Amazônia em chamas
Sérgio Vale/Amazônia Real/Fotos Públicas
Amazônia em chamas

Se fossem oficialmente contabilizadas, as emissões de carbono causadas por incêndios florestais na Amazônia aumentariam em 21% o total de CO₂ gerado pelo desmatamento desde 2005. Os dados foram levantados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e apresentados nesta sexta-feira (05) durante a COP-26 em Glasgow, na Escócia .

O estudo inédito busca suprir uma lacuna dos inventários nacionais, que reportam as emissões imediatas causadas pelos incêndios florestais, mas não os gases emitidos depois. O carbono gerado pela combustão e pela decomposição da mata desde 1990, descobriu o Ipam, seria equivalente à média anual de emissões do Japão nos últimos 15 anos, ou 1,298 bilhão de toneladas.

O CO₂ gerado tardiamente, de acordo com o levantamento, seria responsável por 63% do total analisado. Quando o fogo penetra na mata densa, ele avança lentamente e mantendo baixas temperaturas, destruindo o solo da floresta. Logo, mata também as árvores, que não são resistentes a altas temperaturas.

"Desenvolvemos um método com base em vários artigos científicos, de pessoas que mediram o impacto do fogo, dos incêndios florestais na redução da biomassa, na combustão, na mortalidade de árvores", disse Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam.

As chamas, explica Alencar, geralmente são decorrentes de queimadas intencionais, em sua maior parte para desmatar ou para o manejo de pasto, que se espalham e adentram na floresta. Desde 1985, mais de 215 km² de vegetação nativa da Amazônia Brasileira queimou ao menos uma vez. Cinquenta e oito por cento do total pegou fogo em mais de uma ocasião — e as estimativas, diz o estudo, são conservadoras.

"A Amazônia é úmida e não deveria queimar. As ações humanas estão mudando as condições que fazem com que floresta comece a ter incêndios florestais — afirmou Alencar".

Impacto na absorção


Quase metade da floresta atingida pelos incêndios florestais foi desmatada até 2020, e se a incidência do fogo caiu 33% no último ano, alertou a cientista, isso não se deve a uma mudança de tendência. É um impacto das circunstâncias climáticas, principalmente do fenômeno La Niña, que aumentou a incidência pluviométrica no Norte e no Nordeste entre 2020 e 2021.

Florestas devastada pelo fogo, por sua vez, armazenam 25% menos carbono que matas virgens e podem ser uma fonte de CO2 por ao menos uma década. Isso pode significar que o governo brasileiro está superestimando a capacidade de absorção de carbono da Amazônia — algo com possíveis impactos para o cumprimento da promessa brasileira de neutralizar suas emissões até 2050.

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"Estudos recentes mostram que a Amazônia, no que diz respeito às emissões, agora é neutra ou é uma emissora de carbono", disse o professor Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, o IPCC.

A meta foi reforçada na segunda pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, na segunda, durante a revisão do compromisso brasileiro de cortar suas emissões pela metade até 2030, ao invés dos 43% prometidos anteriormente. No entanto, na melhor das hipóteses, segundo a avaliação de especialistas, a revisão apenas corrigirá uma manobra contábil feita pelo governo no final do ano passado, sem representar maior ambição.

Aumento do desmatamento


O governo também promete zerar o desmatamento ilegal até 2028, dois anos antes do anunciado, mas especialistas apontam que o governo não tem um plano real para fazê-lo. Também há questionamentos sobre o comprometimento real de Bolsonaro, que não foi à cúpula de líderes da COP-26, com a causa.

A devastação bateu recorde nos dois primeiros anos de governo, que ainda não divulgou os dados compilados referentes a 2021. Um levantamento feito pelo Instituto Imazon, contudo, apontou que o desmatamento na Amazônia entre agosto de 2020 e julho de 2021 foi o maior dos últimos dez anos: a área destruída equivale a nove vezes a cidade do Rio de Janeiro.

Dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), por sua vez, mostram que a Amazônia Legal teve 795,7 km² sob alerta de desmatamento até 29 de outubro, a segunda maior taxa para o mês desde que o monitoramento começou. O recorde foi em 2020.

De acordo com a pesquisa recém-divulgada do Ipam, outro dado preocupante é que quase 21 mil km² de florestas queimadas vêm de áreas protegidas, que estão se tornando uma fonte de emissões. Elas liberaram 192 milhões de toneladas desde 1990, 65% delas derivadas da decomposição e dos impactos posteriores ao fogo.

O instituto recomenda que o governo crie mais políticas para combater os incêndios florestais, algo diretamente relacionado ao combate ao desmatamento. Entre elas, fortalecer as agências de fiscalização e combater a impunidade dos responsáveis por crimes ambientais. Estas medidas, segundo o instituto, podem cortar pelo menos pela metade o desmatamento em terras públicas.

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