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Jornal 'Yeni Safak' diz que teve acesso a áudio feito dentro do consulado saudita em Istambul, onde Jamal Khashoggi desapareceu em 2 de outubro

Jornalista saudita Jamal Khashoggi está desaparecido há sete dias e foi visto pela última vez entrando na embaixada de seu país na Turquia
Reprodução/Al Manar
Jornalista saudita Jamal Khashoggi está desaparecido há sete dias e foi visto pela última vez entrando na embaixada de seu país na Turquia

O jornalista saudita Jamal Khashoggi desaparecido desde 2 de outubro foi torturado e decapitado dentro do consulado de seu país em Istambul, na Turquia, informou o jornal turco Yeni Safak nesta quarta-feira (17).

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O periódico, que é ligado ao governo turno, afirma que teve acesso a um áudio que mostra que os agentes sauditas cortaram os dedos do jornalista jaudita durante o interrogatório na representação diplomática. Ainda segundo descreve o jornal, "depois sua cabeça foi cortada até a morte". O Yeni Safak , no entanto, não explicou como obteve acesso aos áudios. 

Na sequência da gravação, o jornal relata que é possível ouvir a voz do cônsul saudita Mohammad Al Otaibi dizendo "façam isto lá fora. Vocês vão me causar problemas", ao que um homem não identificado responde "se você quiser continuar vivo quando voltar à Arábia Saudita, fique quieto". O cônsul Al Otaibi deixou Istambul na última terça-feira (16).

Essa é a primeira vez que uma publicação turca afirma ter tido acesso a um áudio de dentro do consulado. Anteriormente, o jornal turco The Sabah  afirmou que a gravação teria sido feita pelo Apple Watch do próprio Jamal Khashoggi e recuperado de sua conta online.

Em entrevista à emissora britânica BBC , o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, expressou seu temor de que desaparecimentos como o do jornalista saudita ocorram de maneira mais frequente e sejam considerados algo "normal", além de exigir "a verdade" sobre o desaparecimento de Jamal Khashoggi . Para Guterres, é fundamental garantir que a comunidade internacional "diga claramente que isso não pode acontecer".

António Guterres, secretário-geral da ONU, exigiu investigações esclarecedores sobre o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi
Reprodução/ONU
António Guterres, secretário-geral da ONU, exigiu investigações esclarecedores sobre o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi

Mais tarde, o secretário-geral da ONU disse que "precisamos saber exatamente o que aconteceu e precisamos saber exatamente quem é o responsável" durante uma reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Bali, na Índia. "No momento em que essas situações se multiplicam, acredito que necessitamos encontrar uma maneira de que a responsabilidade por esses atos também seja exigida", ressaltou.

Segundo adiantou a BBC, uma fonte de segurança turca, cuja identidade não foi revelada, indicou que funcionários de seu país tinham material em áudio e vídeo que comprovam que Jamal Khashoggi foi assassinado nas instalações do consulado na Turquia. Não se sabe, no entanto, se o áudio que o jornal turco teve acesso foi o mesmo e nenhum vídeo foi divulgado, tanpouco citado na reportagem.

O caso gerou repercussão internacional e Mike Pompeo, secretário de estado americano, visitou a capital saudita, Riad, na terça-feira (16), onde se encontrou com o rei Salman e com o filho dele, o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, antes de viajar para a própria Turquia nesta quarta-feira (17).

O governo saudita, por sua vez, afirmou a Pompeo que está disposto a fazer uma exaustiva investigação ao que o secretário de estado americano delcarou que "foram muito claros. Compreendem a importância deste problema, estão decididos a seguir até o fim das investigações".

Até o momento, o que se sabe oficialmente é que um grupo de investigadores, formado por Turquia e Arábia Saudita, fez busca por várias horas no consulado saudita em Istambul. Uma autoridade turca disse à agência Associated Press que os investigadores encontraram uma nova evidência de que Jamal Khashoggi foi morto no local. No entanto, outra autoridade de segurança disse à rede Al Jazira que não foi encontrada nenhuma evidência conclusiva.

De qualquer forma, o governo turco que, através de seu presidente Recep Tayyip Erdogan já tinha alertado que seu país não permaneceria em silêncio sobre o desaparecimento de Jamal Khashoggi, agora acusa o governo saudita de ter ordenado o assassinato do jornalista a uma equipe enviada ao consulado.

A imprensa americana chegou a informar que a Arábia Saudita cogitava reconhecer a morte do jornalista durante um interrogatório no consulado e atribuir o fato a "agentes fora de controle", o que não aconteceu ainda. Pelo contrário, até então, o governo saudita chama as acusações de "mentirosas" e classifica as informações sobre o assassinato do jornalista no consulado saudita na Turquia como "sem fundamento".

O presidente norte-americano Donald Trump, cujo país é aliado tradicional da Arábia Saudita, também continua pedindo explicações ao governo saudita sobre o sumiço do jornalista. Nesta quarta-feira (17), o secretário de estado americano, Pompeo se reunirá com o presidente turco e com o ministro das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu, para tentar obter mais informações sobre as investigações do caso.

Entenda o caso de desaparecimento do jornalista saudita

Jornalista saudita Jamal Khashoggi escrevia para o jornal The Washington Post e também tinha cidadania americana
Reprodução/Al Manar
Jornalista saudita Jamal Khashoggi escrevia para o jornal The Washington Post e também tinha cidadania americana

Em 2 de outubro, Jamal Khashoggi, de 59 anos, que era crítico ao governo da Arábia Saudita liderado pelo rei Salmab bin Abdulaziz Al Saud desde 23 de janeiro de 2015, foi ao consulado de seu país, em Istambul, para resolver trâmites burocráticos relativos a seu casamento com uma cidadã turca. Ele foi visto entrando no consulado por câmeras de segurança e está desaparecido desde então.

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O jornalista saudita escrevia para o jornal norte-americano The Washingont Post e seu desaparecimento gerou indignação contra o reino saudita. Ele também tinha cidadania americana e morava nos Estados Unidos desde 2017, até por isso, os americanos acompanham a investigação.