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Primeiro projeto do Brasil que trabalha com educação na rua, Escola da Vida oferece aulas de letramento e raciocínio lógico; objetivo é empoderamento

Facilitadoras dão oficina a estudantes que estão sentados em um semi-círculo em frente ao carrinho
Divulgação/Escola da Vida
Oficinas da Escola da Vida acontecem durante o dia e à noite em espaços públicos de Olinda

“A gente quer mudar de vida”, resume Luiz Augusto da Silva, o Guga, sobre a motivação dos alunos do projeto Escola da Vida, uma iniciativa da Universidade Federal Rural de Pernambuco em parceria com a Organização Social Centro de Prevenção às Dependências.

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O Escola da Vida é o primeiro projeto do Brasil que trabalha com educação diretamente na rua. Ele leva cursos de letramento e raciocínio lógico para pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social em Olinda, na Grande Recife.

As oficinas acontecem na própria rua, com o apoio de um carrinho doado pela prefeitura, que estaciona em um dos oito locais selecionados para as aulas e, abrindo seus compartimentos, rapidamente transforma-se em uma sala de aula. O carrinho é equipado com biblioteca, água, material didático, bancos e um gerador, para possibilitar as aulas noturnas.

Carrinho da Escola da Vida fechado
Divulgação/Escola da Vida
O carrinho leva a sala de aula para oito lugares diferentes de Olinda

Segundo a coordenadora do projeto, Ana Glória Melcop, o objetivo principal de oferecer o curso em espaços públicos é derrubar muros, democratizar a educação e fazer com que a escola e o letramento cheguem até onde essas pessoas estão.

Ela defende o projeto como um exemplo de política pública pensada para chegar “até as pessoas, onde as pessoas possam ter acesso”. A inscrição dos participamentes se dá de acordo com essa lógica: em vez de esperar que os interessados fossem até eles, os responsáveis pelo projeto mapearam os lugares em Olinda onde se encontrava o público-alvo, aproximaram-se das pessoas e analisaram o perfil.

Atualmente, 16 turmas participam do projeto. Cada uma delas tem 32 oficinas, divididas em quatro módulos, que acontecem duas vezes por semana em sessões que duram cerca de 1h30.

As aulas buscam transformar elementos presentes na vida dos alunos em conteúdo para facilitar a alfabetização e o aprendizado de raciocínio lógico, que acontecem em formato dinâmico e lúdico, seguindo os fundamentos da educação popular.

Além disso, noções de direitos humanos e cuidados com a saúde também fazem parte das oficinas. Os professores trabalham a auto-estima, a cidadania e o empoderamento de quem participa do projeto com o objetivo final de possibilitar outros caminhos de vida, elevando a escolaridade dos estudantes e estimulando a leitura e o retorno aos estudos.

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Estudantes sentados em semi-círculo em frente ao carrinho aguardam o início da oficina
Divulgação/Escola da Vida
O curso está dividido em 32 oficinas, organizadas em quatro módulos

Guga mora em uma comunidade em Olinda, onde passa grande parte de seus dias, uma vez que está desempregado. Ele estudou até a quinta série e costumava trabalhar como ajudante de pedreiro, mas conta que hoje em dia está difícil arrumar emprego. No projeto, ele deposita suas esperanças para uma vida melhor.

“Eu e meus colegas, se for no ritmo mesmo, continuando no projeto Escola da Vida, a gente vai conseguir algum objetivo, não é possível!”, diz. Seu sonho é terminar os estudos, buscar mais cursos e se tornar pedreiro.

Como ele, Gabrielly Marinho, de 23 anos, procura mudança. Ela estudou até a oitava série, está desempregada e vive na rua há quase quatro anos. Ao saber do projeto, vislumbrou uma possibilidade de voltar para o caminho dos estudos e perseguir seu sonho de trabalhar fazendo caridade.

Gabrielly já vê mudanças positivas: “Ele já está me ajudando muito, porque ele já despertou o interesse de voltar para a escola. Depois que eu conheci o projeto, já melhorou bastante minha vida, já deu pra pensar mais em mim, não pensar em só ficar usando droga pela rua”.

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Gabrielly Marinho sorri em frente a biblioteca da Escola da Vida
Divulgação/Escola da Vida
Gabrielly Marinho diz que projeto já ajudou a despertar a vontade de voltar aos estudos

O relato de Gabrielly endossa o discurso da coordenadora do curso, Ana Glória. Ela explica que a educação é uma política pública que traz outras demandas. Segundo Ana, quando munidas de informação, as pessoas adquirem novos sonhos e desejos, além de uma visão de mundo mais crítica.

Para a coordenadora, que também participa de algumas oficinas, o aspecto mais positivo é ver a força de vontade dos estudantes. "Estar na rua trás uma marca forte de rejeição, de exclusão, de solidão. Eles são pessoas invisíveis”, diz a Ana Glória, que relata sua experiência pessoal com o projeto como "muito positiva, impactante e emocionante".

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Nem Gabrielly nem Guga conseguem responder qual sua parte preferida desse projeto-piloto. Eles dizem amar cada momento. Ao longo da conversa, Guga não cansa de dizer o quanto está adorando. “Tomara que continue sempre em todas as comunidades, para pessoas que não têm estudo poderem aprender”.

No Brasil, 7% da população ainda é de analfabetos, segundo a Pnad contínua, e 1 milhão destas pessoas vivem em Pernambuco. Por isso, a UFRPE pretende reproduzir a experiência da  Escola da Vida que acontece em Olinda em outros municípios do estado.