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Militares prometeram novo governo civil, mas com um período de transição de dois anos, o que desagradou a população sudanesa

Ministro da Defesa do Sudão, Awad Ibn Auf
Reprodução
Chefe da junta militar do Sudão renuncia e nomeia sucessor após queda de ditador

Um dia depois de liderar o movimento que levou a renúncia do ditador Omar al-Bashir , no comando do Sudão havia 30 anos, o ministro da Defesa, Awad Ibn Auf, anunciou nesta sexta-feira (12) sua decisão de deixar o cargo. Para seu lugar, nomeou como sucessor o tenente-general Abdel Fattah Abdelrahman Burhan.

Ibn Auf fez o anúncio durante um discurso transmitido pela televisão estatal do Sudão , enquanto as manifestações continuavam diante do quartel-general do exército em Cartum, mesmo após a derrubada de Bashir, para exigir uma transição. Os próprios militares viraram alvo dos protestos ao anunciarem um período de transição de dois anos.

Bashir foi denunciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, pela morte de 300 mil pessoas na região sudanesa de Darfur. Ibn Auf, à época chefe de Inteligência militar, também havia sido incluído na lista dos Estados Unidos dos responsáveis pelo massacre. Isso significa que todos os seus ativos nos EUA estão congelados e que americanos são proibidos de fazer negócios com ele, conforme confirmou a embaixada americana.

Mais cedo, o conselho militar liderado por Auf já havia dito que o país teria um novo governo civil o mais rápido possível e que o período de transição podia durar apenas um mês caso as autoridades conseguissem organizar a mudança de governo "sem caos". Em entrevista, Omar Zinelabidine, membro da junta militar, prometeu "dialogar com todas as entidades políticas, com o objetivo de preparar o clima para as negociações".

Milhares de sudaneses desafiaram o toque de recolher e pernoitaram à porta do ministério. Os principais organizadores das marchas apontaram que o povo só aceita uma transição civil.

"Eles removeram um ladrão e trouxeram um ladrão", cantaram os manifestantes, que bradaram por uma nova "revolução". Potências mundiais, como Estados Unidos e Reino Unido, informaram que apoiam uma transição democrática e pacífica em período menor do que dois anos no Sudão.

Alvo de mandado de prisão por ter reprimido a insurgência local em 2003, Bashir sempre negou as acusações e não hesitou em desafiar a autoridade do TPI com viagens a outros países.

A denúncia de genocídio fez o Sudão sofrer sanções internacionais desde os anos 1990, que agravaram a situação econômica do país, cerne dos protestos que o derrubaram. Depois da deposição forçada do ditador Bashir, o Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas pediu que o Sudão cooperasse com o TPI no cumprimento do mandado de prisão.

A junta militar, no entanto,confirmou nesta sexta-feira que o ex-presidente não será extraditado por acusações de crimes de guerra, mas poderá ser julgado dentro do Sudão , de acordo com o Conselho.