Tamanho do texto

Presidente diz que novo pleito é importante para 'reforçar democracia'; Parlamento Europeu aponta dano à credibilidade das votações no país

eleições na turquia
Reprodução/Twitter
Votação representou o maior desafio para a carreira política de Recep Tayyip Erdogan; no pleito, ele foi derrotado

Centenas de moradores de Istambul saíram às ruas para protestar contra a decisão do Alto Comitê Eleitoral da Turquia, que ordenou, nesta segunda-feira (7), a realização de novas eleições na cidade. Em diversos distritos da cidade, os manifestantes bateram panelas e frigideiras e bradaram slogans contra o governo de Recep Tayyip Erdogan, cujo conservador Partido da Justiça e Desenvolvimento havia sido derrotado no pleito.

Leia também: Opositor de Erdogan diz que é preso político no Brasil por ameaças de extradição

As eleições locais foram vistas como uma espécie de referendo sobre Erdogan , que acabou por sofrer seu primeiro recuo eleitoral em Istambul e Ancara desde que assumiu o poder, há 17 anos. A legenda do presidente e sua antecessora islamista controlavam há 25 anos Istambul, seu berço eleitoral, onde ele despontou na política como prefeito nos anos 1990.

Ekrem Imamoglu, do social-democrata Partido Popular Republicano (CHP), havia sido declarado vencedor do pleito municipal por diferença de 15 mil votos — 0,2% do eleitorado da cidade de mais de 15 milhões de habitantes. Ele tomou posse no dia 17 de abril após duas semanas de recontagem de votos.

O partido de Erdogan questionou o resultado das urnas, o que gerou críticas de opositores sobre uma suposta tentativa de interferência na eleição. O AKP apontou uma série de alegadas irregularidades na votação. Nesta segunda-feira, a autoridade eleitoral acolheu o pedido, sob fortes protestos da oposição turca e de líderes e órgãos mundiais.

O Parlamento Europeu destacou que a decisão de um novo pleito mina a credibilidade das eleições democráticas na Turquia . O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, disse que a deliberação não era transparente nem compreensível. Imamoglu classificou-a como "traiçoeira".

"Aqueles que tomam as decisões neste país podem estar (cometendo) traição, mas nunca nos renderemos, manteremos a esperança", disse ele a milhares de apoiadores, no centro de Istambul.

Leia também: Turquia diz ter áudio dos gritos de Khashoggi no momento exato de assassinato

Erdogan reivindicou a vitória geral nas eleições, ao apontar que a coalizão liderada pelo AKP obteve 51%¨na votação nacional. Mas a legenda perdeu o controle da capital Ancara primeira vez desde a sua fundação, em 2001. A derrota nos grandes centros apontou para futuras mudanças no alto escalão do governo e expôs o declínio da popularidade do presidente , que interveio pessoalmente na corrida eleitoral , sobretudo em Istambul. Ele realizou oito comícios de campanha por dia em todo o país e retratou a votação como uma questão de "sobrevivência nacional".

Erdogan exalta 'reforço' à democracia

O presidente ressaltou a jornalistas, nesta terça-feira (7), que o ex-primeiro-ministro turco Binali Yildirim será o candidato do AKP na votação de junho. O mesmo político derrotado por Imamoglu no pleito de 31 de março. Durante encontro com parlamentares em Ancara, Erdogan defendeu a realização de novas eleições na cidade.

"Nós vemos isso como um passo importante para reforçar nossa democracia", disse ele no Parlamento. "Nós acreditamos que houve corrupção organizada e total ilegalidade nas eleições municipais de Istambul ".

O anúncio da autoridade eleitoral intensificou a queda de valor da lira turca. A moeda acumula baixa de 14% só este ano dada a incerteza política nacional e as críticas de líderes do empresariado à reação governista ao resultado das urnas. A inflação atingiu 20% nos últimos meses. Erdogan denunciou "sabotagem econômica" e pediu que os empresários "se coloquem nos seus lugares".

O presidente turco também adotou tom mais negativo na campanha do que nas eleições anteriores. Ameaçou processos judiciais, acusou a oposição de criminalidade ou terrorismo, invocou um suposto choque de civilizações e inflamou a ira nacionalista nos comícios.

Leia também: Morte de jornalista foi encomendada por governo da Arábia Saudita, diz ONU

As eleições municipais costumam chamar pouca atenção fora da Turquia. Mas os votos locais para prefeitos, conselhos municipais e administradores de bairros foram vistos como críticos para o poder de Erdogan . Os municípios representam o núcleo de sua base de poder conservadora e uma fonte de renda para seu partido.