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Assange vivia em asilo na Embaixada do Equador em Londres há sete anos; ele revelou informações secretas da 'Guerra ao Terror' do governo americano

Julian Assange
PA
Julian Assange vivia na Embaixada do Equador há sete anos, mas teve seu asilo cancelado

O australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks, foi preso na manhã desta quinta-feira (11), na embaixada do Equador, em Londres. O australiano estava exilado na sede diplomática equatoriana desde 2012, quando quis evitar ser extraditado para a Suécia, onde respondia a uma acusação de estupro.

O processo na Suécia foi encerrado anos depois, mas Julian Assange permaneceu recluso na embaixada por temer uma investigação dos Estados Unidos. O Wikileaks é alvo do governo americano desde que revelou segredos da "Guerra ao Terror" promovida pelo país.

Entenda por que o ativista australiano se tornou uma pessoa incômoda tanto para o governo dos Estados Unidos quanto para o do Equador, que decidiu cancelar o asilo nesta quinta-feira.

Leia também: Fundador do WikiLeaks, Julian Assange é indiciado nos Estados Unidos

Wikileaks publica documentos americanos confidenciais

O Wikileaks entrou em cena em 2010, quando passou a publicar informações secretas sobre a atividade militar americana no Iraque e no Afeganistão ao longo de vários meses. Em julho, publicou um arquivo com seis anos de documentos militares confidenciais sobre a guerra no Afeganistão. O grupo divulgou um segundo montante de relatórios secretos, desta vez sobre a Guerra do Iraque, em outubro. No mês seguinte, publicou 250 mil telegramas diplomáticos confidenciais americanos que mostravam os bastidores das negociações entre Estados Unidos e aliados durante a "Guerra ao Terror" lançada pelo governo de George W. Bush depois do 11 de Setembro.

Nos anos recentes, Assange passou a ser criticado nos meios democratas nos Estados Unidos por supostamente procurar beneficiar a Rússia com vazamentos de material confidencial. Em 2016, ele divulgou, por exemplo, e-mails da campanha de Hillary Clinton obtidos quando hackers russos invadiram computadores do Comitê Nacional Democrata.

EUA condenam soldado Manning

Parte do material sobre as guerras no Afeganistão e no Iraque foi entregue ao Wikileaks pela soldado Chelsea Manning —  na época Bradley Mannning —, presa e condenada em 2013 a 35 anos de prisão por violação da Lei de Espionagem. Manning ficou na cadeia até ser indultada em 2017 pelo então presidente Barack Obama .

Investigação de estupro e pedido de extradição da Suécia

Entre agosto e setembro de 2010, o australiano foi alvo de acusações de estupro e abuso sexual feitas por duas mulheres na Suécia, onde havia morado. A Suécia pediu a extradição dele ao Reino Unido, a fim de interrogá-lo. Ele disse temer que a Suécia o entregasse aos Estados Unidos e prometeu lutar contra o pedido de extradição. Assange afirma que as acusações são falsas e são usadas para promover uma perseguição contra ele em função do seu trabalho no Wikileaks.

Justiça britânica aprova extradição

Um tribunal britânico decidiu em novembro de 2011 que Assange poderia ser extraditado para a Suécia. Seus advogados contestaram essa decisão, argumentando que ele não receberia um julgamento justo se isso acontecesse. Ele perdeu seu último recurso na Suprema Corte da Grã-Bretanha em junho de 2012.

Equador concede asilo a Assange

Assange então buscou refúgio na embaixada do Equador em Londres e recebeu asilo diplomático em agosto de 2012. A decisão deixou Assange confinado: se ele deixasse o edifício, seria preso pela polícia britânica.

Painel da ONU decide a seu favor

O Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, encarregado de verificar a implementação de tratados sobre direitos civis, determinou em janeiro de 2016 que a Grã-Bretanha e a Suécia haviam arbitrariamente detido Assange, e que deveriam restaurar sua liberdade de ir e vir e compensá-lo. O comitê disse que os promotores suecos não haviam acusado formalmente o australiano e que nunca haviam mostrado provas contra ele. A decisão foi desconsiderada pelos dois países, e Assange permaneceu na embaixada.

Interrogatório na embaixada

Promotores suecos, com a ajuda do Equador, interrogaram Assange por quatro horas na embaixada em Londres, em novembro de 2016. Seu advogado sueco, Per E. Samuelson, não foi convocado para comparecer e a validade do depoimento foi questionada.

Um novo presidente equatoriano

Lenín Moreno
Reprodução/Twitter
Lenín Moreno rompeu com seu antecessor logo após a eleição e as relações com Assange tornaram-se mais conflituosas

Lenín Moreno é eleito presidente do Equador em 2017 e e rompe com seu antecessor e ex-aliado Rafael Correa, que havia concedido o asilo a Assange. Moreno disse que deixaria o australiano permanecer na embaixada, mas passou a  negociar o fim do asilo com o Reino Unido. Também chamou Assange de hacker, reduziu seu acesso à internet e o advertiu a não fazer declarações políticas.

Suécia arquiva investigação sobre estupro

Em maio de 2017, os promotores suecos anunciaram que encerrariam a investigação de estupro contra Assange. A procuradora-geral, Marianne Ny, deixou claro que isso não significava que ele estava sendo declarado inocente. Ny disse que prosseguir com o caso exigiria que Assange fosse notificado das acusações contra ele e que ele estivesse presente em um tribunal sueco, o que era impossível. Na Grã-Bretanha, Assange ainda enfrenta um mandado de prisão por não comparecer à Justiça depois que sua extradição foi aprovada. A Polícia Metropolitana de Londres disse que o prenderia se ele tentasse deixar a embaixada. Os advogados do australiano tentaram derrubar o mandado de prisão duas vezes, mas em ambas foi derrotado na Justiça.

Equador concede cidadania

No início de 2018, o Equador anunciou que havia tomado medidas para acabar com o longo impasse diplomático, incluindo a  concessão da cidadania a Assange em dezembro, alguns meses depois de ele ter solicitado. Dias depois, o Equador pediu que o Reino Unido concedesse imunidade diplomática a Assange para que ele pudesse deixar a embaixada, mas o pedido foi recusado. O governo equatoriano então disse que buscaria um mediador para ajudar a negociar um possível acordo que o liberaria para deixar o prédio.

Relação com Equador azeda

As relações de Assange com seus anfitriões mudaram desde a mudança na Presidência do Equador. Assange se tornou figura indigesta para Quito e chegou a processar o país por violar seus direitos fundamentais.

Um dos advogados do australiano disse, em outubro, que ele estaria disposto a se entregar caso tivesse assegurado que não seria extraditado para os EUA. O chanceler equatoriano disse, no mesmo mês, que o Equador, decepcionado com o processo, não pretendia mais intervir junto ao governo britânico em favor de Assange.

Quito acusa Wikileaks de violar termos do asilo

O presidente do Equador, Lenín Moreno, disse que o asilo não podia ser eterno, mas expressou preocupação com a possibilidade de Assange ser extraditado aos EUA.

Em março, o governo acusou o fundador do Wikileaks de vazar informações sobre a vida pessoal do presidente Lenín Moreno, que sucedeu Rafael Correa. A relação afundou de vez. Moreno apontou que Assange violou os termos do seu asilo.

Wikileaks denuncia espionagem de Assange

Na véspera da prisão, o Wikileaks denunciou que Assange fora alvo de uma sofisticada operação de espionagem na embaixada equatoriana. Segundo o grupo, vídeos, áudios, fotografias, cópias de documentos legais e até mesmo um relatório médico apareceram na Espanha, onde um grupo ameaçou publicar a menos que recebesse € 3 milhões (R$ 12,9 milhões).

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Kristinn Hrafnsson, editor-chefe do Wikileaks, disse, na ocasião, que aumentavam as tentativas de expulsar Julian Assange da embaixada. Ele não deu provas de suas afirmações, mas apontou que a vigilância fazia parte de um complô com intenção de conseguir extraditar o ativista para os Estados Unidos.