Recuperação de ambientes marinhos alvo da pesca de arrasto pode levar anos
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Recuperação de ambientes marinhos alvo da pesca de arrasto pode levar anos

A capacidade de capturar grandes volumes de animais marinhos em uma única operação tornou a pesca  de arrasto uma das técnicas mais utilizadas pela indústria pesqueira comercial. A modalidade de arrasto de fundo, por exemplo, responde por cerca de 19 milhões de toneladas de peixes e invertebrados capturados anualmente. No entanto, é uma das formas de exploração humana que mais perturba os habitats do leito marinho em todo o mundo. 

A técnica utiliza redes de grandes dimensões, geralmente em formato de funil, que são rebocadas por embarcações para reunir os animais em seu interior. Na modalidade de fundo, estruturas pesadas e uma linha inferior com pesos mantêm a rede próxima ao solo oceânico. Durante o deslocamento, o equipamento revolve o sedimento e captura espécies como bacalhau, linguado e camarão.

Há também o arrasto pelágico, conhecido como pesca de meia-água, que busca espécies como o escamudo e o arenque em áreas mais afastadas do leito marinho. Mesmo nesse caso, os equipamentos podem atingir o fundo quando os cardumes se concentram em profundidades menores. Nas operações industriais, as redes chegam a dimensões comparáveis às de vários campos de futebol, ampliando a área potencialmente afetada pela atividade.


Captura ameaça animais marinhos

Além das espécies procuradas pelos pescadores, as redes podem capturar outros animais, como tubarões, raias e tartarugas. Conhecido como captura incidental, esse fenômeno faz com que organismos sem interesse comercial para determinada operação sejam frequentemente devolvidos ao mar, muitas vezes mortos.

Um estudo publicado em 2020, com base em dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), estimou que mais de 9 milhões de toneladas de animais marinhos foram descartadas anualmente pela atividade pesqueira entre 2010 e 2014. O volume representava cerca de 11% da captura total no período. As pescarias que utilizam redes de arrasto responderam por quase 60% desses descartes.

A extensão dos danos também preocupa pesquisadores que estudam os ecossistemas oceânicos. Simon Thrush, professor de ciências marinhas da Universidade de Auckland, ressalta a necessidade de reconhecer os impactos provocados pela atividade, mesmo quando eles ocorrem longe das áreas habitadas.

É necessário que as pessoas deixem de tratar o oceano como algo que, por estar fora de vista, pode ser esquecido Simon Thrush, Universidade de Auckland


Para reduzir as capturas não intencionais, algumas pescarias adotam dispositivos que permitem a fuga de determinados animais antes que as redes sejam recolhidas. A eficácia dessas soluções varia conforme as espécies e os equipamentos utilizados. Os pescadores também podem evitar regiões com grande concentração de animais que não são o alvo da operação, embora essas medidas não eliminem completamente o problema.

Pesca de arrasto
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Pesca de arrasto


Arrasto danifica habitats e ameaça a biodiversidade

Quando os equipamentos são arrastados pelo leito marinho, podem quebrar, remover ou danificar corais e esponjas, organismos que oferecem abrigo e alimento para diversas espécies. Caranguejos e outros animais que vivem junto ao fundo também ficam expostos aos efeitos da atividade.

A recuperação desses ambientes pode levar muito tempo. Corais e esponjas de águas profundas apresentam crescimento lento e, dependendo das condições, precisam de décadas ou séculos para se restabelecer após sofrerem danos.

Thrush ressalta que algumas dessas estruturas naturais levam milhares de anos para atingir grandes dimensões. Segundo o pesquisador, corais de águas profundas podem crescer até alcançar cerca de 30 metros de altura, formando habitats complexos que são destruídos pelo contato com as redes.

Além de comprometer os habitats marinhos, a pesca de arrasto de fundo pode interferir no ciclo do carbono. Os sedimentos oceânicos armazenam grandes quantidades desse elemento, acumulado ao longo do tempo na matéria orgânica depositada no leito marinho.

Quando as redes e outros equipamentos danificam o fundo, parte desse material enterrado fica exposta ao oxigênio e à ação de microrganismos. Nesse processo, uma parcela do carbono pode ser convertida em dióxido de carbono (CO₂), um dos gases responsáveis pelo aquecimento global.

Um estudo publicado na revista Marine Conservation and Sustainability em 2024 estimou que entre 55% e 60% do CO₂ produzido nesse processo chega à atmosfera em até dez anos. A liberação desse gás pode contribuir para intensificar o aquecimento do planeta, embora a quantidade efetivamente emitida dependa de diferentes fatores ambientais.

Ainda existem incertezas sobre o volume total de carbono mobilizado e convertido em CO₂ pela atividade. O estudo, no entanto, estimou que as emissões associadas ao processo podem chegar a aproximadamente o dobro das produzidas pela queima de combustíveis de toda a frota pesqueira mundial.

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