização, mas afirmou que a proposta negligenciava alguns temas importantes, como a manutenção da sharia, a lei tradicional islâmica, como fonte da legislação nacional. Os manifestantes acusam a junta militar de usar este e outros temas como pretexto para adiar a entrega do poder, afirmando não serem assunto para uma Constituição provisória.

"Questões como a sharia e a língua (oficial) do Estado são armas ideológicas que o antigo regime usou para dividir o povo e evitar sua mobilização", atacou Yousef.  "Muçulmanos contra não muçulmanos, árabes contra não árabes. São coisas muito perigosas e não estamos dispostos a entrar neste jogo".

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A população do Sudão , de cerca de 40 milhões de pessoas, é aproximadamente 97% muçulmana, com o restante em maior parte formado por cristãos. O país também é um caldeirão de grupos étnicos, incluindo árabes, núbios e várias outras minorias africanas.