Enem Digital
Toffetti / A7 Press / Agência O Globo
Enem Digital funcionará como projeto piloto em 2020

Em 2020 o Enem acontecerá pela primeira vez também na versão digital. Até 150 mil candidatos poderão optar por ter acesso à prova usando um computador, ao invés do tradicional caderno de perguntas.

A novidade, no entanto, envolve mais fatores do que uma simples mudança de meio. Especialistas ouvidos pelo Portal  iG opinaram sobre as principais vantagens e desvantagens do Enem Digital .

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Para Fernando Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do Sistema Poliedro, a primeira diferença notada no novo modelo é que o Enem Digital permite que a prova seja feita em menos tempo. Segundo ele, isso se dá principalmente porque no modelo on-line não é necessário preencher o gabarito, o que tomava ao menos 20 minutos. 

A ausência de gabarito também evita erros que costumam acontecer na hora de seu preenchimento. Além disso, Fernando acredita que para o estudante navegar pela prova no computador é mais prático do que ter que ficar virando as páginas do caderno de perguntas, outro fator que resulta na economia de tempo.

Por outro lado, Fernando destaca que o ambiente virtual também pode dificultar a organização dos estudantes que estão acostumados a ler a prova grifando e destacando palavras-chave.

Os alunos fizeram provas impressas a vida inteira e acabam ficando perdidos com o novo modelo, explica Fernando, que acredita que isso pode desestabilizar os candidatos. O coordenador aponta que muitos de seus estudantes sinalizam que vão optar por fazer a prova impressa, por já terem familiaridade com o modelo.

Fernando levanta uma questão que ainda não foram respondidas pelo Inep acerca do funcionamento do Enem Digital. Os estudantes ainda não sabem se deverão responder a prova na ordem ou se podem pular para uma questão ou área de conhecimento que tenham mais facilidade.

Sara Azevedo, coordenadora do Emancipa e professora na rede pública de Minas Gerais, é muito crítica ao formato. Ela destaca que “no digital, a materialidade é diferente em cada local”.

Ela aponta que aqueles que realizarem a prova em escolas públicas não terão acesso a computadores com modelos e memória muito diferentes daqueles que fizerem o exame em universidades particulares, por exemplo.

Além disso, a coordenadora ressalta que o teste vai acontecer em um ano atípico, marcado pela pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2), quando os candidatos tiveram realidades de preparação ainda mais díspares do que as normais. 

Ela porém concorda que aqueles que tiverem boas condições materiais terão o tempo como um ponto positivo em relação à versão anterior.

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Desigualdade social

Em cursinhos como o Poliedro, os estudantes além de terem as aulas em vídeo neste período de pandemia, estão tendo acesso ainda a simulados digitais , com o objetivo de se acostumarem com esse novo formato de prova.

“Nós, enquanto instituição de ensino já vamos pensando nos alunos que vão chegar no Enem em 2026 [quando o MEC prevê que o Enem será completamente digital], então já estamos colocando eles em um cenário mais digital, para ir desenvolvendo essas competências”, explica Fernando Santo.

No entanto, esta realidade não se aplica à maioria das pessoas. Sara Azevedo afirma que enquanto alunos de escolas particulares têm oportunidades de se preparar para uma prova diferente, em muitas escolas públicas não há sequer computadores e, quando há, eles não são suficientes para a turma toda.

“A tendência é de que o Enem seja mais exclusivo ainda. Vai ser para uma camada da população que tenha internet boa”, diz Sara.

Com o cancelamento das aulas presenciais em função da pandemia, muitos alunos de escolas públicas não estão tendo aulas on-line, seja por falta de estrutura das escolas ou por não possuírem computador ou internet em casa, o que afeta seu desempenho no Enem. “As desigualdades que já existiam vão se acentuar de forma brutal”, define Sara. 

Vantagens e desvantagens a longo prazo

O MEC afirma que até 2026 a Enem será realizado de maneira completamente digital. Para Fernando Santo, do curso Poliedro, a principal vantagem desta transição é a redução de custo para a realização da prova, que atualmente chega na casa dos bilhões de reais.

Outro ponto destacado por ele, é a possibilidade de realizar mais de uma aplicação por ano. “Hoje a gente tem um cenário de tudo ou nada”, explica. Na sua opinião, com mais provas o aluno tem mais opções e pode melhorar a cada etapa.

Porém, para Sara Azevedo, do Emancipa, o prazo colocado para o Ministério da Educação é curto demais para que a transição seja feita de forma igualitária.

“Para chegarmos em um Enem que seja completamente digital, teria que passar por esse processo todo de materialização dentro das escolas públicas”, explica, cética de que as instituições públicas terão computadores de qualidade daqui a seis anos para que todos possam se preparar para a prova.

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Além disso, ela também acredita que seis anos é pouco tempo para que seja desenvolvido e testado um sistema que garanta a confidencialidade da prova. Sara relembra que com a prova física já existiram denúncias de fraude no passado e com o exame digital há ainda mais riscos por conta de possíveis hackers.

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